{"id":188809,"date":"2018-08-20T14:21:38","date_gmt":"2018-08-20T17:21:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=188809"},"modified":"2018-08-20T14:21:38","modified_gmt":"2018-08-20T17:21:38","slug":"familias-separadas-pela-guerra-da-coreia-se-reencontram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/familias-separadas-pela-guerra-da-coreia-se-reencontram\/","title":{"rendered":"Fam\u00edlias separadas pela Guerra da Coreia se reencontram"},"content":{"rendered":"<p>Lee Keum-seom, de 92 anos, chorava e acariciava o rosto de seu filho, Ri Sang-chol, de 71 anos, nesta segunda-feira, 20. Foi o primeiro reencontro dos dois desde que se separaram, durante a turbul\u00eancia da Guerra da Coreia. O conflito come\u00e7ou em 1950 e um cessar-fogo foi assinado tr\u00eas anos depois. Oficialmente, a guerra nunca acabou, j\u00e1 que ela terminou em uma tr\u00e9gua, n\u00e3o um tratado de paz.<\/p>\n<p>&#8220;Quantos filhos voc\u00ea tem? Voc\u00ea tem um filho?&#8221;, perguntava Lee a Ri, durante o encontro t\u00e3o esperado no resort Diamond Mountain, na Coreia do Norte. Ri viu a m\u00e3e pela \u00faltima vez quando ainda era crian\u00e7a. Ele mostrou a ela uma foto de seu pai, com quem havia ficado para tr\u00e1s, na Coreia do Norte.<\/p>\n<p>Dezenas de idosos sul-coreanos cruzaram a fronteira entre as duas Coreias nesta segunda para participar de reencontros familiares organizados pelos governos dos dois pa\u00edses. As fam\u00edlias sul-coreanas ter\u00e3o tr\u00eas dias de reuni\u00f5es com os norte-coreanos antes de voltar para casa, na quarta-feira.<\/p>\n<p>Segundo o Minist\u00e9rio da Unifica\u00e7\u00e3o de Seul, uma rodada separada de reuni\u00f5es ser\u00e1 realizada de sexta-feira a domingo, envolvendo mais de 300 outros sul-coreanos. \u00c9 a primeira vez em quase tr\u00eas anos que esse tipo de evento \u00e9 realizado. Desta vez, os reencontros s\u00e3o resultado de medidas para impulsionar a reconcilia\u00e7\u00e3o entre Norte e Sul, em meio aos esfor\u00e7os diplom\u00e1ticos para resolver o impasse sobre o programa nuclear norte-coreano. O presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e o l\u00edder sul-coreano, Moon Jae-in, confirmaram o evento durante uma c\u00fapula em abril.<\/p>\n<p>Cerca de 330 sul-coreanos de 89 fam\u00edlias, muitos em cadeiras de rodas, abra\u00e7aram 185 parentes que vivem no vizinho do Norte. Alguns tiveram dificuldades para reconhecer as fam\u00edlias que n\u00e3o viam h\u00e1 mais de 60 anos.<\/p>\n<p>\u201cComo voc\u00ea pode estar t\u00e3o velha?\u201d, perguntou Kim Dal-in, de 92 anos, \u00e0 sua irm\u00e3, Yu Dok, ap\u00f3s contempl\u00e1-la brevemente em sil\u00eancio. \u201cVivi todo este tempo para encontr\u00e1-lo\u201d, respondeu a parente de 85 anos, enxugando as l\u00e1grimas e segurando uma foto do irm\u00e3o ainda jovem.<\/p>\n<p>Alguns sul-coreanos escolhidos aleatoriamente para a reuni\u00e3o deste ao ano desistiram ao saber que seu pai, m\u00e3e, irm\u00e3o ou irm\u00e3 do outro lado da fronteira havia morrido e conheceriam somente parentes distantes.<\/p>\n<p>Lee Kwan-joo, de 93 anos, \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o. Quer conhecer sobrinhos para ter ideia da vida que seus pais e seus seis irm\u00e3os levaram no Norte antes de morrerem. Em 1945, ela foi enviada para uma escola no Sul, e a guerra selou a separa\u00e7\u00e3o para sempre.<\/p>\n<p>&#8220;Fico feliz de saber que poderei conhecer meu sobrinho e minha sobrinha, embora eu sequer tenha visto seus rostos&#8221;, afirmou. &#8220;Quero apenas perguntar como morreram meus irm\u00e3os, irm\u00e3s e pais.\u201d<\/p>\n<p>Diversos parentes seguravam as m\u00e3os uns dos outros e mostravam fotos da fam\u00edlia, enquanto choravam e perguntavam sobre a vida de cada um dos entes queridos que n\u00e3o puderam participar da ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Grande parte dos coreanos sequer sabe se seus parentes no pa\u00eds vizinho ainda est\u00e3o vivos, j\u00e1 que n\u00e3o podem visit\u00e1-los na fronteira ou trocar cartas, telefonemas e e-mails.<\/p>\n<p>Han Shin-ja, sul-coreana de 99 anos, ficou sem palavras depois de reencontrar suas duas filhas norte-coreanas, ambas na casa dos 70 anos. Sem saber se a separa\u00e7\u00e3o seria permanente, ela deixou as duas para tr\u00e1s durante a guerra, enquanto fugia para o Sul com a terceira filha, a mais nova. Shin-ja s\u00f3 conseguia dizer &#8220;Ah&#8221; e &#8220;Quando eu fugi&#8230;&#8221;, antes de come\u00e7ar a chorar.