{"id":187413,"date":"2018-08-06T09:15:56","date_gmt":"2018-08-06T12:15:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=187413"},"modified":"2018-08-06T09:15:56","modified_gmt":"2018-08-06T12:15:56","slug":"tres-em-cada-10-brasileiros-sao-analfabetos-funcionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tres-em-cada-10-brasileiros-sao-analfabetos-funcionais\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas em cada 10 brasileiros s\u00e3o analfabetos funcionais"},"content":{"rendered":"<p>Os pre\u00e7os das ervas, temperos, cebolas e lim\u00f5es na barraca da feirante Onorina Quixobeira da Silva, de 62 anos, s\u00e3o redondinhos: R$ 1, R$ 2, R$3, e por a\u00ed vai. Nada de centavos. Quanto menos n\u00fameros, melhor. \u00c9 contando nos dedos que sai o troco do fregu\u00eas. S\u00f3 assim ela consegue identificar o que est\u00e1 nas c\u00e9dulas e fazer a venda correta. \u201cMuitas vezes me atrapalho e tenho de come\u00e7ar a contar de novo\u201d, conta ela.<\/p>\n<p>Tr\u00eas em cada dez jovens e adultos de 15 a 64 anos no Pa\u00eds \u2013 29% do total, o equivalente a cerca de 38 milh\u00f5es de pessoas \u2013 s\u00e3o considerados analfabetos funcionais. Esse grupo t\u00eam muita dificuldade de entender e se expressar por meio de letras e n\u00fameros em situa\u00e7\u00f5es cotidianas, como fazer contas de uma pequena compra ou identificar as principais informa\u00e7\u00f5es em um cartaz de vacina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 dez anos, a taxa de brasileiros nessa situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 estagnada, como mostram os dados do Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf) 2018.<\/p>\n<p>O estudo, feito pelo Ibope Intelig\u00eancia, \u00e9 desenvolvido pela ONG A\u00e7\u00e3o Educativa e pelo Instituto Paulo Montenegro. Nessa faixa de 29% de brasileiros classificados nos n\u00edveis mais baixos de profici\u00eancia e escrita, h\u00e1 8% de analfabetos absolutos (quem n\u00e3o consegue ler palavras e frases). Os outros 21% est\u00e3o no n\u00edvel considerado rudimentar (n\u00e3o localizam informa\u00e7\u00f5es em um calend\u00e1rio, por exemplo).<\/p>\n<p>Em 2009, 27% dos brasileiros eram considerados analfabetos funcionais \u2013 o \u00edndice se repetiu em 2011 e 2015, \u00faltimos anos em que o Inaf foi divulgado. Apesar do pequeno aumento no per\u00edodo (de 27% para 29%), estatisticamente o movimento \u00e9 de estabilidade, segundo os autores do estudo, uma vez que a margem de erro da pesquisa \u00e9 de 2 pontos porcentuais. Para o trabalho, foram entrevistadas 2.002 pessoas entre 15 e 64 anos, de zonas urbanas e rurais, distribu\u00eddas proporcionalmente em todas as regi\u00f5es do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Diferentemente de outras pesquisas que medem o analfabetismo, a equipe do Inaf faz entrevistas domiciliares e aplica um teste espec\u00edfico, com quest\u00f5es que envolvem a leitura e interpreta\u00e7\u00e3o de textos do cotidiano (bilhetes, not\u00edcias, gr\u00e1ficos, mapas, an\u00fancios, etc) e classifica a habilidade em cinco n\u00edveis de profici\u00eancia.<\/p>\n<p>A taxa analfabetismo calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), por exemplo, mostra estagna\u00e7\u00e3o do analfabetismo absoluto no Pa\u00eds, com 7% das pessoas (11, 5 milh\u00f5es) acima de 15 anos sem saber ler ou escrever.<\/p>\n<p>\u201cO indicador tem como objetivo medir o quanto o brasileiro consegue entender e se fazer entendido em uma sociedade letrada. Infelizmente, estamos estagnados h\u00e1 muitos anos em patamar muito preocupante\u201d, diz Ana Lucia Lima, coordenadora do Inaf. Sobre os analfabetos absolutos, a varia\u00e7\u00e3o entre 2015 e este ano \u00e9 de 4 para 8 \u2013 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel determinar que houve aumento, dizem os autores, por estar no limite da margem de erro. Mas indica que a curva n\u00e3o \u00e9 mais de queda nesse grupo.<\/p>\n<p>\u201cVemos uma mudan\u00e7a nessa tend\u00eancia, o que \u00e9 coerente com a queda de investimentos que tivemos no Pa\u00eds nos \u00faltimos anos na alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos\u201d, afirma Roberto Catelli J\u00fanior, da A\u00e7\u00e3o Educativa. O Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, de 2014, prev\u00ea erradicar o analfabetismo absoluto at\u00e9 2024. &#8220;O programa Brasil Alfabetizado [do governo federal] , que chegou a ter 1 milh\u00e3o de atendidos, tem hoje apenas 250 mil&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>Gera\u00e7\u00f5es &#8211;<\/strong>\u00a0A feirante Onorina, que come\u00e7ou a trabalhar na ro\u00e7a aos 9 anos, em Macei\u00f3, teve de abandonar a sala de aula na 4.