{"id":188967,"date":"2018-08-22T06:17:48","date_gmt":"2018-08-22T09:17:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=188967"},"modified":"2018-08-22T06:19:58","modified_gmt":"2018-08-22T09:19:58","slug":"em-pacaraima-so-tremor-une-brasileiros-e-venezuelanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/em-pacaraima-so-tremor-une-brasileiros-e-venezuelanos\/","title":{"rendered":"Em Pacaraima, s\u00f3 tremor une brasileiros e venezuelanos"},"content":{"rendered":"<p>Por volta das 18h30 desta ter\u00e7a-feira, 21, um tremor fez trepidar vidra\u00e7as, balan\u00e7ar m\u00f3veis e bambear pontos de t\u00e1xi na cidade. Assustados, brasileiros e venezuelanos correram para ruas e, cena incomum nos \u00faltimos dias, ficaram reunidos por alguns instantes. &#8220;Era s\u00f3 o que faltava em Pacaraima&#8221;, comentou um brasileiro, morador da cidade que fica na fronteira com a Venezuela.<\/p>\n<p>O tremor durou poucos minutos e logo os presentes voltaram \u00e0s reclama\u00e7\u00f5es habituais. Recentemente, Pacaraima, no norte de Roraima, tem vivido dias de nervos \u00e0 flor da pele. A tens\u00e3o \u00e9 provocada por troca de acusa\u00e7\u00f5es entre brasileiros e imigrantes venezuelanos e teve o estopim no \u00faltimo s\u00e1bado, 18, quando um grupo de moradores soltou bombas caseiras, destruiu objetos e incendiou barracas de refugiados que acampavam na rua. Na ocasi\u00e3o, um carro de som chegou a circular pela cidade incitando os brasileiros a expulsarem os refugiados.<\/p>\n<p>Cerca de 1,2 mil venezuelanos decidiram voltar para o pa\u00eds depois do epis\u00f3dio. O n\u00famero de refugiados que cruzam a fronteira tamb\u00e9m tem registrado queda. Desde ent\u00e3o, autoridades da pol\u00edcia local demonstram preocupa\u00e7\u00e3o sobre poss\u00edveis novos conflitos. Por causa do risco, cerca de 60 integrantes da For\u00e7a Nacional come\u00e7aram a patrulhar a cidade nesta ter\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea viu algum policial aqui no centro? Tudo que eles anunciam \u00e9 para os venezuelanos&#8221;, reclamou um brasileiro, que n\u00e3o quis se identificar. Na cidade, a maioria chama o epis\u00f3dio de agress\u00e3o contra os imigrantes de &#8220;protesto&#8221;, &#8220;confus\u00e3o&#8221; ou &#8220;aquela bagun\u00e7a l\u00e1&#8221;. Ap\u00f3s cr\u00edticas e acusa\u00e7\u00f5es de xenofobia, muitos preferem se manter no anonimato. \u00c0 tarde, o Estado viu duas viaturas da For\u00e7a Nacional pelas ruas do centro, voltadas para o com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Entre os brasileiros, o principal argumento \u00e9 de que os venezuelanos estariam provocando um onda de viol\u00eancia na regi\u00e3o, al\u00e9m de dispor de suposta prioridade em unidades de sa\u00fade e de assist\u00eancia. &#8220;Aqui antes era bem tranquilo, agora eu tenho medo de sair \u00e0 noite&#8221;, disse o comerciante Jaciento Silva, de 43 anos, que nunca foi assaltado, mas recebe quase diariamente no WhatsApp mensagens de supostos crimes cometidos pelos imigrantes. Um dos que n\u00e3o sabia se era verdade era de um homem encontrado decapitado no lix\u00e3o.<\/p>\n<p>Pacaraima tem pouco mais de 12 mil habitantes, mas tem recebido fluxos de imigrantes desde 2015. A situa\u00e7\u00e3o se agravou no ano passado. &#8220;A maior parte da nossa popula\u00e7\u00e3o mora em terra de demarca\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Na \u00e1rea urbana mesmo tem uns 5 mil, ent\u00e3o os venezuelanos tomaram conta&#8221;, disse um comerciante. &#8220;A popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 teve muita paci\u00eancia&#8221;, afirmou a dona de casa Erika Oliveira, de 32 anos.<\/p>\n<p>Em mercados, restaurantes e hot\u00e9is, muitos funcion\u00e1rios s\u00e3o estrangeiros que conseguiram ser acolhidos no munic\u00edpio. Outros tantos, no entanto, est\u00e3o desempregados e passam a tarde sentados na cal\u00e7ada, olhando o movimento no com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio conflito de s\u00e1bado foi motivado por um assalto em que a v\u00edtima foi roubada e torturada, e reconheceu os agressores como sendo venezuelanos. Depois disso, j\u00e1 n\u00e3o se v\u00ea mais as barracas com imigrantes que tomavam as ruas de Pacaraima. &#8220;Fizemos uma limpeza&#8221;, \u00e9 o coment\u00e1rio mais frequente entre os moradores.<\/p>\n<p>&#8220;Foi uma grande humilha\u00e7\u00e3o&#8221;, comentou a imigrante Jaqueline Astudillo, de 35 anos, que exibe um v\u00eddeo mostrando que havia cesta b\u00e1sicas entre os itens queimados no ataque. &#8220;Por que voc\u00ea n\u00e3o vai perguntar o que aconteceu para um brasileiro&#8221;, reclamou um morador que, observando a conversa, passou a gravar a reportagem com o celular. Questionado se queria dar sua vers\u00e3o, o rapaz declinou.