{"id":191547,"date":"2018-09-26T10:32:05","date_gmt":"2018-09-26T13:32:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=191547"},"modified":"2018-09-26T10:32:05","modified_gmt":"2018-09-26T13:32:05","slug":"em-monologo-maria-padilha-reflete-sobre-a-fragilidade-humana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/em-monologo-maria-padilha-reflete-sobre-a-fragilidade-humana\/","title":{"rendered":"Em mon\u00f3logo, Maria Padilha reflete sobre a fragilidade humana"},"content":{"rendered":"<p>A solid\u00e3o. A fragilidade humana. Os limites da sanidade. No mon\u00f3logo Di\u00e1rios do Abismo, em cartaz at\u00e9 novembro no Teatro II do Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio, Maria Padilha d\u00e1 voz \u00e0s reflex\u00f5es que saltam dos di\u00e1rios de Maura Lopes Can\u00e7ado (1929-1993), autora mineira diagnosticada como epil\u00e9tica e psic\u00f3tica e que registrou sua passagem por institui\u00e7\u00f5es para pacientes psiqui\u00e1tricos \u2013 para a atriz, n\u00e3o uma louca que escrevia, mas uma escritora com quest\u00f5es a serem tratadas.<\/p>\n<p>Sozinha no palco pela primeira vez, Maria celebra seus 40 anos de carreira. \u201cEstou aprendendo a fazer ainda, venho acostumada com As Tr\u00eas Irm\u00e3s, O Mercador de Veneza, 15 pessoas em cena&#8230; Agora \u00e9 como jogar futebol sozinha. Eu poderia ter feito mon\u00f3logo mais jovem, na cara de pau, mas minha personalidade sempre foi outra. Eu j\u00e1 pensava na pr\u00f3xima pe\u00e7a imaginando \u2018com quem vou contracenar dessa vez?\u201d, contava a atriz na sexta-feira passada enquanto se preparava para entrar em cena.<\/p>\n<p>A ideia de encenar os escritos de Maura veio quando, na passagem de 2015 para 2016, o amigo Ney Latorraca lhe deu de presente Hosp\u00edcio \u00c9 Deus. O romance autobiogr\u00e1fico foi escrito em 1959 e publicado em 1965 \u2013 \u201cn\u00e3o \u00e9, absolutamente, um di\u00e1rio \u00edntimo, mas t\u00e3o apenas o di\u00e1rio de uma hospiciada, sem sentir-se com direito a escrever as enormidades que pensa, suas belezas, suas verdades. Seria verdadeiramente escandaloso meu di\u00e1rio \u00edntimo\u201d, Maura pr\u00f3pria ressalvou. O livro narra sua viv\u00eancia no hospital carioca Gustavo Riedel, no Engenho de Dentro, entre o fim de 1959 e o come\u00e7o de 1960.<\/p>\n<p>Maria ficou impressionada com a narrativa e a apresentou ao diretor Sergio M\u00f3dena, com quem j\u00e1 conversava sobre um poss\u00edvel Chekhov: \u201cSer\u00e1 que isso d\u00e1 teatro?\u201d. Ele respondeu: \u201cN\u00e3o s\u00f3 d\u00e1, como \u00e9 mais urgente de montar\u201d. Ao v\u00ea-la em a\u00e7\u00e3o, entende-se por qu\u00ea: a sintaxe de Maura \u00e9 precisa, seja ao contar do primeiro estupro que sofreu, ainda na inf\u00e2ncia, seja ao descrever as rela\u00e7\u00f5es futuras com os m\u00e9dicos e as companheiras de interna\u00e7\u00e3o. Quando se espera que seja depressiva, \u00e9 bem-humorada.