{"id":189885,"date":"2018-09-02T12:01:32","date_gmt":"2018-09-02T15:01:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=189885"},"modified":"2018-09-02T12:01:32","modified_gmt":"2018-09-02T15:01:32","slug":"crescimento-de-gastos-na-area-da-saude-pressiona-governo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/crescimento-de-gastos-na-area-da-saude-pressiona-governo\/","title":{"rendered":"Crescimento de gastos na \u00e1rea da Sa\u00fade pressiona governo"},"content":{"rendered":"<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tem potencial para se transformar numa fonte de graves problemas e de desgaste para o pr\u00f3ximo presidente. Por causa das mudan\u00e7as nas regras de reajuste de gastos do governo federal, o or\u00e7amento da \u00e1rea foi reduzido e congelado no momento em que a press\u00e3o pelos servi\u00e7os do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) aumenta. Desde 2014, pelo menos 3 milh\u00f5es de pessoas deixaram de ter planos de sa\u00fade por causa da crise econ\u00f4mica. Sem assist\u00eancia suplementar, esse grupo que pouco usava o SUS passou a depender dele.<\/p>\n<p>&#8220;Ser\u00e1 menos dinheiro para atender mais gente&#8221;, resume o presidente do Conselho dos Secret\u00e1rios Estaduais de Sa\u00fade, Rafael Vilela. E aumento da demanda n\u00e3o deve ser ef\u00eamero. &#8220;Muitas das pessoas que sa\u00edram dos planos n\u00e3o querem ou n\u00e3o ter\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de voltar.&#8221; O dinheiro curto pode afetar ainda a capacidade de resposta, num momento em que a popula\u00e7\u00e3o envelhece, a press\u00e3o pela incorpora\u00e7\u00e3o de novas tecnologias aumenta e que capacidade de planejamento se esgota.<\/p>\n<p>&#8220;O aumento de custos \u00e9 natural. Antes, quando algu\u00e9m aparecia com dor de cabe\u00e7a, o m\u00e9dico prescrevia analg\u00e9sico. Hoje \u00e9 encaminhado \u00e0 tomografia. Muito c\u00e2ncer \u00e9 cur\u00e1vel. Mas trat\u00e1-los custa&#8221;, diz o professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Pelotas, Cesar Victora.<\/p>\n<p><strong>M\u00e9dia<\/strong> &#8211; Vilela tem avalia\u00e7\u00e3o parecida. Ele lembra que, em 1997, a m\u00e9dia global dos gastos em Sa\u00fade era de 8% do PIB mundial. Em 2017, alcan\u00e7ava 9,9%. &#8220;Os servi\u00e7os em sa\u00fade s\u00e3o caros e crescentes em todo mundo.&#8221;<\/p>\n<p>Por isso, Vilela classificou a nova regra de teto de gastos como &#8220;esdr\u00faxula&#8221;. &#8220;Ela engessa os gastos, n\u00e3o leva em conta o crescimento populacional.&#8221;<\/p>\n<p>A Emenda Constitucional 95 congela os recursos em termos reais a partir deste ano. O piso para o setor \u00e9 calculado com base nos 15% da Receita Corrente L\u00edquida de 2017, corrigido pelo IPCA. A regra vale at\u00e9 2036.<\/p>\n<p>Segundo Vilela, se a regra estivesse em vigor em 2003, o or\u00e7amento em Sa\u00fade em 2017 seria de R$ 50 bilh\u00f5es. &#8220;Bem menos do que os R$ 120 bilh\u00f5es que foram desembolsados.&#8221;<\/p>\n<p>Quando a proposta ainda estava em discuss\u00e3o, um estudo feito pela especialista em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Gest\u00e3o Governamental do Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea), Fab\u00edola Sulpino Vieira, j\u00e1 indicava que o setor perderia recursos se fosse comparado com a regra anterior e num cen\u00e1rio com crescimento do PIB. Quanto o maior o crescimento, maior seria a perda.