{"id":194169,"date":"2018-10-29T09:03:54","date_gmt":"2018-10-29T11:03:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=194169"},"modified":"2018-10-29T09:03:54","modified_gmt":"2018-10-29T11:03:54","slug":"um-gole-aqui-outro-ali-a-ressaca-e-comeca-tudo-de-novo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-gole-aqui-outro-ali-a-ressaca-e-comeca-tudo-de-novo\/","title":{"rendered":"Um gole aqui, outro ali, a ressaca&#8230; E come\u00e7a tudo de novo"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea bebe umas doses a mais. Fica tonto, se sente mal, fala besteira, manda uma mensagem impr\u00f3pria para o seu ex. No dia seguinte, ainda acorda de ressaca. Mesmo assim, alguns dias depois, l\u00e1 est\u00e1 voc\u00ea novamente, abrindo mais uma garrafa. Por que as experi\u00eancias ruins n\u00e3o s\u00e3o suficientes para nos afastar do \u00e1lcool? Esta foi a pergunta feita por pesquisadores da Universidade de Brown, nos EUA.<\/p>\n<p>Em novo estudo, os cientistas revelam que o \u00e1lcool, na verdade, sequestra os mecanismos de forma\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias e muda a express\u00e3o das prote\u00ednas nos neur\u00f4nios, criando aquela incontrol\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de &#8220;quero beber mais&#8221; a despeito de eventuais mem\u00f3rias ruins associadas \u00e0 bebida. Apenas uns poucos drinques em uma noite s\u00e3o suficientes para alterar a forma\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias em n\u00edvel molecular. As descobertas foram publicadas na &#8220;Neuron&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos maiores desafios na luta contra o alcoolismo \u00e9 o alto risco de reca\u00eddas &#8212; mesmo depois de progressos significativos. Para tentar entender os mecanismos por tr\u00e1s do problema, cientistas da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, decidiram estudar o c\u00e9rebro das moscas-de-fruta, cujos sinais de forma\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias de repulsa e recompensa s\u00e3o muito parecidos aos dos humanos.<\/p>\n<p>Explicando de forma muito simplificada: o c\u00e9rebro tem mecanismos para nos &#8220;premiar&#8221; por determinadas a\u00e7\u00f5es &#8211; nos fazendo sentir bem &#8211; e nos punir por atos n\u00e3o t\u00e3o bons &#8211; nos fazendo sentir mal em rela\u00e7\u00e3o a eles. S\u00e3o mecanismos talhados pela evolu\u00e7\u00e3o para nos proteger. No entanto, com as drogas em geral, a coisa n\u00e3o funciona bem assim.<\/p>\n<p>&#8220;Uma das coisas que eu queria entender \u00e9 por que drogas produzem mem\u00f3rias positivas, de recompensa, quando, na verdade s\u00e3o neurot\u00f3xicas&#8221;, explicou a principal autora do estudo, Karla Kaun &#8220;Todas as drogas de abuso &#8211; \u00e1lcool, coca\u00edna, metanfetamina &#8211; t\u00eam efeitos colaterais adversos. Elas fazem com que as pessoas sintam n\u00e1useas, tenham ressacas. Ent\u00e3o, por que as achamos t\u00e3o boas? Por que lembramos das sensa\u00e7\u00f5es boas (que elas provocam) e n\u00e3o das ruins? Meu grupo est\u00e1 tentando entender, em n\u00edvel molecular, o que as drogas provocam nas mem\u00f3rias e por que elas causam esse desejo incontrol\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n<p>Uma vez que os pesquisadores consigam entender as mudan\u00e7as moleculares ocorridas no momento em que esse desejo se forma eles esperam poder ajudar na recupera\u00e7\u00e3o de alco\u00f3latras e viciados em outras drogas reduzindo a dura\u00e7\u00e3o ou a intensidade dessas mem\u00f3rias positivas.