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 econ\u00f4mico e remete \u00e0 vis\u00e3o po\u00e9tica de Maura de um quarto de hosp\u00edcio, com as camas alinhadas. A personagem, \u201cum anjo com voca\u00e7\u00e3o para dem\u00f4nio\u201d, est\u00e1 sozinha com seus pensamentos. Proje\u00e7\u00f5es de Batman Zavareze p\u00f5em as palavras de Maura em primeiro plano. \u201cA humanidade inteira \u00e9 respons\u00e1vel pela sa\u00fade mental de cada um\u201d, ela nos ensina. O texto foi adaptado por Pedro Br\u00edcio.<\/p>\n<p>\u201cEla sabia da sua condi\u00e7\u00e3o, internava-se sozinha, por n\u00e3o aguentar a vida aqui, ter dificuldade com o jogo social. Tamb\u00e9m enxergava-se de fora. Tinha explos\u00f5es, pela sensibilidade apurada de artista. Era uma mulher intelectualizada. \u00c0s vezes eu pensava enquanto lia: \u2018Devo ser maluca, porque penso muita coisa igual a ela\u2019\u201d, diz Maria. \u201cAs pessoas t\u00eam medo da pr\u00f3pria loucura e tratam mal os loucos, enquanto t\u00eam clem\u00eancia por outros doentes.\u201d<\/p>\n<p>Sergio M\u00f3dena explica a \u201curg\u00eancia\u201d na montagem. \u201cEstamos vivendo um tempo de emo\u00e7\u00f5es muito afloradas, e o ensinamento dela \u00e9: \u2018\u00c9 necess\u00e1rio amor\u2019\u201d, pontua o diretor. \u201cA obra da Maura foi redescoberta nos anos 2000, mas ainda \u00e9 pouco conhecida. As reflex\u00f5es s\u00e3o l\u00facidas, bem articulada. E com todo aquele sofrimento ainda tinha humor, ironia.\u201d<\/p>\n<p>Quando Maria ganhou o livro, Hosp\u00edcio \u00c9 Deus tinha acabado de ser relan\u00e7ado pela editora Aut\u00eantica, depois de 30 anos fora de cat\u00e1logo. O t\u00edtulo saiu num box especial junto com O Sofredor do Ver (1968). \u201c\u00c9 um depoimento muito forte. Ela tem um modo muito intrigante e interessante de narrar. N\u00e3o \u00e9 como dizem, \u2018aquela escritora maluca\u2019\u201d, afirma a editora Maria Am\u00e9lia Mello. \u201cEla diz que nada tem a eternidade dos loucos, nem as pir\u00e2mides do Egito. Fala da humilha\u00e7\u00e3o que \u00e9 morrer. Colocamos parte do texto j\u00e1 na capa, como se cham\u00e1ssemos: \u2018Leia a Maura!\u2019.\u201d<\/p>\n<p>De fam\u00edlia rica e influente do interior de Minas, Maura chegou ao Rio na juventude sonhando ser escritora. Foi colaboradora do prestigioso Suplemento Liter\u00e1rio dominical do Jornal do Brasil, o mais importante do Pa\u00eds \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos anos 1950\/1960, Maura entendia que os eletrochoques a que era submetida deveriam ser encarados pelos m\u00e9dicos como tratamento, n\u00e3o como instrumentos de vingan\u00e7a por \u201cmau comportamento\u201d. Hoje, Maura \u00e9 tema de estudos.<\/p>\n<p>A encena\u00e7\u00e3o \u00e9 uma vit\u00f3ria num cen\u00e1rio desolador para as artes c\u00eanicas, sublinha Maria Padilha. \u201cFazer teatro no Rio est\u00e1 muito dif\u00edcil. Estamos sem instrumentos de fomento, e a crise fez as empresas deixarem o Rio\u201d, lamenta. \u201cO p\u00fablico da zona sul (bairros mais abastados e mais dotados de palcos) pensa que o custo-benef\u00edcio \u00e9 o da risada que vai dar na pe\u00e7a. \u00c9 um momento de luta pela sobreviv\u00eancia.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A solid\u00e3o. A fragilidade humana. 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