{"id":185215,"date":"2018-07-12T14:35:27","date_gmt":"2018-07-12T17:35:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=185215"},"modified":"2018-07-12T14:35:27","modified_gmt":"2018-07-12T17:35:27","slug":"por-que-jogadores-levam-as-maos-a-cabeca-apos-erros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/por-que-jogadores-levam-as-maos-a-cabeca-apos-erros\/","title":{"rendered":"Por que jogadores levam as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a ap\u00f3s erros?"},"content":{"rendered":"<p>Em jogos de futebol, gols podem ser raros e demorar demais a acontecer, o que ajuda a explicar a natureza delirante da maioria das comemora\u00e7\u00f5es quando eles surgem.<\/p>\n<p>Alguns jogadores arrancam as camisas, ou caem de joelhos e deslizam pelo gramado para demonstrar felicidade. \u00c9 frequente que terminem embaixo de uma pilha de companheiros de time exultantes.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m temos o caso dos jogadores que t\u00eam uma oportunidade clara de marcar um gol e, por qualquer que seja a raz\u00e3o, falham. Quando isso acontece, todos fazem a mesma coisa: erguem as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a &#8211; aparentemente um gesto universal que significa &#8220;mas como eu fui perder essa oportunidade?&#8221;<\/p>\n<p>Se voc\u00ea est\u00e1 acompanhando a Copa do Mundo, \u00e9 prov\u00e1vel que o tenha visto dezenas de vezes, envolvendo jogadores de todas as posi\u00e7\u00f5es e de cada pa\u00eds participante.<\/p>\n<p>Lionel Messi recorreu ao gesto, assim como Cristiano Ronaldo. Fran\u00e7a. B\u00e9lgica, Inglaterra e Cro\u00e1cia chegaram \u00e0s semifinais, mas seus jogadores tamb\u00e9m recorreram a esse gesto de decep\u00e7\u00e3o. Ele nada tem a ver com o futebol, e se relaciona diretamente com a psique humana, de acordo com zo\u00f3logos, psic\u00f3logos e outras pessoas que estudam esse tipo de coisa.<\/p>\n<p>O gesto significa que &#8220;a pessoa sabe que falhou&#8221;, disse Jessica Tracy, professora de psicologia na Universidade da Col\u00fambia Brit\u00e2nica (Canad\u00e1). &#8220;O gesto dir\u00e1 aos outros que a pessoa sabe que errou, e lamenta, e portanto n\u00e3o \u00e9 preciso expuls\u00e1-la do grupo, ou mat\u00e1-la&#8221;.<\/p>\n<p>O gesto n\u00e3o se limita a quem erra o chute. Em um dos fiascos futebol\u00edsticos mais reprisados de todos os tempos, Yakubu Aiyegbeni, da Nig\u00e9ria, errou um chute com o gol vazio e a apenas tr\u00eas metros de dist\u00e2ncia, na Copa do Mundo de 2010. Ele mal se mexeu depois do erro, mas quase todos os seus colegas de sele\u00e7\u00e3o e da comiss\u00e3o t\u00e9cnica do time repetiram o gesto, em uma sincronia imediata e n\u00e3o ensaiada.<\/p>\n<p>Em seu influente estudo sobre o futebol, &#8220;The Soccer Tribe&#8221;, publicado em 1981, o zo\u00f3logo Desmond Morris incluiu o gesto em seu cat\u00e1logo de 12 rea\u00e7\u00f5es comuns de jogadores a derrotas. Ele apontou para a fun\u00e7\u00e3o de consolo do gesto, &#8220;um recurso muito utilizado quando a pessoa sente a necessidade de um abra\u00e7o reconfortante mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m por perto para oferec\u00ea-lo&#8221;. Primatas n\u00e3o humanos tamb\u00e9m o usam.<\/p>\n<p>Em 2008, Tracy e seu colega David Matsumoto publicaram um estudo influente, no qual estudavam os gestos de vit\u00f3ria e de derrota feitos por atletas ol\u00edmpicos capazes de ver e por atletas ol\u00edmpicos portadores de cegueira cong\u00eanita. Encontraram indica\u00e7\u00f5es que sugerem que as formas de demonstrar vergonha e orgulho s\u00e3o inatas e universais.<\/p>\n<p>&#8220;Levar as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a &#8211; isso indica vergonha&#8221;, disse Tracy. &#8220;O corpo fica constrito, e quando o jogador envolve a cabe\u00e7a com os bra\u00e7os \u00e9 quase como se estivesse tentando parecer menor. S\u00e3o elementos muito cl\u00e1ssicos de demonstra\u00e7\u00e3o de vergonha&#8221;.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe melhor que os jogadores, quando eles erram. Cobi Jones, que teve uma longa carreira na sele\u00e7\u00e3o masculina de futebol dos Estados Unidos e agora \u00e9 comentarista esportivo na televis\u00e3o, disse em entrevista por telefone que um erro grotesco causa, al\u00e9m do gesto, uma sensa\u00e7\u00e3o de incredulidade e embara\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 para isso que treinamos, dia ap\u00f3s dia &#8211; colocar a bola na rede&#8221;, ele disse. &#8220;E aquele gol teria sido simples. Voc\u00ea n\u00e3o deveria t\u00ea-lo perdido&#8221;.