<\/p>\n<p>As moscas-de-frutas t\u00eam apenas cem mil neur\u00f4nios, contra cerca de cem bilh\u00f5es dos seres humanos. A escala menor &#8211; e o fato de gera\u00e7\u00f5es de cientistas terem desenvolvido ferramentas gen\u00e9ticas para manipular a atividade desses neur\u00f4nios &#8211; transformaram os insetos no modelo perfeito de organismo para que o grupo de Kaun pesquisasse os mecanismos envolvidos na forma\u00e7\u00e3o de boas mem\u00f3rias em rela\u00e7\u00e3o ao \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ando m\u00e3o de ferramentas gen\u00e9ticas, os pesquisadores &#8220;desligaram&#8221; seletivamente alguns genes das moscas, ao mesmo tempo em que ensinaram os insetos onde conseguir \u00e1lcool com facilidade. Isso permitiu aos cientistas observar as prote\u00ednas envolvidas no mecanismo de recompensa.<\/p>\n<p>Uma das prote\u00ednas respons\u00e1veis pelo gosto dos insetos pelo \u00e1lcool \u00e9 conhecida como Notch. Essa prote\u00edna \u00e9 a primeira pe\u00e7a do domin\u00f3 numa cadeia molecular que envolve o desenvolvimento do embri\u00e3o, o desenvolvimento do c\u00e9rebro e as fun\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro adulto de humanos e outros animais. Tais cadeias moleculares s\u00e3o similares ao que chamamos de &#8220;efeito domin\u00f3&#8221; &#8211; quando a primeira pe\u00e7a cai (neste caso, quando a mol\u00e9cula biol\u00f3gica \u00e9 ativada) e deflagra a queda de v\u00e1rias outras pe\u00e7as na sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma das pe\u00e7as de domino nessa cadeia molecular afetada pelo \u00e1lcool \u00e9 um gene receptor de dopamina &#8211; ou seja que faz com que uma prote\u00edna nos neur\u00f4nios reconhe\u00e7a o neurotransmissor respons\u00e1vel pela sensa\u00e7\u00e3o de bem estar. O gene receptor \u00e9 respons\u00e1vel por classificar uma mem\u00f3ria como agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel. E \u00e9 ai que o \u00e1lcool atua.<\/p>\n<p>Segundo explica a pesquisadora, o \u00e1lcool n\u00e3o &#8220;liga&#8221; nem &#8220;desliga&#8221; o gene receptor, nem aumenta ou diminui a quantidade de prote\u00edna produzida. Trata-se de algo mais sutil: o \u00e1lcool altera levemente a vers\u00e3o da prote\u00edna produzida.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sabemos quais s\u00e3o as consequ\u00eancias biol\u00f3gicas dessa pequena altera\u00e7\u00e3o, mas uma das descobertas importantes do estudo \u00e9 que os cientistas precisam estudar n\u00e3o apenas que genes est\u00e3o sendo &#8216;ligados&#8217; ou &#8216;desligados&#8217;, mas de que formas cada gene est\u00e1 sendo &#8216;ligado&#8217; ou &#8216;desligado'&#8221;, afirmou Kaun, no material de divulga\u00e7\u00e3o do estudo.<\/p>\n<p>&#8220;Se esse mecanismo funcionar da mesma forma em seres humanos, uma ta\u00e7a de vinho \u00e9 o suficiente para ativar o mecanismo, mas ele retorna ao normal dentro de uma hora&#8221;, explicou a pesquisadora. &#8220;Depois de tr\u00eas ta\u00e7as, no entanto, com um intervalo de uma hora entre cada uma, o mecanismo ativado s\u00f3 retorna ao normal depois de 24h. N\u00f3s achamos que essa persist\u00eancia \u00e9 o que provavelmente provoca as mudan\u00e7as nas express\u00f5es do gene no circuito da mem\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<p>Algo para pensar na pr\u00f3xima vez que pedir mais um chope.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea bebe umas doses a mais. Fica tonto, se sente mal, fala besteira, manda uma mensagem impr\u00f3pria para o seu ex. No dia seguinte, ainda acorda de ressaca. Mesmo assim, alguns dias depois, l\u00e1 est\u00e1 voc\u00ea novamente, abrindo mais uma garrafa. Por que as experi\u00eancias ruins n\u00e3o s\u00e3o suficientes para nos afastar do \u00e1lcool? 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