<\/p>\n<p>Por isso, o ex-ministro da Sa\u00fade Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o, integrante da Academia Nacional Medicina, considera essencial acabar com a regra no pr\u00f3ximo governo. &#8220;A quest\u00e3o \u00e9 central: garantir a sustentabilidade econ\u00f4mica do SUS.&#8221;<\/p>\n<p>Tempor\u00e3o aponta outro aspecto: recolocar a sa\u00fade no centro da agenda pol\u00edtica e recuperar a credibilidade do minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>O posto sempre foi cobi\u00e7ado nos governos. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Ele \u00e9 um dos maiores or\u00e7amentos da Esplanada &#8211; R$ 131,2 bilh\u00f5es em 2018. Al\u00e9m disso, tem grande capilaridade no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Os reflexos disso ficam claros quando se analisa a rotatividade no posto. Em tr\u00eas anos, quatro ministros ficaram \u00e0 frente da pasta. Na equipe do atual ministro &#8211; Gilberto Occhi -, s\u00f3 um secret\u00e1rio \u00e9 m\u00e9dico: o secret\u00e1rio executivo, Adeilson Cavalcante &#8220;H\u00e1 grande desconfian\u00e7a&#8221;, diz Tempor\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso e a falta de continuidade das pol\u00edticas trazem o baixo impacto de algumas a\u00e7\u00f5es. Como exemplo, Tempor\u00e3o cita a redu\u00e7\u00e3o da cobertura vacinal. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 apelo para que a popula\u00e7\u00e3o se mobilize.&#8221;<\/p>\n<p>A \u00e1rea sofre com as mudan\u00e7as nas regras para ajuste de gastos federais, que provocaram uma perda para a Sa\u00fade de R$ 6,8 bi em tr\u00eas anos, de acordo com c\u00e1lculos da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Economia da Sa\u00fade (ABrES) obtidos pelo Estado.<\/p>\n<p>Eles comparam os valores estabelecidos pela regra do per\u00edodo entre 2016 e 2018 com o que seria aplicado, caso a regra anterior estivesse em vigor.<\/p>\n<p>&#8220;A queda \u00e9 significativa&#8221;, diz o presidente da entidade, Carlos Ock\u00e9. Para se ter ideia, a quantia \u00e9 o triplo do repassado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade em 2017 \u00e0s a\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia em sa\u00fade. &#8220;Para al\u00e9m das dificuldades atuais, o congelamento da aplica\u00e7\u00e3o m\u00ednima em sa\u00fade pelo governo federal trar\u00e1 preju\u00edzos para o acesso da popula\u00e7\u00e3o aos servi\u00e7os do SUS&#8221;, avalia Fab\u00edola.<\/p>\n<p>O impacto da regra de teto de gastos se soma a uma tend\u00eancia hist\u00f3rica da redu\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o de verbas federais para o financiamento da Sa\u00fade.<\/p>\n<p>Quando o SUS foi criado, em 1988, a Uni\u00e3o era respons\u00e1vel por 72% dos gastos p\u00fablicos na \u00e1rea. Essa participa\u00e7\u00e3o \u00e9 hoje de 43% A diferen\u00e7a foi assumida por Estados e munic\u00edpios (25,8%).<\/p>\n<p>\u00c9lida Graziane Pinto, procuradora de Contas do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Contas de S\u00e3o Paulo, classifica a mudan\u00e7a como erro. &#8220;Neste per\u00edodo, a Uni\u00e3o expandiu a capacidade arrecadat\u00f3ria, que hoje \u00e9 de 60%. Caberia a ela verter mais recursos no SUS, porque \u00e9 quem mais arrecada&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>Fam\u00edlia<\/strong> &#8211; Quando se avalia o total de recursos da \u00e1rea, o que se v\u00ea \u00e9 que os gastos p\u00fablicos est\u00e3o abaixo do que fam\u00edlias dispensam para o setor. As despesas com bens e servi\u00e7os de sa\u00fade em 2015 representavam 9,1% do PIB.