{"id":185274,"date":"2018-07-13T07:20:59","date_gmt":"2018-07-13T10:20:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=185274"},"modified":"2018-07-13T08:18:07","modified_gmt":"2018-07-13T11:18:07","slug":"zeca-pagodinho-um-retrato-da-cultura-de-suburbio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/zeca-pagodinho-um-retrato-da-cultura-de-suburbio\/","title":{"rendered":"Zeca Pagodinho, um retrato da cultura de sub\u00farbio"},"content":{"rendered":"<p>Zeca Pagodinho n\u00e3o fez nenhuma exig\u00eancia quando lhe foi apresentado o projeto de um musical sobre sua vida e obra &#8211; gostou muito do tom fabular do texto, da sele\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas, da escolha dos personagens que marcaram sua trajet\u00f3ria. Fez apenas um pedido: a presen\u00e7a de Baixinho, que foi porteiro de seu s\u00edtio em Xer\u00e9m, na Baixada Fluminense, e hoje \u00e9 um amigo chegado. S\u00f3brio, \u00e9 um amor de pessoa. B\u00eabado, xinga o cantor, repetindo o que se tornou um bord\u00e3o: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o canta p&#8230; nenhuma!&#8221;. &#8220;Eu precisava de algu\u00e9m que me escangalhasse t\u00e3o bem&#8221;, diverte-se Pagodinho.<\/p>\n<p>Ele assistiu quatro vezes a Zeca Pagodinho &#8211; Uma Hist\u00f3ria de Amor ao Samba, musical que ficou em cartaz no Rio de Janeiro no ano passado. Em todas, subiu ao palco no final para cantar Deixa a Vida me Levar e Vai Vadiar. &#8220;Pena que n\u00e3o conseguirei fazer o mesmo em S\u00e3o Paulo&#8221;, lamenta-se Pagodinho, referindo-se \u00e0 temporada paulista, que come\u00e7a no s\u00e1bado, 14, no Teatro Proc\u00f3pio Ferreira.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 realmente uma pena, pois seria a chance de o p\u00fablico &#8211; especialmente aquele que n\u00e3o conhece bem seu trabalho &#8211; perceber como n\u00e3o existe diferen\u00e7a entre o artista e o cidad\u00e3o&#8221;, comenta Gustavo Gasparani que, al\u00e9m de escrever e dirigir o musical, ainda interpreta Zeca Pagodinho como adulto. Ecl\u00e9tico &#8211; vai de Shakespeare ao samba, passando por artistas sofisticados como Gilberto Gil -, Gasparani conhece h\u00e1 tempos a import\u00e2ncia da obra do cantor e compositor. Em 2009, ele fez as primeiras pesquisas, depois de ter apresentado duas can\u00e7\u00f5es dele na Opereta Carioca (2007). &#8220;Percebi ali um cronista do sub\u00farbio carioca, um artista que universalizou seu cotidiano (como comida, religi\u00e3o), mas sem perder a originalidade.&#8221;<\/p>\n<p>Em 2012, Gasparani foi convidado a escrever um musical sobre Zeca Pagodinho, mas o projeto n\u00e3o embarcou imediatamente. Quando isso aconteceu, no ano passado, ele prop\u00f4s algo original: em vez da tradicional biografia que normalmente \u00e9 levada ao palco, Gasparani pensou em algo mais fabular, que extrapolasse o realismo sem abandon\u00e1-lo totalmente, permitindo at\u00e9 cenas em que o Zeca real conversasse com o Zeca ficcional.<\/p>\n<p>&#8220;Propus isso aos produtores (Victoria Dannemann e Sandro Chaim) e ao pr\u00f3prio Zeca, que abra\u00e7aram a ideia&#8221;, conta ele, que desenvolveu a hist\u00f3ria em dois atos, mas ambos centrados na figura de Jess\u00e9 Gomes da Silva Filho, nome de batismo do artista Assim, no primeiro ato, o jovem Jess\u00e9 \u00e9 conduzido por uma esp\u00e9cie de trem do samba, cujas paradas representam momentos importantes da sua vida. O destino \u00e9 a Esta\u00e7\u00e3o Sucesso e o jovem m\u00fasico \u00e9 acompanhado de seus anjos da guarda Cosme e Dami\u00e3o. &#8220;\u00c9 quando descobrimos o universo da Baixada Fluminense, seus ritos, sua rotina, sua culin\u00e1ria, seus personagens t\u00edpicos&#8221;, conta Gasparani, que n\u00e3o se esquece, \u00e9 claro, da famosa roda de samba na qual os &#8220;partideiros&#8221; ajudam a contar a hist\u00f3ria da transforma\u00e7\u00e3o de Jess\u00e9 em Zeca Pagodinho.