{"id":191486,"date":"2018-09-25T09:36:06","date_gmt":"2018-09-25T12:36:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=191486"},"modified":"2018-09-25T09:36:06","modified_gmt":"2018-09-25T12:36:06","slug":"nova-montagem-de-hamlet-critica-males-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nova-montagem-de-hamlet-critica-males-da-sociedade\/","title":{"rendered":"Nova montagem de &#8216;Hamlet&#8217; critica males da sociedade"},"content":{"rendered":"<p>Uma das mais c\u00e9lebres frases da dramaturgia mundial, \u201cH\u00e1 algo de podre no reino da Dinamarca\u201d, ganha enorme resson\u00e2ncia quando proferida pela atriz Patricia Selonk. Ela vive o protagonista de Hamlet, cl\u00e1ssico de William Shakespeare que a Armaz\u00e9m Companhia de Teatro estreia na sexta-feira, 28, no Centro Cultural S\u00e3o Paulo. Apesar de escrito entre 1599 e 1601, o texto exibe uma atualidade perturbadora.<\/p>\n<p>\u201cHamlet \u00e9 uma pe\u00e7a \u00fanica porque ainda oferece um di\u00e1logo direto com nossa sociedade atual\u201d, observa Paulo de Moraes, diretor do espet\u00e1culo. \u201cAfinal, a trag\u00e9dia do jovem pr\u00edncipe \u00e9 tamb\u00e9m a hist\u00f3ria da destrui\u00e7\u00e3o de uma ordem estabelecida, o colapso de uma era, um momento em que at\u00e9 a democracia perde seu sentido.\u201d<\/p>\n<p>A escolha de uma das mais importantes obras de Shakespeare para comemorar os 30 anos da companhia n\u00e3o foi aleat\u00f3ria. &#8220;Busc\u00e1vamos um texto que dialogasse com as d\u00favidas que rodeiam nossos dias\u201d, explica o encenador, que se apoiou no trabalho do te\u00f3rico polon\u00eas Jan Kott sobre a obra do bardo. \u201cKott notou que Hamlet \u00e9 uma \u2018pe\u00e7a esponja\u2019, ou seja, que absorve as quest\u00f5es do momento em que \u00e9 montada, especialmente o desajuste da sociedade.\u201d<\/p>\n<p>De fato, para o polon\u00eas, a compreens\u00e3o shakespeariana do enredo e o papel que a pr\u00f3pria Hist\u00f3ria tem nos dramas representam um coment\u00e1rio direto \u00e0 modernidade. A trama da pe\u00e7a se passa no castelo de Elsinor, na Dinamarca, onde o fantasma do Rei aparece para seu filho, o pr\u00edncipe Hamlet, exigindo uma vingan\u00e7a. O espectro diz ter sido envenenado pelo pr\u00f3prio irm\u00e3o, Cl\u00e1udio, enquanto dormia. Cl\u00e1udio se casa com a Rainha Gertrudes, m\u00e3e de Hamlet, roubando de seu pai a um s\u00f3 tempo a vida, a coroa e a mulher. Paralelamente, Hamlet se apaixona pela jovem Of\u00e9lia, filha de Polonio, conselheiro de Cl\u00e1udio e Gertrudes, e irm\u00e3 mais nova de seu amigo Laertes.<\/p>\n<p>Para desmascarar os algozes do pai, Hamlet simula uma loucura que se torna crescente, a ponto de provocar trag\u00e9dias (como a morte de Polonio e a insanidade mortal de Of\u00e9lia) at\u00e9 atingir seu auge, quando ele paga com a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Shakespeare foi, como Homero, um artista que privilegiou o homem e n\u00e3o o poder. O dramaturgo ingl\u00eas teve a capacidade para, ao entrar na alma de seus personagens, descrever com arg\u00facia as pessoas que o rodeavam \u2013 na verdade, ele enfrentou um desafio que continua atual, ou seja, o de atingir tanto o espectador com gosto refinado como aquele pouco interessado em arte e deixar ambos maravilhados. \u201cEssa era nossa inten\u00e7\u00e3o com a montagem: buscar um p\u00fablico amplo\u201d, comenta Moraes, que v\u00ea no texto shakespeariano um forte tom pol\u00edtico. \u201cHamlet oferece infinitas leituras, mas n\u00e3o podemos nos esquecer que a usurpa\u00e7\u00e3o do poder \u00e9 um tema central.