<\/p>\n<p>Desse total, 5,2% era desembolsado por fam\u00edlias. S\u00f3 3,9% eram governamentais. &#8220;Essa \u00e9 mais uma distor\u00e7\u00e3o, algo que chama a aten\u00e7\u00e3o sobretudo pelo fato de que o SUS \u00e9 universal&#8221;, diz Elida<\/p>\n<p><strong>Mais verba e gest\u00e3o<\/strong> &#8211; Com R$ 3,60 por pessoa por dia, Uni\u00e3o, Estados e munic\u00edpios financiam todas as consultas, interna\u00e7\u00f5es, rem\u00e9dios, vacinas, exames e outros tratamentos ofertados pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Para o professor da Universidade Estadual de Campinas Gast\u00e3o Wagner, s\u00f3 esse c\u00e1lculo seria suficiente para mostrar que o gigantismo do or\u00e7amento do SUS \u00e9 mito. &#8220;Os valores s\u00e3o restritos. E, apesar das dificuldades, ele trouxe uma amplia\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 sa\u00fade, sobretudo da aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.&#8221;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, no entanto, ganhou for\u00e7a a tese de que sa\u00fade n\u00e3o precisa de recursos, mas de gest\u00e3o. A pesquisadora do Ipea Fab\u00edola Sulpino Vieira discorda e diz n\u00e3o haver como separar os dois movimentos. &#8220;\u00c9 preciso investir para melhorar a gest\u00e3o e, para isso, mais recursos s\u00e3o necess\u00e1rios.&#8221; Relat\u00f3rio do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) aponta para o mesmo caminho. Feito com 14 secretarias estaduais e 2.570 cidades, o trabalho indicou que 74% das secretarias municipais tinham dificuldades para identificar os principais problemas da popula\u00e7\u00e3o. E isso &#8211; afirma o secret\u00e1rio de Controle Externo do TCU, Marcelo Chaves &#8211; \u00e9 fundamental para planejar os servi\u00e7os e estabelecer o quanto \u00e9 necess\u00e1rio se investir.<\/p>\n<p>A falta de recursos e de gest\u00e3o tamb\u00e9m traz reflexos na maneira como todo o sistema \u00e9 organizado. Uma an\u00e1lise feita pela pesquisadora do Ipea com dados de 2011 mostra que s\u00f3 29 munic\u00edpios do Pa\u00eds (0,5% do total) tinham muitas estrutura de m\u00e9dia e alta complexidade. Ali vivia 25% da popula\u00e7\u00e3o do Brasil. Em 75% dos munic\u00edpios, onde vivem 23% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, n\u00e3o h\u00e1 servi\u00e7o de m\u00e9dia e alta complexidade. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 acesso igualit\u00e1rio de sa\u00fade. Dependendo de onde se vive, a pessoa pode ter acesso a um servi\u00e7o melhor.&#8221;<\/p>\n<p>Consultor na \u00e1rea de sa\u00fade da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Munic\u00edpios, Denilson Magalh\u00e3es concorda. Para ele, a constru\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de Sa\u00fade devia partir dos munic\u00edpios. Ele cita o exemplo do Samu. &#8220;Como ambul\u00e2ncias seriam usadas no Amazonas? O modelo n\u00e3o atendia o Estado. At\u00e9 que o sistema com lanchas foi organizado a pedido dos munic\u00edpios.