<\/p>\n<p>Nesse momento, o jovem Jess\u00e9 \u00e9 vivido por Peter Brand\u00e3o, que impressionou a produ\u00e7\u00e3o durante os testes &#8211; n\u00e3o por se parecer fisicamente com o cantor ou mesmo por reproduzir com exatid\u00e3o seus gestos. &#8220;Peter revelou ser tamb\u00e9m um batalhador, um cara humilde que busca seus objetivos&#8221;, explica Gasparani que, inicialmente, pretendia narrar toda a hist\u00f3ria em apenas um ato. &#8220;Mas n\u00e3o seria f\u00e1cil Peter interpretar o Zeca desde jovem at\u00e9 mais adulto.&#8221;<\/p>\n<p>Com isso, ap\u00f3s um intervalo, o espet\u00e1culo recome\u00e7a com um salto no tempo, quando Zeca Pagodinho j\u00e1 \u00e9 conhecido e adorado pelo p\u00fablico. &#8220;Avan\u00e7amos dez anos na trama, quando \u00e9 poss\u00edvel, a\u00ed sim, descobrir a ess\u00eancia do Zeca, ou seja, como o sucesso n\u00e3o alterou em nada o comportamento do m\u00fasico, que continua frequentando Xer\u00e9m. Em minhas pesquisas, descobri que o Zeca \u00e9 uma esp\u00e9cie de Macuna\u00edma carioca, ou seja, o cara que tinha tudo para dar errado, mas brilhou na vida sem ignorar suas ra\u00edzes. Venceu sem precisar vender a alma ao diabo.&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 nesse segundo ato que Gasparani assume o papel de Zeca &#8211; para isso, precisou engordar um pouco, ainda que a barriguinha proeminente, t\u00e3o conhecida do cantor, apare\u00e7a gra\u00e7as ao trabalho da produ\u00e7\u00e3o. Como nessa fase surge o Zeca j\u00e1 famoso, Gasparani optou por usar alguns trejeitos conhecidos do cantor, como sua forma de se sentar ou mesmo de se apresentar no palco.<\/p>\n<p>&#8220;Zeca ficou famoso ainda muito jovem e, como ele mesmo diz, era um touro bravo que foi se amansando. Mas soube driblar o destino e continuar fiel a si mesmo&#8221;, explica o ator\/diretor\/escritor. Em cena, al\u00e9m dos quatro m\u00fasicos e seu regente, Gasparani divide o palco com outros 12 atores. Talvez pudesse acrescentar mais um, o pr\u00f3prio Zeca Pagodinho, se ele n\u00e3o aparecesse em um v\u00eddeo. \u00c9 o momento mais fantasioso do espet\u00e1culo: &#8220;\u00c9 quando ele ainda \u00e9 apenas o jovem Jess\u00e9 e conversa com o homem em que ele vai se tornar em alguns anos. \u00c9 a cena em que Zeca reflete sobre si mesmo e sua obra&#8221;.<\/p>\n<p>Nascido em Iraj\u00e1, em 1959, e criado em Del Castilho, Zeca j\u00e1 trocava, quando crian\u00e7a, as aulas pelas rodas de samba. Nos anos 1970, quando o partido-alto come\u00e7a a tomar conta dos sub\u00farbios do Rio, o jovem Jess\u00e9 concilia a m\u00fasica com uma s\u00e9rie de atividades, desde feirante e camel\u00f4 a cont\u00ednuo e anotador de jogo do bicho. \u00c9 nessa \u00e9poca em que ele vai conhecer as pessoas que v\u00e3o se tornar amigos valorosos: Paul\u00e3o Sete Cordas, Monarco, Mauro Diniz, Almir Guineto, Bira Presidente, Beto Sem Bra\u00e7o e Arlindo Cruz, entre outros. Versador de respeito, logo tem sua primeira m\u00fasica gravada, Amargura, no segundo disco do grupo Fundo de Quintal.<\/p>\n<p>Isso permitiu que ele conhecesse Beth Carvalho, que se tornou sua madrinha ao gravar seu primeiro grande sucesso, Camar\u00e3o Que Dorme a Onda Leva. &#8220;Praticamente todos s\u00e3o apresentados de forma carinhosa no musical, pois foram decisivos na forma\u00e7\u00e3o do Zeca&#8221;, conta Gasparani que, se pudesse resumir a trajet\u00f3ria do cantor, adotaria um verso do sambista Roberto Ribeiro, muito lembrado no espet\u00e1culo: &#8220;O que se leva desta vida \u00e9 o que se come, o que se bebe, o que se brinca&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zeca Pagodinho n\u00e3o fez nenhuma exig\u00eancia quando lhe foi apresentado o projeto de um musical sobre sua vida e obra &#8211; gostou muito do tom fabular do texto, da sele\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas, da escolha dos personagens que marcaram sua trajet\u00f3ria. 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