{"id":193952,"date":"2018-10-26T08:29:13","date_gmt":"2018-10-26T10:29:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=193952"},"modified":"2018-10-26T08:29:13","modified_gmt":"2018-10-26T10:29:13","slug":"uma-opera-rock-com-suas-doze-flores-amarelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/uma-opera-rock-com-suas-doze-flores-amarelas\/","title":{"rendered":"Uma \u00f3pera rock com suas doze flores amarelas"},"content":{"rendered":"<p>Branco Mello mant\u00e9m um sorriso quase que permanente no rosto durante esta entrevista. Pudera. O momento \u00e9 de supera\u00e7\u00e3o &#8211; e de seguir em frente. O tratamento contra um c\u00e2ncer na hipofaringe ao qual ele se submeteu nos \u00faltimos meses foi bem-sucedido. Tem ainda o DVD do novo trabalho dos Tit\u00e3s, Doze Flores Amarelas &#8211; A \u00d3pera Rock, gravado ao vivo no Teatro Opus, em S\u00e3o Paulo, em maio, que acaba de ser lan\u00e7ado.<\/p>\n<p>E o show dos Tit\u00e3s no Festival NovaBrasil 2018, no s\u00e1bado, 27, no Allianz Parque, em S\u00e3o Paulo (do qual tamb\u00e9m participam outras atra\u00e7\u00f5es, como Jota Quest, AnaVit\u00f3ria, Raimundo Fagner e Z\u00e9lia Duncan), que marca a volta de Branco aos palcos &#8211; ap\u00f3s o diagn\u00f3stico do c\u00e2ncer em maio, o tratamento em junho e julho, e sua recupera\u00e7\u00e3o em agosto e setembro.<\/p>\n<p>Branco conta como come\u00e7ou a identificar que alguma coisa n\u00e3o estava bem. &#8220;A gente estava ensaiando, fazendo show, eu sentia que tinha alguma coisa meio estranha, n\u00e3o na voz, mas sentia uma sensibilidade, um neg\u00f3cio que eu n\u00e3o entendia o que era, para engolir, fiz um monte de exames, mas n\u00e3o aparecia nada&#8221;, lembra-se o m\u00fasico, ao lado de seus amigos e parceiros de longa data de Tit\u00e3s, S\u00e9rgio Britto e Tony Bellotto, na sede da gravadora Universal, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, ent\u00e3o, quando a gente j\u00e1 tinha gravado tudo, CD, DVD, apareceu, num dos exames, um neg\u00f3cio pequenininho na hipofaringe Como (o DVD) ainda ia ser editado, tinha um tempo para eu me recolher, a gente fez um planejamento e eu fui me tratar. Fiz um tratamento pesado, dif\u00edcil, de radioterapia associado a sess\u00f5es de quimioterapia. Fiquei dedicado a isso, fazendo tratamento e com a confian\u00e7a de que depois eu ia ter que me recuperar do tratamento, que \u00e9 uma porrada, e, depois que eu me recuperasse, eu voltaria a trabalhar. Foi o que aconteceu. Agora estou voltando, a voz est\u00e1 voltando, estou fazendo muita fisioterapia, fono, tudo o que precisa&#8221;, continua ele.<\/p>\n<p>E como fica a vida ap\u00f3s o impacto de receber esse diagn\u00f3stico? &#8220;A import\u00e2ncia das coisas \u00e9 redimensionada. A vida leva a gente a se preocupar com coisas que n\u00e3o t\u00eam a menor import\u00e2ncia. Quando voc\u00ea encara uma situa\u00e7\u00e3o de morte, ou de dor, ou de d\u00favida de futuro, de finitude, isso muda muito sua maneira de se relacionar com as pessoas, com o mundo, com a vida e tudo mais. E, claro, tem um lado que a vida segue, que \u00e9 muito bom, estou voltando para isso, estou voltando para minha vida, com essa experi\u00eancia toda, e s\u00e3 e salvo&#8221;, responde Branco Mello.<\/p>\n<p>Agora, ele, S\u00e9rgio e Bellotto &#8211; o trio remanescente da forma\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica dos Tit\u00e3s &#8211; est\u00e3o focados na divulga\u00e7\u00e3o do novo DVD, Doze Flores Amarelas &#8211; A \u00d3pera Rock, um projeto in\u00e9dito n\u00e3o apenas na hist\u00f3ria da banda quanto do rock brasileiro. Tendo no radar refer\u00eancias importantes do g\u00eanero, como Tommy (do The Who) e The Wall (do Pink Floyd), os Tit\u00e3s decidiram criar sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria relatada ao longo de 25 can\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas e em tr\u00eas atos.<\/p>\n<p>&#8220;H\u00e1 uns 3 anos, essa ideia come\u00e7ou a fazer sentido, contar uma hist\u00f3ria com can\u00e7\u00f5es, porque basicamente esse \u00e9 o sentido de fazer uma \u00f3pera rock ou um musical. Ent\u00e3o, a gente at\u00e9 procurou inspira\u00e7\u00e3o em todos esses formatos, esses musicais brasileiros, aqueles da Broadway, e as \u00f3peras rock s\u00e3o, \u00f3bvio, as maiores refer\u00eancias&#8221;, diz S\u00e9rgio. &#8220;N\u00e3o teve uma \u00fanica fonte de inspira\u00e7\u00e3o, e a gente achou que contar uma hist\u00f3ria com can\u00e7\u00f5es ia abrir muito o nosso leque como compositores. A gente ia poder falar de assuntos diferentes, poder falar atrav\u00e9s de personagens, que \u00e9 uma coisa que a gente nunca fez ou raramente fez. Musicalmente tamb\u00e9m pudemos experimentar coisas com orquestra, com piano, m\u00fasicas mais pesadas, mais clim\u00e1ticas, como se fosse trilha sonora de um filme.