&#8221; Magalh\u00e3es diz que o oposto ocorreu com o programa da Sa\u00fade da Fam\u00edlia. Ele come\u00e7ou no Cear\u00e1 &#8220;O uso de agentes comunit\u00e1rios se expandiu, foi adotado em outros Estados at\u00e9 chegar a ser uma recomenda\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Melhores indicadores<\/strong> &#8211; A secret\u00e1ria executiva Cl\u00e1udia Maria de Fran\u00e7a, de 53 anos, est\u00e1 sem plano de sa\u00fade h\u00e1 um ano e meio. N\u00e3o foi uma decis\u00e3o f\u00e1cil. Depois de deixar o emprego que oferecia assist\u00eancia m\u00e9dica, ela contratou por um per\u00edodo um plano &#8220;falso coletivo&#8221;, mas as mensalidades comprometiam boa parte de seu or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Com a desist\u00eancia, veio a inseguran\u00e7a. &#8220;Crescemos com a ideia de que um plano particular d\u00e1 maior amparo. Ficar sem ele \u00e9 como se algu\u00e9m dissesse: &#8216;A partir de agora, voc\u00ea estar\u00e1 sob risco&#8217;.&#8221; Desde a decis\u00e3o, ela afirma que pouco precisou de assist\u00eancia. &#8220;Vou \u00e0s vezes no posto, j\u00e1 sabendo que \u00e9 preciso chegar cedo para garantir a vaga.&#8221;<\/p>\n<p>Cl\u00e1udia integra um grupo de cerca de 3 milh\u00f5es de pessoas que migraram da sa\u00fade suplementar para a assist\u00eancia exclusiva no SUS, sistema criado h\u00e1 30 anos e que, embora ainda desperte a desconfian\u00e7a de boa parte da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 apontado por especialistas como o principal respons\u00e1vel pela melhora nos indicadores do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre o impacto positivo do SUS para a popula\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o professor da Universidade Federal de Pelotas, Cesar Victora. &#8220;Mas o sistema, que j\u00e1 era subfinanciado, agora \u00e9 amea\u00e7ado com a press\u00e3o para reduzir seu tamanho e dar prioridade a planos privados de sa\u00fade, muitos de baixa qualidade&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Professor da Universidade Estadual de Campinas, Gast\u00e3o Wagner tem avalia\u00e7\u00e3o semelhante. Ele afirma haver in\u00fameras evid\u00eancias de que sistemas p\u00fablicos e universais de sa\u00fade s\u00e3o mais eficientes do que modelos de mercado. Como exemplo, faz uma compara\u00e7\u00e3o de n\u00fameros da sa\u00fade nos Estados Unidos e no Reino Unido, que \u00e9 universal. A sa\u00fade norte-americana tem um gasto equivalente a 16,4% do PIB. A do Reino Unido, por sua vez, de 7,11%. &#8220;E indicadores de sa\u00fade s\u00e3o equivalentes, com ligeira vantagem para o Reino Unido&#8221;, completa Wagner<\/p>\n<p>Al\u00e9m do financiamento, Victora e Wagner listam dois grandes desafios para o SUS: garantir a qualidade de atendimento e resguardar as conquistas obtidas pelo sistema. Os n\u00fameros recentes mostram que essa \u00faltima tarefa \u00e9 urgente.<\/p>\n<p>A mortalidade infantil voltou a subir, depois de anos de queda. &#8220;A experi\u00eancia internacional mostra que s\u00e3o rar\u00edssimos os casos em que tais retomadas ocorrem. A tend\u00eancia \u00e9 de que mesmo em situa\u00e7\u00e3o de crise, as taxas de mortalidade, permane\u00e7am est\u00e1veis&#8221;, afirma o professor de epidemiologia da Universidade Federal da Bahia Naomar de Almeida Filho.<\/p>\n<p>&#8220;As exce\u00e7\u00f5es s\u00e3o raras, como em alguns pa\u00edses da \u00c1frica&#8221;, afirma Almeida Filho. Mantida a tend\u00eancia, completa o professor da Federal da Bahia, a expectativa de vida do brasileiro poder\u00e1 diminuir.