{"id":192830,"date":"2018-10-13T08:40:45","date_gmt":"2018-10-13T11:40:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=192830"},"modified":"2018-10-13T08:40:45","modified_gmt":"2018-10-13T11:40:45","slug":"martin-amis-de-corpo-fragilizado-mostra-a-mente-de-um-vulcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/martin-amis-de-corpo-fragilizado-mostra-a-mente-de-um-vulcao\/","title":{"rendered":"Martin Amis, de corpo fragilizado, mostra a mente de um vulc\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Os passos s\u00e3o medidos e vagarosos, como se evitasse uma queda sempre iminente. O olhar permanece fixo \u00e0 sua frente, indiferente ao que se passa ao seu redor. \u00c9 com um aspecto discretamente fragilizado que Martin Amis chega ao estande do Frankfurter Allgemeine Zeitung, respeitado jornal alem\u00e3o di\u00e1rio de circula\u00e7\u00e3o nacional, instalado na Feira do Livro de Frankfurt. O escritor ingl\u00eas veio para falar sobre o livro Im Vulkan (No Vulc\u00e3o), sele\u00e7\u00e3o de seus ensaios escolhidos por Daniel Kehlmann, seu grande admirador e um dos autores alem\u00e3es contempor\u00e2neos mais lidos.<\/p>\n<p>\u00c9 grande a circula\u00e7\u00e3o de pessoas nesse que \u00e9 o maior evento do mercado editorial do planeta, mas a presen\u00e7a de p\u00fablico para acompanhar as palavras de Amis \u00e9 at\u00e9 reduzida em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 sua import\u00e2ncia na literatura mundial. Aos 69 anos, o ingl\u00eas radicado em Nova York revela-se um escritor cuja argumenta\u00e7\u00e3o se torna mais incisiva \u00e0 medida que seu estilo ganha mais sofistica\u00e7\u00e3o. Figura proeminente do per\u00edodo do renascimento da prosa brit\u00e2nica, nos anos 1980, membro de um grupo formado ainda por Julian Barnes e Graham Swift, entre outros, Amis \u00e9 exemplo precioso da fina ironia inglesa.<\/p>\n<p>\u00c9 o que se observa em Im Vulkan, cujos ensaios revelam o olhar arguto de um rep\u00f3rter e a prosa absorvente de um estilista. Amis acompanhou a campanha presidencial de Donald Trump, estava presente no momento em que o ent\u00e3o primeiro-ministro ingl\u00eas Tony Blair se encontrou pela primeira vez com a chanceler alem\u00e3 Angela Merkel, fez contundentes observa\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas a Steven Spielberg e escreveu de maneira pungente sobre a carreira de Madonna. E, para n\u00e3o se prender apenas a celebridades, o livro traz ainda artigos sobre a prolifera\u00e7\u00e3o nuclear, o corpo e a morte. At\u00e9 aspectos curiosos, como a invas\u00e3o de visitantes estrangeiros que chegam anualmente a Munique para a Oktoberfest, a tradicional festa da cerveja, n\u00e3o escapam de seu radar.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 curioso, por\u00e9m, que aqui voc\u00ea pouco se refere a um autor que sempre considerou essencial, Philip Roth, que morreu em maio&#8221;, cutuca Patrick Bahners, o jornalista alem\u00e3o do Frankfurter Allgemeine, que conversa com Amis. &#8220;O que aconteceu?&#8221; O ingl\u00eas responde com a seguran\u00e7a de quem j\u00e1 antevia a quest\u00e3o: &#8220;Tenho paix\u00e3o por Roth, que me impressionou com O Complexo de Portnoy (de 1969), no qual extrapolou o limite da prosa, tornando-a v\u00edvida. Suas \u00faltimas obras, por\u00e9m, trouxeram personagens opacos, sem vida, praticamente mortos. Aquele j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo Roth que me fez vibrar. \u00c9 triste morrer sem poder revisar seus \u00faltimos trabalhos&#8221;.<\/p>\n<p>Amis impressiona, \u00e0 primeira vista, pela figura sisuda e diminuta. A fala imponente, por\u00e9m, torna maior sua estatura e a fina ironia logo relaxa qualquer ambiente, al\u00e9m de revelar um sorriso \u00e0 la Ney Matogrosso &#8211; os dentes superiores s\u00e3o ligeiramente separados. Trata-se de um homem que nunca considerou criar uma carreira que n\u00e3o envolvesse a escrita. E isso n\u00e3o apenas por ser filho de um dos mais prestigiados autores brit\u00e2nicos, Kingsley Amis, morto em 1995, mas pelo conte\u00fado e pela forma de seus livros.<\/p>\n<p>Novamente, isso \u00e9 posto \u00e0 prova quando Bahners o questiona sobre Lolita, obra-prima do russo-americano Vladimir Nabokov (1899-1977) lan\u00e7ada em 1955 e que trata, numa r\u00e1pida leitura, da compuls\u00e3o sexual provocada por uma adolescente em um renomado professor. &#8220;N\u00e3o sei se hoje algum editor publicaria esse livro&#8221;, avalia Amis. &#8220;\u00c9 um texto muito complexo, cuja puni\u00e7\u00e3o \u00e9 psicol\u00f3gica e n\u00e3o f\u00edsica, como ditariam as leis atuais. Tamb\u00e9m tal fantasia masturbat\u00f3ria do professor soaria inveross\u00edmil.&#8221;<\/p>\n<p>Nas pausas, Amis fuma discretamente um cigarro eletr\u00f4nico, o que lhe d\u00e1 mais \u00e2nimo para falar de um tema atual, o drama dos refugiados, e como isso se aplica \u00e0 Oktoberfest, que lhe inspirou o conto Oktober, publicado em 2015 pela revista New Yorker. &#8220;Fiquei impressionado com a vis\u00e3o que tive em Munique, tomada por foli\u00f5es de todo o mundo e, ao mesmo tempo, pressionada pela presen\u00e7a de refugiados. Hoje, isso se torna ainda mais grave, pois a xenofobia vem crescendo no mundo na mesma medida que o populismo&#8221;, observa Amis, que d\u00e1 uma \u00faltima tragada antes de ir embora, passos medidos, olhar fixo, sem ser importunado no meio da multid\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os passos s\u00e3o medidos e vagarosos, como se evitasse uma queda sempre iminente. 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