&#8221;<\/p>\n<p>Ao que Branco emenda: &#8220;E a gente tinha essas refer\u00eancias e a vontade de fazer uma coisa que n\u00e3o fosse simplesmente mais um \u00e1lbum ou lan\u00e7ar um EP, um single, como se est\u00e1 fazendo mais hoje em dia, que \u00e9 legal tamb\u00e9m. Mas, depois do Nheengatu (2014), que \u00e9 um disco conceitual, j\u00e1 falava de viol\u00eancia contra mulher, racismo, drogas, pedofilia, achamos que, neste trabalho, a gente podia se aprofundar e fazer uma coisa mais radical, que fosse um desafio maior, pensando nessas refer\u00eancias&#8221;, explica ele.<\/p>\n<p>&#8220;Mas a gente n\u00e3o esperava que isso tivesse um desdobramento t\u00e3o grande, intenso que teve a ponto de a gente come\u00e7ar do zero quase 3 anos atr\u00e1s, de chamar o Hugo Possolo e o Marcelo Rubens Paiva para a gente fazer o argumento juntos. Simultaneamente, a gente estava fazendo as m\u00fasicas, mas sempre achando que far\u00edamos uma \u00f3pera rock mais cl\u00e1ssica. Acabou que fizemos uma coisa diferente de todos eles: a gente est\u00e1 em cena, entraram tr\u00eas atrizes\/cantoras, isso n\u00e3o foi planejado, foi acontecendo durante o processo.&#8221;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m &#8216;em cena&#8217; est\u00e3o o baterista Mario Fabre e o guitarrista Beto Lee. A narra\u00e7\u00e3o \u00e9 de Rita Lee &#8211; ali\u00e1s, m\u00e3e de Beto. Jaques Morelenbaum assina os arranjos de cordas. As tr\u00eas atrizes\/cantoras mencionadas por Branco s\u00e3o Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck. Elas vivem as tr\u00eas Marias dessa epopeia criada por Branco, Bellotto, S\u00e9rgio, Hugo e Marcelo. As garotas v\u00e3o a uma festa da faculdade, s\u00e3o estupradas por cinco rapazes e isso vai mudar a trajet\u00f3ria delas para sempre.<\/p>\n<p>A \u00f3pera fala de jovens. &#8220;A gente come\u00e7ou a fazer uma reflex\u00e3o da realidade. Ent\u00e3o, esses assuntos foram chegando: a tecnologia, os aplicativos que s\u00e3o or\u00e1culos, a rela\u00e7\u00e3o com drogas, um certo hedonismo da juventude, essa quest\u00e3o das mulheres, esses assuntos a gente ficava conversando e foi se formatando a hist\u00f3ria em cima desses temas&#8221;, diz Tony Bellotto.<\/p>\n<p>A m\u00fasica Disney Drugs, de S\u00e9rgio Britto, brinca com a imagem desse antagonismo entre o universo m\u00e1gico dos personagens da Disney e o cen\u00e1rio pesado das drogas, apontando essa transi\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia para a adolesc\u00eancia. Me Estuprem e N\u00e3o Sei, ambas de autoria de S\u00e9rgio e Bellotto, s\u00e3o fortes: a primeira mostra como muitas vezes a v\u00edtima de estupro \u00e9 julgada pela sociedade; a segunda carrega o discurso do abusador. Hoje se fala muito do lugar de fala. Assim, o que os levou a esse universo ligado \u00e0s mulheres?<\/p>\n<p>&#8220;Ao mesmo tempo que toda essa quest\u00e3o \u00e9 muito forte, positiva, a quest\u00e3o feminina, quando a gente come\u00e7a a criar, como autores, a gente se d\u00e1 o direito de criar o que a gente quiser, como todos autores se deram ao longo da hist\u00f3ria. A gente ficou preocupado com essa cobran\u00e7a, \u00e9 claro, mas a gente tomou cuidado, refletia, conversava&#8221;, diz Bellotto. &#8220;Com a entrada, principalmente, das nossas cantoras, elas trouxeram tamb\u00e9m as experi\u00eancias delas e a vis\u00e3o delas da hist\u00f3ria, do que a gente estava querendo contar. Teve uma intera\u00e7\u00e3o muito grande tamb\u00e9m com a nossa equipe, que tem muitas mulheres, e como essa hist\u00f3ria batia para cada uma, isso tudo para a gente foi importante&#8221;, completa Branco.<\/p>\n<p>Antes do lan\u00e7amento do DVD, os Tit\u00e3s j\u00e1 haviam feito algumas apresenta\u00e7\u00f5es de sua \u00f3pera rock, mas a turn\u00ea oficial ter\u00e1 in\u00edcio a partir de mar\u00e7o do ano que vem. No festival de s\u00e1bado, a banda vai tocar seus sucessos, mas vai incluir algo do repert\u00f3rio de Doze Flores Amarelas. &#8220;N\u00e3o vai ser a \u00f3pera rock, mas a gente vai tocar algumas m\u00fasicas dela, inclusive com as cantoras&#8221;, antecipa Bellotto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Branco Mello mant\u00e9m um sorriso quase que permanente no rosto durante esta entrevista. Pudera. O momento \u00e9 de supera\u00e7\u00e3o &#8211; e de seguir em frente. 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