<\/p>\n<p>O aumento da mortalidade de crian\u00e7as surpreendeu especialistas e ocorre pouco depois da divulga\u00e7\u00e3o de dados que indicavam uma melhora nos indicadores at\u00e9 2015. Um estudo coordenador por Maria de F\u00e1tima Marinho de Souza, que est\u00e1 \u00e0 frente do Departamento de Vigil\u00e2ncia de Doen\u00e7as e Agravos N\u00e3o Transmiss\u00edveis do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mostra o avan\u00e7o dos indicadores de sa\u00fade no Pa\u00eds entre 1990 e 2015.<\/p>\n<p>A taxa de mortalidade havia sofrido uma redu\u00e7\u00e3o de 28,7%. Neste per\u00edodo, a taxa de mortalidade por diarreia havia ca\u00eddo 86,8% e de meningite, em 70,7%. Ao mesmo tempo, a expectativa de vida ao nascer passou de 67,9 anos para 74,4 anos.<\/p>\n<p>O retrocesso tamb\u00e9m est\u00e1 estampado nas estat\u00edsticas de mal\u00e1ria. Depois de seis anos de queda, a infec\u00e7\u00e3o voltou a aumentar no ano passado. &#8220;Quando a doen\u00e7a come\u00e7a a cair, a aten\u00e7\u00e3o se dispersa&#8221;, afirma Cl\u00e1udio Maierovitch, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz. O retrocesso, avalia, tem um efeito perverso, que \u00e9 a perda de mobiliza\u00e7\u00e3o. &#8220;Retomar os ganhos \u00e9 sempre mais dif\u00edcil do que avan\u00e7ar na primeira vez.&#8221;<\/p>\n<p>Cl\u00e1udia diz torcer pela melhora no sistema e n\u00e3o cogita voltar mais para os planos privados. &#8220;Minha m\u00e3e tamb\u00e9m se trata no SUS. Pode ser demorado, mas quando a gente consegue o tratamento, ele \u00e9 de boa qualidade.&#8221;<\/p>\n<p>Como exemplo, ela cita uma cirurgia que fez durante o tratamento de c\u00e2ncer. &#8220;Uma das opera\u00e7\u00f5es foi feita pelo SUS. N\u00e3o ficou nada a dever aos hospitais privados. O atendimento \u00e9 nosso direito. Talvez seja melhor, em vez de recorrer ao plano, cobrar bom atendimento, lutar pelo SUS.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Demora<\/strong> &#8211; O desafio da qualidade fica claro com o relato da estudante Karolini da Luz Oliveira, de 24 anos. Sentada \u00e0 espera de atendimento na Casa de Sa\u00fade de Santa Maria (RS), ela n\u00e3o escondia o cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Estava em meados de junho e, s\u00f3 ent\u00e3o, tr\u00eas meses depois da primeira visita ao m\u00e9dico, seu problema come\u00e7ava a ser solucionado. &#8220;Foram sete consultas, um socorro com ambul\u00e2ncia, um desmaio, interna\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Karolini estava com toxoplasmose, doen\u00e7a provocada por um parasita que causou na cidade ga\u00facha um surto de propor\u00e7\u00f5es nunca vista. Na primeira visita ao centro m\u00e9dico, em mar\u00e7o, o diagn\u00f3stico foi virose.<\/p>\n<p>Dias depois, como o problema n\u00e3o se resolvia, a estudante voltou ao posto, mas o sistema estava fora do ar. Em outra visita, j\u00e1 com n\u00f3dulos, fez uma radiografia. Ap\u00f3s desmaiar e ser internada, recebeu soro. S\u00f3 na sexta consulta veio a hip\u00f3tese da toxoplasmose, confirmada no exame. &#8220;Fico pensando quanto desgaste, quanto desperd\u00edcio.&#8221;<\/p>\n<p>Wagner reconhece haver limita\u00e7\u00f5es do SUS, mas argumenta que o sistema ainda n\u00e3o foi totalmente implementado, n\u00e3o recebe recursos suficientes e n\u00e3o tem apoio pol\u00edtico. &#8220;O primeiro passo \u00e9 fazer com que o SUS ganhe cora\u00e7\u00f5es e mentes: 75% da popula\u00e7\u00e3o depende exclusivamente dele, al\u00e9m de realizar servi\u00e7os para toda sociedade.