<\/p>\n<p><strong>Houve aglomera\u00e7\u00e3o &#8211;<\/strong>\u00a0Um policial militar desembarcou de uma motocicleta e intercedeu. &#8220;Aqui, em Pacaraima est\u00e1 uma tens\u00e3o muito grande. Eu estou com vergonha da xenofobia das pessoas. Eu mesmo sou da Para\u00edba, imigrante, por que vamos tratar os outros assim?&#8221;<\/p>\n<p>Sem querer se identificar, uma comerciante disse que j\u00e1 foi alvo de v\u00e1rios furtos em seu s\u00edtio. &#8220;Eles pulam para pegar minhas galinhas&#8221;, relatou. Segundo conta, tamb\u00e9m levaram celular, ventilador e outros itens de sua loja. &#8220;Pela c\u00e2mera, consegui ver que era um cadeirante venezuelano. Quando encontrei com ele na rua, ele levantou e saiu correndo&#8221;, disse a v\u00edtima que n\u00e3o acionou a pol\u00edcia em nenhuma das ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p>Os venezuelanos tamb\u00e9m t\u00eam recorrido a fake news para argumentar. Em uma mensagem que circulou em aplicativos de mensagens, afirmavam que dois imigrantes haviam morrido queimados no s\u00e1bado. O que a Pol\u00edcia Civil desmente.<\/p>\n<p>Na delegacia de Pacaraima, um agente confirma que n\u00e3o houve mortos no ataque. Ele tamb\u00e9m mostra no celular o n\u00famero de ocorr\u00eancias s\u00f3 desta segunda que supostamente envolviam venezuelanos &#8211; todas, no entanto, da capital Boa Vista. &#8220;Piorou demais, todo dia \u00e9 isso&#8221;, comentou.<\/p>\n<p>Um dos textos dizia que dois estrangeiros, armados com facas, haviam rendido e roubado um vendedor. &#8220;Solicitante informa que venezuelanos entraram em um terreno, mataram um cachorro e est\u00e3o fazendo um churrasco com ele. Viatura \u00e0 caminho&#8221;, afirmava outro registro.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil, contudo, afirmar quais casos s\u00e3o, de fato, investigados pela pol\u00edcia. Colado na parede da delegacia, um cartaz orientava o escriv\u00e3o a tirar quatro c\u00f3pias de cada boletim de ocorr\u00eancia de Pacaraima. Um deles era para ser destinado a uma pasta azul, para fins estat\u00edsticos. Por WhatsApp, a delegada titular mandou informar que n\u00e3o poderia se manifestar.<\/p>\n<p><strong>Migra\u00e7\u00e3o &#8211;\u00a0<\/strong>Na manh\u00e3 desta ter\u00e7a, era incomum o cen\u00e1rio na tenda da Opera\u00e7\u00e3o Acolhida, equipamento do Ex\u00e9rcito para receber e fazer a triagem dos venezuelanos. Em vez das costumeiras filas de refugiados, que at\u00e9 pouco chegavam a dar voltas do lado, havia diversos bancos de espera vazios.<\/p>\n<p>Segundo agentes do local, o fluxo de chegada de venezuelanos caiu de forma brusca desde o \u00faltimo conflito. Se antes cerca de 1,2 mil pessoas cruzavam a fronteira, nesta ter\u00e7a n\u00e3o passavam de 300. &#8220;Queimaram todos os meus documentos, s\u00f3 me sobrou a roupa do corpo&#8221;, diz o engenheiro de sistemas Raul Le\u00f3n, de 36 anos, um dos venezuelanos atacados no s\u00e1bado. Havia cruzado a fronteira na v\u00e9spera. &#8220;A triagem demorou mais de um dia&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Le\u00f3n saiu da Venezuela para fugir do desemprego, da falta de comida e de rem\u00e9dios. &#8220;J\u00e1 passei tr\u00eas dias sem comer&#8221;, diz. &#8220;Sei operar redes de comunica\u00e7\u00e3o, c\u00e2meras de seguran\u00e7a&#8230; Me recomendaram trabalhar em Manaus, mas n\u00e3o sei quando vou conseguir ir.&#8221;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as agress\u00f5es de s\u00e1bado, Le\u00f3n pensou em voltar. &#8220;Senti medo, mas depois as coisas foram se acalmando&#8221;, relata. &#8220;Os brasileiros pensaram que foram venezuelanos que agrediram o comerciante. Entendo. Mas nenhuma viol\u00eancia se justifica.&#8221;<\/p>\n<p>Ao lado da mulher e de cinco filhos, a mais nova de dois anos e o mais velho de 12, o comerciante Gregorio Bello, de 37 anos, estava com a passagem comprada para o Brasil quando recebeu a not\u00edcia do inc\u00eandio no acampamento. &#8220;N\u00e3o podia devolver, ent\u00e3o pensei: &#8216;vamos em nome de Deus&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>O desejo, segundo conta, \u00e9 chegar a Boa Vista e matricular as crian\u00e7as na escola. &#8220;At\u00e9 o momento, os brasileiros me atenderam muito bem&#8221;, diz. &#8220;Espero que d\u00ea tudo certo.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por volta das 18h30 desta ter\u00e7a-feira, 21, um tremor fez trepidar vidra\u00e7as, balan\u00e7ar m\u00f3veis e bambear pontos de t\u00e1xi na cidade. 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