<\/p>\n<p>O veterano de guerra Park Hong-seo, de 88 anos, da cidade de Daegu, na Coreia do Sul, afirmou que sempre se perguntou se teria enfrentado seu irm\u00e3o mais velho em uma batalha. Este, depois de se formar em uma universidade de Seul, se estabeleceu na cidade de Wonsan, na Coreia do Norte, como dentista.<\/p>\n<p>Quando a guerra estourou, Park foi informado por um colega de trabalho que seu irm\u00e3o havia se recusado a fugir para Sul porque tinha uma fam\u00edlia no Norte e atuava como cirurgi\u00e3o do Ex\u00e9rcito norte-coreano. Ele lutou na guerra como soldado estudantil e estava entre as tropas que tomaram Wonsan, cidade onde seu irm\u00e3o morava, em outubro de 1950.<\/p>\n<p>As for\u00e7as lideradas pelos EUA avan\u00e7aram nas semanas seguintes antes de serem expulsas por uma massa de for\u00e7as chinesas, depois que Pequim interveio no conflito. Park soube que o irm\u00e3o morreu em 1984. Nos encontros desta semana, ele conhecer\u00e1 seus sobrinhos: um homem de 74 anos e uma mulher de 69 anos. &#8220;Quero perguntar a eles qual foi seu desejo antes de morrer e o que ele disse sobre mim&#8221;, contou, antes do reencontro. &#8220;Eu me pergunto se h\u00e1 uma chance de que ele tenha me visto quando eu estava em Wonsan.&#8221;<\/p>\n<p>Antes das reuni\u00f5es desta semana, quase 20 mil pessoas haviam participado de 20 rodadas de encontros presenciais, que come\u00e7aram em 2000. Outras 3,7 mil trocaram mensagens de v\u00eddeo com seus parentes. Nenhum deles teve uma segunda chance de ver ou conversar com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Mais de 57 mil sobreviventes sul-coreanos se registraram para os reencontros familiares, que geralmente terminam em despedidas dolorosas. Seul passou anos pedindo reuni\u00f5es frequentes entre fam\u00edlias separadas, inclusive por meio de videoconfer\u00eancias, mas a iniciativa muitas vezes foi prejudicada pela fragilidade dos la\u00e7os.<\/p>\n<p>Os reencontros deveriam aumentar consideravelmente, passar a ser realizados com frequ\u00eancia e incluir visitas e cartas m\u00fatuas, disse Moon Jae-in. O pr\u00f3prio l\u00edder pertence a uma fam\u00edlia separada de Hungnam, cidade portu\u00e1ria do leste da Coreia do Norte.<\/p>\n<p>Os reuni\u00f5es, que come\u00e7aram em 1985, \u00e0s vezes s\u00e3o uma experi\u00eancia muito traum\u00e1tica, dizem sobreviventes que sabem que dificilmente voltar\u00e3o a ver seus parentes, j\u00e1 que muitos t\u00eam 80 anos ou mais, e os que est\u00e3o sendo contemplados pela primeira vez normalmente t\u00eam prioridade para visitas.<\/p>\n<p>A Coreia do Sul v\u00ea a separa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias como a maior quest\u00e3o humanit\u00e1ria criada pela guerra, que matou e feriu milh\u00f5es e consolidou a divis\u00e3o da Pen\u00ednsula Coreana em Norte e Sul. O Minist\u00e9rio da Unifica\u00e7\u00e3o estima que, atualmente, existem cerca de 600 a 700 mil sul-coreanos com parentes imediatos ou indiretos na Coreia do Norte. No entanto, Seul n\u00e3o conseguiu convencer Pyongyang a aceitar sua solicita\u00e7\u00e3o, de longa data, para realizar reuni\u00f5es mais frequentes e com mais participantes.<\/p>\n<p>Mais de 75 mil dos 132 mil sul-coreanos que se candidataram para participar de tais reuni\u00f5es j\u00e1 morreram, segundo o governo sul-coreano. Analistas dizem que a Coreia do Norte v\u00ea as reuni\u00f5es entre parentes como uma importante moeda de barganha e n\u00e3o quer que sejam expandidas, porque d\u00e3o ao seu povo uma consci\u00eancia melhor do mundo exterior.<\/p>\n<p>Enquanto a Coreia do Sul utiliza uma loteria computadorizada para escolher quem ser\u00e3o os participantes das reuni\u00f5es, acredita-se que, na Coreia do Norte, as escolhas sejam realizadas a partir de crit\u00e9rios como a lealdade dos cidad\u00e3os postulantes \u00e0 lideran\u00e7a do pa\u00eds e ao regime.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lee Keum-seom, de 92 anos, chorava e acariciava o rosto de seu filho, Ri Sang-chol, de 71 anos, nesta segunda-feira, 20. Foi o primeiro reencontro dos dois desde que se separaram, durante a turbul\u00eancia da Guerra da Coreia. O conflito come\u00e7ou em 1950 e um cessar-fogo foi assinado tr\u00eas anos depois. 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