&#8221; \/ L.F.<\/p>\n<p><strong>Mortalidade infantil<\/strong> &#8211; A trajet\u00f3ria da taxa de mortalidade infantil no Pa\u00eds \u00e9 apontada como um claro exemplo de que os progressos alcan\u00e7ados na \u00e1rea de sa\u00fade est\u00e3o longe de serem irrevers\u00edveis. Depois de 25 anos de queda, o Brasil registrou em 2016 o primeiro aumento nos indicadores de mortes entre crian\u00e7as de at\u00e9 um ano. Foram 14 \u00f3bitos a cada mil nascidos vivos, 5% a mais do que havia sido contabilizado no ano anterior.<\/p>\n<p>Inicialmente atribu\u00eddo \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de nascimentos por causa da zika, o crescimento da mortalidade tamb\u00e9m ocorreu em 2017. Dados preliminares mostram que 13,6 mortes a cada mil nascidos vivos. &#8220;A epidemia n\u00e3o explica o fen\u00f4meno por dois anos seguidos. H\u00e1 provavelmente uma tend\u00eancia de aumento&#8221;, constata o professor da Universidade Federal de Pelotas, Cesar Victora.<\/p>\n<p><strong>Pobre<\/strong> &#8211; O pesquisador atribui em parte a retomada das taxas de mortalidade a retrocessos em \u00e1reas que sabidamente exercem influ\u00eancia na qualidade sa\u00fade, como emprego, renda e igualdade no acesso. &#8220;A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais pobre, mais suscet\u00edvel&#8221;, resume o professor. N\u00e3o bastasse esses fatores, investimentos na sa\u00fade p\u00fablica inferiores \u00e0s necessidades comprometem tamb\u00e9m a qualidade da assist\u00eancia m\u00e9dica &#8211; mesmo de programas voltados para problemas espec\u00edficos, seja imuniza\u00e7\u00e3o, seja amamenta\u00e7\u00e3o, seja cuidados b\u00e1sicos para sa\u00fade infantil.<\/p>\n<p>&#8220;As mortes por diarreia voltaram a aumentar. O programa de imuniza\u00e7\u00e3o, que sempre foi motivo de orgulho, tamb\u00e9m come\u00e7ou a mostrar sinais de retrocesso, com altos \u00edndices de crian\u00e7as desprotegidas.&#8221; Outra iniciativa considerada exemplar do Pa\u00eds, o programa de aleitamento materno, tamb\u00e9m est\u00e1 estagnado. &#8220;Houve avan\u00e7os muito importantes. Mas desde 2013, as taxas de amamenta\u00e7\u00e3o exclusiva est\u00e3o estacionadas em n\u00fameros baixos.&#8221; Atualmente, 40% dos beb\u00eas recebem o aleitamento como alimenta\u00e7\u00e3o exclusiva at\u00e9 os 6 meses. O ideal seria 100%. Com aleitamento, o beb\u00ea cresce com maior prote\u00e7\u00e3o contra infec\u00e7\u00f5es, por exemplo.<\/p>\n<p>Para Victora, \u00e9 essencial trabalhar pela melhora na qualidade do atendimento. &#8220;Esse \u00e9 um dos desafios.&#8221; E isso vale tamb\u00e9m para a assist\u00eancia \u00e0 gestante. Assim como a mortalidade infantil, a taxa de morte materna (durante a gesta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 42 dias depois do parto) tamb\u00e9m considerada alta: 64,4 por 100 mil nascidos vivos. &#8220;Para reduzi-las, precisamos enfrentar a discuss\u00e3o sobre a libera\u00e7\u00e3o do aborto, melhorar o pr\u00e9-natal e reduzir as ces\u00e1reas&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tem potencial para se transformar numa fonte de graves problemas e de desgaste para o pr\u00f3ximo presidente. 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