{"id":189804,"date":"2018-09-01T08:15:59","date_gmt":"2018-09-01T11:15:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=189804"},"modified":"2018-09-01T08:15:59","modified_gmt":"2018-09-01T11:15:59","slug":"distorcao-racial-se-mantem-nas-eleicoes-gerais-deste-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/distorcao-racial-se-mantem-nas-eleicoes-gerais-deste-ano\/","title":{"rendered":"Distor\u00e7\u00e3o racial se mant\u00e9m nas elei\u00e7\u00f5es gerais deste ano"},"content":{"rendered":"<p>A distribui\u00e7\u00e3o racial dos candidatos a cargos eletivos deste ano n\u00e3o espelha a realidade da popula\u00e7\u00e3o brasileira como um todo. Enquanto h\u00e1 uma sub-representa\u00e7\u00e3o de autodeclarados negros (pretos e pardos) entre os candidatos, a propor\u00e7\u00e3o de postulantes brancos \u00e9 maior que a sua concentra\u00e7\u00e3o geral. O quadro reflete uma distor\u00e7\u00e3o da representatividade racial da popula\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica, segundo especialistas e ativistas ouvidos pelo Estado.<\/p>\n<p>Dos 28.562 candidatos que pediram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registro para disputar cargos eletivos (presidente, governador, senador e deputados federais e estaduais) nas elei\u00e7\u00f5es este ano, 46,4% se autodeclararam negros &#8211; 35,5% deles pardos e 10,8% pretos, conforme dados do tribunal. Os candidatos brancos que pediram registros \u00e0 Justi\u00e7a Eleitoral representam 52,6%, enquanto os amarelos s\u00e3o 0,6% e os ind\u00edgenas, 0,46%.<\/p>\n<p>Segundo dados da \u00faltima Pesquisa Nacional de Amostragem por Domic\u00edlio (Pnad Cont\u00ednua), divulgada em 2017 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), 54,9% da popula\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds se autodeclarou negra (46,7% pardos e 8,2% pretos) e 44,2% se disseram brancos. Amarelos e ind\u00edgenas foram apresentados em uma s\u00f3 categoria, totalizando 0,9% dos entrevistados.<\/p>\n<p>Para a presidente do Conselho Nacional de Ouvidores das Defensorias P\u00fablicas, a soci\u00f3loga Vilma Reis, a &#8220;sub-representa\u00e7\u00e3o racial na pol\u00edtica&#8221;, como ela se refere \u00e0s estat\u00edsticas, se deve \u00e0 aus\u00eancia de regras que definam a participa\u00e7\u00e3o dos negros nas elei\u00e7\u00f5es, como ocorre no caso das candidaturas femininas, que conquistaram a reserva de 30% das vagas e dos recursos dos fundos para financiamento de campanhas.<\/p>\n<p>&#8220;A gente construiu uma resposta para a quest\u00e3o de g\u00eanero na pol\u00edtica, mas n\u00e3o construiu formas de garantir a justi\u00e7a racial&#8221;, diz Vilma. A soci\u00f3loga avalia que a dificuldade de acesso dos negros aos recursos eleitorais &#8211; antes oriundos de doa\u00e7\u00f5es de empresas privadas, mas a partir das elei\u00e7\u00f5es de 2016 vindos do Fundo Partid\u00e1rio &#8211; impede a maior representa\u00e7\u00e3o dessa parcela da popula\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8220;Sem esse regramento pol\u00edtico da partilha dos recursos, a gente vai precisar de mais 189 anos para ser poss\u00edvel alguma paridade&#8221;, afirma Vilma, criticando as estruturas partid\u00e1rias pela situa\u00e7\u00e3o. &#8220;Esses negros at\u00e9 s\u00e3o candidatos, mas sempre enxergam suas esperan\u00e7as desmoronarem na hora da divis\u00e3o dos recursos, o que nos faz ter um Congresso sem nenhuma liga\u00e7\u00e3o com a sociedade.&#8221;<\/p>\n<p>Entre os eleitos, a representatividade dos negros \u00e9 ainda menor. Segundo dados divulgados pelo TSE ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 2014, apenas 20% dos deputados federais (103 dos 513) e 18,5% dos senadores (5 dos 81) eleitos naquele ano se autodeclaram negros. O n\u00famero n\u00e3o pode ser comparado com estat\u00edsticas de elei\u00e7\u00f5es anteriores porque a autodeclara\u00e7\u00e3o de cor\/ra\u00e7a s\u00f3 foi implantada no sistema da Justi\u00e7a Eleitoral em 2014.<\/p>\n<p>Desigualdades &#8211; Professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o cientista pol\u00edtico Joviniano Neto diz que a baixa representa\u00e7\u00e3o de negros na pol\u00edtica tem rela\u00e7\u00e3o com as desigualdades sociorraciais do pr\u00f3prio Pa\u00eds. Joviniano acredita, contudo, que essa situa\u00e7\u00e3o ficou mais dif\u00edcil de ser alterada diante das novas regras eleitorais, que concentraram os recursos de campanha nas m\u00e3os das dire\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, priorizando os candidatos que j\u00e1 possuem mandatos eletivos &#8211; majoritariamente brancos.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00f3 consegue poder quem tem poder anterior. Ent\u00e3o voc\u00ea at\u00e9 vai ver negros chegando ao poder, mas muito por causa da sua hist\u00f3ria anterior, por serem oriundos de sindicatos, associa\u00e7\u00f5es, movimentos sociais ou de alguma estrutura parecida&#8221;, afirma o cientista pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Coordenador-geral do Coletivo de Entidades Negras (CEN), entidade presente em 23 Estados e no Distrito Federal, o historiador Marcos Rezende avalia que a influ\u00eancia do poder econ\u00f4mico sobre os rumos da pol\u00edtica \u00e9 um dos principais fatores para a sub-representa\u00e7\u00e3o dos negros em cargos eletivos.<\/p>\n<p>Rezende pondera que, embora haja parlamentares que se autodeclaram pretos e pardos, o n\u00famero de pol\u00edticos que atuam de fato em defesa da comunidade negra \u00e9 baixo. &#8220;Para n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 uma discuss\u00e3o sobre a c\u00fatis, sobre a epiderme, mas sim uma discuss\u00e3o sobre o compromisso que esses candidatos e futuros ocupantes de cargos eletivos precisam ter com a pauta racial, com o combate \u00e0s desigualdades e ao \u00f3dio de ra\u00e7a.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A distribui\u00e7\u00e3o racial dos candidatos a cargos eletivos deste ano n\u00e3o espelha a realidade da popula\u00e7\u00e3o brasileira como um todo. 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