<\/p>\n<p>O gesto tamb\u00e9m surge quando um goleiro faz uma defesa espetacular, que impede o que teria sido um gol certo. Um dos exemplos mais famosos aconteceu na Copa do Mundo de 2006. No final da prorroga\u00e7\u00e3o de um jogo empatado, o astro franc\u00eas Zinedine Zidane cabeceou uma bola que ele tinha certeza representaria o t\u00edtulo do torneio, mas viu o goleiro italiano Gianluigi Buffon desvi\u00e1-la por sobre o travess\u00e3o com a ponta dos dedos. As m\u00e3os de Zidane imediatamente subiram em dire\u00e7\u00e3o de sua cabe\u00e7a calva.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa que o chute n\u00e3o tenha entrado por uma gafe de quem chutou ou por uma defesa espetacular do goleiro, a resposta dos jogadores que perderam a oportunidade continua quase id\u00eantica.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 exatamente a mesma realidade estat\u00edstica&#8221;, disse David Goldblatt, historiador do futebol brit\u00e2nico. &#8220;Voc\u00ea teve sua chance, a perdeu, o goleiro defendeu, n\u00e3o importa. O mecanismo pelo qual o jogador chega \u00e0quele ponto n\u00e3o \u00e9 relevante&#8221;.<\/p>\n<p>Jones descreve a experi\u00eancia do atacante, nos dois casos, como &#8220;choque&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Quando a pessoa se assusta inesperadamente, suas m\u00e3os sobem \u00e0 cabe\u00e7a como que em um movimento de prote\u00e7\u00e3o&#8221;, disse Dacher Keltner, professor de psicologia na Universidade da Calif\u00f3rnia em Berkeley. &#8220;O tipo mais antigo de inten\u00e7\u00e3o comportamental, nessa classe de comportamentos, \u00e9 o de proteger a cabe\u00e7a contra golpes&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1996, Keltner publicou um estudo sobre as rea\u00e7\u00f5es emocionais das pessoas a ru\u00eddos s\u00fabitos. Os participantes do estudo apresentaram rea\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0 dos jogadores de futebol ao perderem um gol.<\/p>\n<p>&#8220;Quando a pessoa ouve um barulho alto, a correla\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica \u00e9 de que algo pode atingi-la na cabe\u00e7a, e assim ela se posiciona para defender a cabe\u00e7a, que \u00e9 vulner\u00e1vel e crucial&#8221;, disse Keltner. &#8220;Em qualquer tipo de a\u00e7\u00e3o como a perda de um gol certo, a fonte da dor ps\u00edquica produzir\u00e1 esses movimentos de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 cabe\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>O gesto b\u00e1sico pode vir acompanhado de adi\u00e7\u00f5es sutis. Os jogadores podem esconder o rosto com as m\u00e3os ou a camisa, outra demonstra\u00e7\u00e3o t\u00edpica de vergonha. Ou podem erguer o rosto para o c\u00e9u, no que Goldblatt caracteriza como &#8220;um pedido de que o gol perdido seja interpretado como obra do destino, e n\u00e3o como erro do jogador&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Quando as pessoas ficam at\u00f4nitas, elas olham para cima&#8221;, disse Keltner, que j\u00e1 teve diversas conversas com a comiss\u00e3o t\u00e9cnica do Golden State Warriors, falando de suas pesquisas sobre compaix\u00e3o. Algo que ele observou nessa experi\u00eancia foi que &#8220;os atletas s\u00e9rios reconhecem as a\u00e7\u00f5es do acaso mais do que os torcedores&#8221;. Olhar para o alto, ele disse, pode ser &#8220;o reconhecimento pelo jogador de algo que vai al\u00e9m da vontade humana&#8221;.<\/p>\n<p>Levar as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a \u00e9 algo que os torcedores tamb\u00e9m fazem, nos mesmos momentos que os jogadores. Porque s\u00e3o observadores e n\u00e3o participantes, a motiva\u00e7\u00e3o pode diferir.<\/p>\n<p>Philip Furley, professor de psicologia do esporte na Universidade do Esporte da Alemanha, em Col\u00f4nia, estudou o comportamento dos jogadores em cobran\u00e7as de p\u00eanaltis, quando o gesto \u00e9 comum.<\/p>\n<p>Entre os espectadores, disse Furley, &#8220;o que se encontra frequentemente \u00e9 uma esp\u00e9cie de cont\u00e1gio. Se a pessoa torce por um time e um jogador desse time demonstra algum tipo de comportamento, o comportamento n\u00e3o verbal pode contagiar os torcedores&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa a causa, a previsibilidade quase absoluta do gesto se tornou seu tra\u00e7o mais caracter\u00edstico. &#8220;\u00c9 como os bord\u00f5es que os humoristas usam&#8221;, disse Goldblatt.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas come\u00e7am a rir antes que sejam ditos. Muitos humoristas contam com isso&#8221;.<\/p>\n<p>No caso, os jogadores de futebol e os torcedores n\u00e3o precisam trabalhar no gesto. Ele surge naturalmente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em jogos de futebol, gols podem ser raros e demorar demais a acontecer, o que ajuda a explicar a natureza delirante da maioria das comemora\u00e7\u00f5es quando eles surgem. 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