{"id":193246,"date":"2018-10-18T07:35:11","date_gmt":"2018-10-18T10:35:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=193246"},"modified":"2018-10-18T07:35:11","modified_gmt":"2018-10-18T10:35:11","slug":"o-primeiro-homem-falha-muito-a-comecar-pela-falta-da-bandeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-primeiro-homem-falha-muito-a-comecar-pela-falta-da-bandeira\/","title":{"rendered":"O Primeiro Homem falha muito. A come\u00e7ar pela falta da bandeira"},"content":{"rendered":"<p>Havia a expectativa de Damien Chazelle e Barry Jenkins se enfrentassem de novo no pr\u00f3ximo Oscar. No ano passado, dividiram os pr\u00eamios de melhor filme (Jenkins, por Moonlight &#8211; Sob a Luz do Luar) e dire\u00e7\u00e3o (Chazelle, por La La Land &#8211; Cantando Esta\u00e7\u00f5es). Este ano, ambos est\u00e3o sendo, mais uma vez, cobertos de elogios pela cr\u00edtica dos EUA. Chazelle, com O Primeiro Homem, e Jenkins, com Se a Rua Beale Pudesse Falar. Mas a\u00ed veio a estreia de O Primeiro Homem, e o filme ficou muito aqu\u00e9m do esperado na bilheteria, levantando suspeitas se ter\u00e1 f\u00f4lego para concorrer \u00e0 pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o de pr\u00eamios da Academia.<\/p>\n<p>Na ind\u00fastria, est\u00e3o surgindo as mais variadas interpreta\u00e7\u00f5es para o insucesso de O Primeiro Homem &#8211; sobre a odisseia do astronauta Neil Armstrong, primeiro homem a caminhar na Lua. Na Am\u00e9rica patrioteira de Donald Trump, pegou mal o fato de o filme n\u00e3o mostrar o momento em que Armstrong plantou a bandeira dos EUA no arenoso solo lunar. Alguns apoiadores do presidente na imprensa chegam a levantar a quest\u00e3o &#8211; qual \u00e9 a utilidade de um filme desses, se n\u00e3o for para mostrar a supremacia norte-americana? O Primeiro Homem n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 uma exalta\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica como se desenha como uma antiepopeia.<\/p>\n<p>Damien Chazelle cobra o pre\u00e7o da corrida espacial &#8211; em custos e vidas. A morte \u00e9 um tema central, e uma perda visceral est\u00e1 na origem da dedica\u00e7\u00e3o de Armstrong ao projeto. O porqu\u00ea de caminhar na Lua. Como todo her\u00f3i do diretor &#8211; os m\u00fasicos de Whiplash e La La Land -, ele busca alguma coisa. A perfei\u00e7\u00e3o, o limite? A quest\u00e3o \u00e9 sempre o &#8216;p\u00f3s&#8217;. O custo. O que se ganha, o que se perde? O vazio. O Primeiro Homem \u00e9 bel\u00edssimo. Ryan Gosling e Claire Foy, da s\u00e9rie The Crown, merecem ir para o Oscar.<\/p>\n<p>Nos EUA, muita gente &#8211; p\u00fablico e cr\u00edticos &#8211; reclamou do que foi considerado &#8216;trai\u00e7\u00e3o&#8217; do diretor Damien Chazelle. Ele omite o momento em que Neil Armstrong cravou a bandeira dos EUA na Lua, estabelecendo a supremacia norte-americana na corrida espacial com os sovi\u00e9ticos, nos anos 1960. Na verdade, a omiss\u00e3o \u00e9 perfeitamente justificada, porque n\u00e3o era isso que interessava a Armstrong nem a Chazelle. Tamb\u00e9m aqui, omitindo o detalhe &#8211; para evitar spoiler -, o astronauta tinha uma motiva\u00e7\u00e3o muito mais \u00edntima, que resulta na cena mais bela do filme, mas isso \u00e9 algo que voc\u00ea ter\u00e1 de avaliar assistindo a O Primeiro Homem, que estreia nesta quinta, 18, nos cinemas brasileiros.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que h\u00e1 uma outra quest\u00e3o a considerar. Qualquer cin\u00e9filo de carteirinha sabe que existe uma teoria segundo a qual o programa espacial dos EUA n\u00e3o conseguiu levar nenhum astronauta \u00e0 Lua, e que a caminhada de Armstrong sobre o solo lunar &#8211; quando ele disse a ic\u00f4nica frase &#8216;Esse \u00e9 um passo pequeno para um homem, mas gigante para a humanidade&#8217; &#8211; teria sido encenada por ningu\u00e9m menos que Stanley Kubrick, o grande diretor de 2001, Uma Odisseia no Espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Para incorporar essa vers\u00e3o &#8211; fake? -, Damien Chazelle teria de ter feito outro filme, e n\u00e3o o que lhe interessava, sobre a dor da perda de Armstrong e sua mulher, que ele usou como est\u00edmulo interior para prosseguir na epopeia espacial, quando tudo parecia conspirar contra ela.