\u201d<\/p>\n<p>E a for\u00e7a do texto \u00e9 tamanha que em nenhum momento o encenador precisou encaixar cita\u00e7\u00f5es literais para ressaltar a proximidade com a realidade do mundo atual. \u201cN\u00e3o necessitamos citar abertamente fatos do Brasil ou mesmo colocar uma foto de Donald Trump para buscar essa conex\u00e3o\u201d, observa Moraes que, em sua montagem, destaca um detalhe nem sempre observado por outros diretores, mas de extrema import\u00e2ncia na organicidade do texto criado por Shakespeare: a ferocidade com que Hamlet lida com a loucura, tanto a criada por ele para atingir diretamente sua m\u00e3e e seu tio na acusa\u00e7\u00e3o do assassinato do pai, como na pr\u00f3pria que, com o tempo, se torna uma loucura incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio lembrar, nesse momento, que o perturbado pr\u00edncipe da Dinamarca \u00e9 vivido por uma atriz, Patricia Selonk, o que torna sua raiva crescente um detalhe ainda mais arrebatador na montagem. \u201cHamlet pertence ao sistema que pretende dominar, mas, aos poucos, sua loucura o torna o grande provocador da destrui\u00e7\u00e3o daquele sistema\u201d, comenta Moraes. \u201cEm um primeiro momento, ele se revela um estrategista, mas, \u00e0 medida que se depara com uma situa\u00e7\u00e3o cada vez mais insana, Hamlet perde o controle da situa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A ferocidade do pr\u00edncipe ganha uma trilha sonora \u00e0 altura, com m\u00fasicas punk executadas ao vivo, cria\u00e7\u00e3o de Ricco Viana, al\u00e9m de figurinos (Jo\u00e3o Marcelino e Carol Lobato) e cen\u00e1rios (Carla Berri e Paulo de Moraes) com inspira\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas. \u201c\u00c9 importante tratar Shakespeare como se fosse um genial dramaturgo rec\u00e9m-descoberto com algumas coisas urgentes a dizer sobre guerra, loucura do mundo e nossos l\u00edderes pol\u00edticos modernos\u201d, diz o diretor.<\/p>\n<p>Entrevista. Patricia Selonk j\u00e1 viveu Alice, aquela do Pa\u00eds das Maravilhas, assim como Geni, de Toda Nudez Ser\u00e1 Castigada, de Nelson Rodrigues. Mas, em Hamlet, o desafio \u00e9 novo, especialmente por conta da ferocidade crescente que toma conta do protagonista. \u201cFoi dif\u00edcil encontrar a viol\u00eancia de Hamlet em meu corpo\u201d, conta a atriz. \u201cEu n\u00e3o queria um her\u00f3i, mas um homem que, ao simular uma loucura, perde o controle e, ao final da pe\u00e7a, destr\u00f3i tudo o que o sustentava.\u201d<\/p>\n<p>Int\u00e9rprete de amplos recursos c\u00eanicos, Patricia exibe v\u00e1rios deles na pe\u00e7a. \u00c9 gra\u00e7as ao tom jocoso de sua voz, por exemplo, que a atriz destaca a mordacidade de Hamlet, autor de frases memor\u00e1veis como \u201cPerfila-me como primo porque n\u00e3o primo como seu filho\u201d, dita \u00e0 m\u00e3e Gertrudes, ou ainda \u201cFoi curto \u2013 tal qual o amor das mulheres\u201d.<\/p>\n<p>\u201cHamlet \u00e9 um grande frasista, quase um Nelson Rodrigues, pois exibe uma grande presen\u00e7a de esp\u00edrito e faz isso como se comentasse as situa\u00e7\u00f5es, conferindo mais colorido para as cenas\u201d, comenta o diretor Paulo de Moraes, que alternou a ordem de algumas cenas, a fim de refor\u00e7ar dramaturgicamente determinados momentos impactantes.<\/p>\n<p>Como o famoso solil\u00f3quio \u201cSer ou n\u00e3o ser\u201d, aqui proferido por Hamlet depois da morte de Pol\u00f4nio. \u201cIsso fez com que a fala ganhasse uma enorme carga emocional\u201d, diz o diretor, garantindo que o papel coube naturalmente a Patricia. E o que se nota \u00e9 que esse jogo masculino\/feminino cai bem na encena\u00e7\u00e3o, pois Hamlet joga com a simula\u00e7\u00e3o para tentar desmascarar o assassino de seu pai.<\/p>\n<p>H\u00e1 31 anos na Armaz\u00e9m Companhia de Teatro, desde sua funda\u00e7\u00e3o em Londrina, em 1987, Patricia busca, em Hamlet, desvendar os mist\u00e9rios do ser humano. \u201cAs pessoas me perguntam se n\u00e3o \u00e9 cansativo fazer a pe\u00e7a e eu digo que ela me salva. Com o texto, reflito muito sobre quest\u00f5es atuais e, assim como Hamlet v\u00ea seu mundo cair, acho que algo tamb\u00e9m vai mudar em nosso Pa\u00eds. Afinal, a engrenagem est\u00e1 velha e cansada.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das mais c\u00e9lebres frases da dramaturgia mundial, \u201cH\u00e1 algo de podre no reino da Dinamarca\u201d, ganha enorme resson\u00e2ncia quando proferida pela atriz Patricia Selonk. 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