{"id":192739,"date":"2018-10-11T08:59:49","date_gmt":"2018-10-11T11:59:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=192739"},"modified":"2018-10-11T08:59:49","modified_gmt":"2018-10-11T11:59:49","slug":"sa-guarabyra-lancam-album-com-classicos-turbinados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sa-guarabyra-lancam-album-com-classicos-turbinados\/","title":{"rendered":"S\u00e1 &#038; Guarabyra lan\u00e7am \u00e1lbum com cl\u00e1ssicos &#8216;turbinados&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Julio Hungria, o jornalista, \u00e9 o ser humano que passou mais perto. Era dif\u00edcil mesmo chegar a uma conclus\u00e3o sobre aquele neg\u00f3cio de tocar rock com tanta for\u00e7a nos viol\u00f5es, aquele jeito de fazer m\u00fasica urbana olhando para o interior do Pa\u00eds e m\u00fasica de festa olhando para o interior dos homens. Hungria n\u00e3o se contentou com o que havia at\u00e9 ali: rock rural, folk rock brasileiro, rock sertanejo. Foi mais ousado e fez S\u00e1, Rodrix e Guarabyra se sentirem, enfim, representados: caipiras progressivos.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixava de ser uma forma de etiquet\u00e1-los num tempo, 1972, 1973, em que etiquetas diziam muito. A confus\u00e3o era justific\u00e1vel. Luiz Carlos S\u00e1, carioca, estudado nas jurisprud\u00eancias do Direito, falante do ingl\u00eas, era urbano e antenado. Guttemberg Guarabyra, a raiz, ainda andava assustado com a indiferen\u00e7a do paulistano comparada aos sorrisos f\u00e1ceis do Vale do Rio S\u00e3o Francisco, na Bahia, e preferia Feche os Olhos \u00e0 original dos Beatles, All My Loving. J<\/p>\n<p>os\u00e9 Rodrigues Trindade, o Z\u00e9 Rodrix, misturava tudo o que lhe ca\u00eda na centr\u00edfuga de matriz acad\u00eamica. Um virtuoso na composi\u00e7\u00e3o e poliglota de sete l\u00ednguas: piano, viol\u00e3o, acorde\u00e3o, flauta, bateria, saxofone e trompete. Quando juntou tudo, l\u00e1 por 1971, quem ouviu teve certeza de que o sert\u00e3o, logo logo, viraria mar.<\/p>\n<p>O trio lan\u00e7ou dois discos, Passado, Presente &amp; Futuro, de 1972, e Terra, de 1973. A\u00ed, o mar tamb\u00e9m virou sert\u00e3o e Z\u00e9, indisposto com os amigos, se mandou para a publicidade com o compositor mineiro Tavito. O que vem depois, desde os baixos, como o pouco entendido \u00e1lbum Cadernos de Viagem, de 1975, aos altos clarins anunciando o catacl\u00edsmico folhetim Roque Santeiro, de 1985, prolongando-se pelos menos midi\u00e1ticos anos 90 e 2000, \u00e9 hist\u00f3ria que n\u00e3o esgotaria naquelas biografias de um volume s\u00f3. Ent\u00e3o, eles a cantam.<\/p>\n<p>S\u00e1 e Guarabyra, saudosos de Z\u00e9 Rodrix desde sua morte, em 2009, lan\u00e7am um disco de mem\u00f3rias afetivas. O \u00faltimo com in\u00e9ditas veio em 2011, Amanh\u00e3, gravado ainda com Z\u00e9, que n\u00e3o ficou para ver o resultado. \u00c9 a primeira vez desde ent\u00e3o que a dupla volta a um est\u00fadio, ainda que sem material in\u00e9dito, para gravar. Um songbook de compila\u00e7\u00f5es saiu em 2015 e, em 2017, um projeto ao vivo e em CD e DVD foi feito com Fl\u00e1vio Venturini e o grupo 14 Bis.<\/p>\n<p>Cinamomo, a m\u00fasica de 1977 retirada da ressurrei\u00e7\u00e3o art\u00edstica Pir\u00e3o de Peixe com Pimenta (Sobradinho e Espanhola tamb\u00e9m s\u00e3o dele), faz a terraplenagem ac\u00fastica em uma obra que atravessa v\u00e1rios conceitos de \u00e9poca. A equipe do est\u00fadio Mosh conseguiu dar linearidade a m\u00fasicas de tratamento original muitas vezes limitado pelos recursos do passado. Se Viajante \u00e9 de 1972, com toda a sombra de Crosby, Stills and Nash que os anos pediam, Harmonia \u00e9 de 1986, feita na nuvem de teclados e ecos na bateria que valiam de ingresso \u00e0s FMs.<\/p>\n<p>Com os viol\u00f5es de a\u00e7o no front, os solos de guitarra de F\u00e1bio Santini, uma bateria de pegada seca e brilhante de Christiano Rocha, o baixo e os vocais de Pedr\u00e3o Baldanza e as teclas de Constant Papineanu, com as vozes em plena forma se cruzando e as percuss\u00f5es nos lugares certos, tudo parece ter sido gravado para um mesmo \u00e1lbum. \u201cDesde os primeiros discos, nunca nos escravizamos, tivemos algo de Beatles\u201d, diz Guarabyra. Em meio a Sobradinho, Ca\u00e7ador de Mim, Dona, Espanhola, Jesus Numa Moto e Mestre Jonas, onde est\u00e1 Roque Santeiro? S\u00e1 explica: \u201cN\u00e3o conseguimos. Ela \u00e9 muito forte. N\u00e3o conseguimos fazer um novo arranjo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rias<\/strong> &#8211; Sem elas, n\u00e3o h\u00e1 uma boa can\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, Cinamomo, o \u00e1lbum de revisita\u00e7\u00f5es que S\u00e1 &amp; Guarabyra acabam de lan\u00e7ar pelo selo Discobertas, do produtor Marcelo Fr\u00f3es, poderia vir com um livreto, faixa b\u00f4nus ou qualquer artif\u00edcio digital que trouxesse S\u00e1 ou Guarabyra contando os bastidores de suas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Dona<\/strong> &#8211; A real, uma paix\u00e3o de Guarabyra que se tornaria uma das maiores vit\u00f3rias fonogr\u00e1ficas da dupla, feita para concorrer no festival MPB Shell de 1982, existe e est\u00e1 viva, ainda que de forma reclusa, em S\u00e3o Paulo. Guarabyra amava aquela mulher, tanto que sonhou quase tudo o que se ouviria como trilha sonora de Vi\u00fava Porcina, personagem de Regina Duarte na novela Roque Santeiro.