<\/p>\n<p>Stanley Kubrick, justamente. Com 2001, o cineasta esculpiu, no imagin\u00e1rio coletivo, um sonho de aventura espacial. Tudo branco, cen\u00e1rios clean, um mundo perfeitamente comandado pelos computadores &#8211; pelo menos at\u00e9 que Hal-9000 enlouque\u00e7a. 2001, o filme, \u00e9 de 1968, portanto completa 50 anos em 2018. \u00c9 a mesma idade de Barbarella, de Roger Vadim, e n\u00e3o existe filme mais diferente de 2001. Ao universo minimalista &#8211; por mais grandioso que seja o visual &#8211; de Kubrick, Vadim responde com tons escuros e naves improvisadas. A chave, no filme franc\u00eas, \u00e9 a hero\u00edna, Jane Fonda, e sua descoberta do sexo.<\/p>\n<p>Chazelle, num certo sentido, \u00e9 um autor europeu em Hollywood. O musical La La Land &#8211; Cantando Esta\u00e7\u00f5es, que lhe valeu o Oscar de dire\u00e7\u00e3o, tem tudo a ver com o cinema (en)cantado de Jacques Demy O Primeiro Homem, sobre a epopeia pessoal de Neil Armstrong, primeiro homem a caminhar na Lua, est\u00e1 mais para Vadim do que para Kubrick.<\/p>\n<p>N\u00e3o tanto pelo sexo, embora Chazelle filme cenas \u00edntimas entre Ryan Gosling, que interpreta o papel, e a magn\u00edfica Claire Foy, que faz sua mulher. A semelhan\u00e7a vem mais dessa constata\u00e7\u00e3o da precariedade tecnol\u00f3gica da aventura real. Olhe a\u00ed as fotos. O Neil da realidade e o da fic\u00e7\u00e3o (Gosling) vestem trajes rigorosamente iguais, n\u00e3o h\u00e1 por que duvidar que Chazelle n\u00e3o tenha reproduzido as naves como eram. Elas trepidam tanto, e os peda\u00e7os caem no interior, que o espectador se pergunta &#8211; como foi poss\u00edvel chegar \u00e0 Lua com essas engenhocas, r\u00fasticas desse jeito.<\/p>\n<p>Como elas n\u00e3o explodiam? Ah, mas explodem. Um inc\u00eandio na Apollo provoca as mortes de tr\u00eas astronautas amigos de Armstrong O filme, que se estrutura, como drama, a partir de uma perda na vida do casal Armstrong, prossegue questionando outras perdas. O que representou em custo &#8211; de dinheiro e vidas humanas &#8211; a corrida espacial?<\/p>\n<p>Enquanto em Cabo Canaveral, rebatizado Cape Kennedy, manifestantes protestam contra o desperd\u00edcio de dinheiro &#8211; exigindo hospitais e universidades para negros, em vez de naves para competir com os sovi\u00e9ticos, no contexto da Guerra Fria entre URSS e EUA -, esses protestos \u00edntimos, em forma de d\u00favidas, rondam as fam\u00edlias de astronautas. H\u00e1 algo da desmistifica\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Os Eleitos, de Philip Kaufman, nessa (anti)epopeia.<\/p>\n<p>Como filme, \u00e9 muito bem feito e interpretado. Filme de Oscar? Muito provavelmente, ou talvez, j\u00e1 que a bilheteria &#8211; insuficiente &#8211; vem derrubando O Primeiro Homem nos cinemas dos EUA. Em Apollo 13, Ron Howard transformou um fracasso em supera\u00e7\u00e3o e vit\u00f3ria. Aqui, superados todos os riscos, Neil, em plena Lua, realiza, olha o spoiler, seu luto de pai. Chazelle &#8211; e o cinema &#8211; n\u00e3o perdeu a capacidade de nos surpreender, e maravilhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia a expectativa de Damien Chazelle e Barry Jenkins se enfrentassem de novo no pr\u00f3ximo Oscar. No ano passado, dividiram os pr\u00eamios de melhor filme (Jenkins, por Moonlight &#8211; Sob a Luz do Luar) e dire\u00e7\u00e3o (Chazelle, por La La Land &#8211; Cantando Esta\u00e7\u00f5es). 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