\u00aa s\u00e9rie para ajudar nas finan\u00e7as de casa. \u201cL\u00e1 n\u00e3o tinha \u00e1gua nem energia el\u00e9trica.\u201d<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, para onde se mudou h\u00e1 mais de 20 anos, teve 5 filhos. Todos terminaram o ensino m\u00e9dio.Na feira, um deles ajuda Onorina com o controle do caixa. Outros tr\u00eas cursaram Direito, Enfermagem e F\u00edsica e trabalham nas respectivas \u00e1reas. \u201cMinha filha s\u00f3 conseguiu ir para a faculdade porque teve bolsa\u201d, diz ela, que chegou a pedir dinheiro na rua para comprar comida para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes trazia a minha filha, na \u00e9poca com 9 anos, para vir trabalhar comigo na feira. Ela dizia: &#8216;M\u00e3e, n\u00e3o quero isso para mim&#8217;. E eu dizia: &#8216;Nem eu quero isso para voc\u00ea&#8221;, conta Onorina.<\/p>\n<p>Desde 2001, ano em que come\u00e7ou o Inaf, o total de brasileiros de 15 a 64 anos que chegaram ao ensino m\u00e9dio aumentou de 24% para 40%, e ao ensino superior, de 8% para 17%.<\/p>\n<p>Apesar de a popula\u00e7\u00e3o ter mais anos de estudo, o \u00edndice daqueles plenamente capazes de se comunicar pela linguagem escrita segue igual, com s\u00f3 12% no n\u00edvel proficiente (o mais alto). Entre os que terminaram o ensino m\u00e9dio, 13% s\u00e3o analfabetos funcionais e, dos que t\u00eam ensino superior, 4%.<\/p>\n<p>A pesquisa mostra ainda avan\u00e7o t\u00edmido na redu\u00e7\u00e3o de analfabetos funcionais entre os jovens. Na faixa de 15 a 24 anos, os resultados s\u00e3o melhores, com 12% de analfabetos funcionais. \u201cH\u00e1 melhora, mas ainda n\u00e3o pode ser comemorada porque s\u00f3 16% terminam os estudos com a plena capacidade de se comunicar\u201d, alerta Ana Lucia Lima.<\/p>\n<p><strong>Mudan\u00e7as &#8211;<\/strong>\u00a0&#8220;As pol\u00edticas de educa\u00e7\u00e3o de jovens e adultos no Brasil s\u00e3o, para dizer o m\u00ednimo, prec\u00e1rias. O Pa\u00eds n\u00e3o tem pol\u00edticas consistentes e constantes nessa \u00e1rea. N\u00e3o s\u00e3o consistentes porque n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas. Um exemplo disso s\u00e3o as salas super lotadas. J\u00e1 a const\u00e2ncia diz respeito aos governos. Muitas pol\u00edticas s\u00e3o interrompidas entre uma gest\u00e3o e outra. E al\u00e9m disso, esse tipo de educa\u00e7\u00e3o escolar custa caro porque \u00e9 um p\u00fablico que n\u00e3o pode ser atendido em massa\u201d, afirma Ocimar Alavarse, professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>A curto prazo, ele defende mudan\u00e7as na pol\u00edtica do EJA, a come\u00e7ar pelo material pedag\u00f3gico, diversidade de hor\u00e1rios das aulas e investimento nos professores. &#8220;O formato da aula precisa ser diferente da escola regular. Esses alunos j\u00e1 experimentaram o gosto amargo do fracasso escolar. T\u00eam que ser apresentados a novas formas de aprender que sejam completamente distintas da escola regular&#8221;, diz.<\/p>\n<p><strong>MEC &#8211;<\/strong>\u00a0O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) informou, em nota, que s\u00f3 pode avaliar estudos do governo federal. Disse ainda que a Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos (EJA) faz parte do ensino b\u00e1sico e, portanto, \u00e9 de responsabilidade dos Estados e Munic\u00edpios, cabendo \u00e0 pasta somente fornecer &#8220;apoio suplementar&#8221; \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Destacou tamb\u00e9m programas de apoio ao EJA, como o Brasil Alfabetizado e o Programa Nacional de Inclus\u00e3o de Jovens (Projovem), destinado a jovens de 18 a 29 anos que n\u00e3o conseguiram terminar a escolariza\u00e7\u00e3o no tempo adequado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pre\u00e7os das ervas, temperos, cebolas e lim\u00f5es na barraca da feirante Onorina Quixobeira da Silva, de 62 anos, s\u00e3o redondinhos: R$ 1, R$ 2, R$3, e por a\u00ed vai. Nada de centavos. Quanto menos n\u00fameros, melhor. \u00c9 contando nos dedos que sai o troco do fregu\u00eas. 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