<\/p>\n<p>Depois de um show em Goi\u00e2nia, os amigos voltaram exaustos para o hotel. Guarabyra logo dormiu e sonhou com Marisa, a musa, sentada nas primeiras cadeiras da plateia enquanto ele tocava. \u201cEu olhava para o bra\u00e7o do viol\u00e3o e via at\u00e9 os acordes que estava fazendo.\u201d Al\u00e9m das notas do viol\u00e3o e da melodia, ele se lembraria tamb\u00e9m de frases como \u201ct\u00e3, t\u00e3, t\u00e3, batem na porta\u201d, que no liquidificador do c\u00e9rebro em modo desacordado haviam sido contrabandeadas de mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia, quando ele ouvia a mesma frase nos sambas de caboclo de sua cidade. Outras passagens descreviam o perfil da namorada, como \u201cDona, desses animais&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Marisa ainda \u00e9, e j\u00e1 era na \u00e9poca, uma veterin\u00e1ria. \u201cAcordei, peguei o viol\u00e3o e chequei. Os acordes eram exatamente os mesmos.\u201d<\/p>\n<p>Guarabyra foi atr\u00e1s do amigo assim que acordou, mas S\u00e1 n\u00e3o atendia \u00e0 porta do apartamento no andar de cima. Angustiado para contar de sua Yesterday (a can\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica que Paul fez toda em sonho), bateu no teto com o cabo de um rodo at\u00e9 acord\u00e1-lo. L\u00e1 estava um dos maiores ganha-p\u00e3o de S\u00e1 e Guarabyra, entregue de presente por um sonho e ungindo por uma paix\u00e3o. E Marisa? \u201cSomos amigos, at\u00e9 hoje.\u201d<\/p>\n<p>Espanhola, de 1976, era outra amada \u00e0 dist\u00e2ncia de Guarabyra. A parceria com Fl\u00e1vio Venturini se deu em uma noite no Brooklin, em S\u00e3o Paulo, quando fazia zero grau e o baiano resolveu se refugiar na casa do vizinho. \u201cEle puxou um viol\u00e3o de 12 cordas e mostrou uma melodia linda. Peguei o caderno e escrevi de uma vez s\u00f3, sem alterar nenhuma palavra.\u201d<\/p>\n<p>Um ano depois, em 1977, quando j\u00e1 andavam em dois, S\u00e1 e Guarabyra faziam um percurso de carro pelo sert\u00e3o do Vale do S\u00e3o Francisco em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 cidade de Guarabyra, Solar de Bom Jesus da Lapa, onde seu pai vivia, um advogado e pastor batista. Caminhavam pelas ruas quando ouviram uma prosa estranha dita por mais de duas pessoas. Caminh\u00f5es gigantes, como nunca vistos por ali, andavam levantando as terras de uma regi\u00e3o vizinha. Seguiram para l\u00e1 e viram o que jamais imaginavam. N\u00e3o s\u00f3 os caminh\u00f5es mas tamb\u00e9m muitos homens trabalhavam para construir a represa gigante de Sobradinho, um lago 600 vezes maior do que a Ba\u00eda de Guanabara, no Rio de Janeiro, constru\u00eddo com \u00e1guas represadas do S\u00e3o Francisco para fazer funcionar a usina hidrel\u00e9trica de Sobradinho. Ningu\u00e9m sabia disso naquela tarde em que S\u00e1 e Guarabyra tiveram a vis\u00e3o do sert\u00e3o virando mar. Sob regime ditatorial, os jornais nada noticiavam e o projeto era tocado \u00e0s escuras.<\/p>\n<p>Seis cidades seriam inundadas, centenas de fam\u00edlias seriam removidas e o impacto ambiental se anunciava. As cobran\u00e7as previstas e as inimagin\u00e1veis logo chegariam, como o aumento nos \u00edndices de prostitui\u00e7\u00e3o infantil. S\u00e1 &amp; Guarabyra fizeram a primeira reportagem denunciando em m\u00fasica o que o mundo saberia em breve. \u201cAdeus, Remanso, Casa Nova, Sento-S\u00e9 \/ Adeus, Pil\u00e3o Arcado, vem o rio te engolir \/ Debaixo de \u00e1gua l\u00e1 se vai a vida inteira \/ Por cima da cachoeira o gaiola vai, vai subir \/ Vai ter barragem no salto do Sobradinho \/ e o povo vai-se embora com medo de se afogar \/ O sert\u00e3o vai virar mar \/ D\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o \/ o medo que algum dia o mar tamb\u00e9m vire sert\u00e3o&#8230;\u201d \u201cFoi a partir do sucesso da m\u00fasica que o governo come\u00e7ou a fazer propagandas para reverter a imagem e dizer que a iniciativa faria bem ao Pa\u00eds\u201d, lembra o jornalista Guarabyra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Julio Hungria, o jornalista, \u00e9 o ser humano que passou mais perto. 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