{"id":194502,"date":"2018-11-03T06:12:57","date_gmt":"2018-11-03T08:12:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=194502"},"modified":"2018-11-03T06:13:16","modified_gmt":"2018-11-03T08:13:16","slug":"ney-matogrosso-o-interprete-solta-os-bichos-em-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ney-matogrosso-o-interprete-solta-os-bichos-em-livro\/","title":{"rendered":"Ney Matogrosso, o int\u00e9rprete, solta os bichos em livro"},"content":{"rendered":"<p>Ney Matogrosso tem uma mem\u00f3ria privilegiada. Pode descrever as mais long\u00ednquas lembran\u00e7as de sua vida &#8211; com direito a imagens, cores e aromas. A primeira delas o conduz \u00e0 inf\u00e2ncia, quando tinha apenas 3 anos, montado em cima de jabutis, quando morava com a fam\u00edlia em Salvador. &#8220;\u00c9 minha primeira mem\u00f3ria&#8221;, conta Ney, aos 77 anos, nesta entrevista. Nos \u00faltimos tempos, ali\u00e1s, suas lembran\u00e7as t\u00eam sido revisitadas com mais frequ\u00eancia do que ele planejava.<\/p>\n<p>Descrito pelo pr\u00f3prio Ney como um &#8220;livro de mem\u00f3rias&#8221;, Vira-Lata de Ra\u00e7a, de sua autoria, e pesquisa e organiza\u00e7\u00e3o de Ramon Nunes Mello, est\u00e1 sendo lan\u00e7ado pela editora Tordesilhas. E est\u00e1 prevista para breve a biografia do cantor escrita pelo jornalista Julio Maria.<\/p>\n<p>&#8220;Em princ\u00edpio, n\u00e3o me agradava (a ideia das biografias), mas hoje em dia voc\u00ea n\u00e3o pode impedir&#8221;, diz Ney. Muito disso se deve, segundo ele, \u00e0 experi\u00eancia que teve durante a realiza\u00e7\u00e3o de sua biografia anterior, Um Cara Meio Estranho, de Denise Pires Vaz, lan\u00e7ada em 1992. &#8220;Fiz quando eu tinha 50 anos. Aquilo foi uma perturba\u00e7\u00e3o na minha vida, porque foram quatro anos, eu n\u00e3o tinha mais paci\u00eancia. A gente brigou. Eu achava que tudo exigiria essa mesma coisa e n\u00e3o tinha vontade de fazer, mas tudo bem, um j\u00e1 est\u00e1 saindo e o outro, bem adiantado.&#8221;<\/p>\n<p>Na realidade, o livro Vira-Lata de Ra\u00e7a n\u00e3o segue o formato tradicional de uma autobiografia, apesar de ser escrito em primeira pessoa, tampouco de uma biografia n\u00e3o autorizada. O poeta, escritor e jornalista Ramon Nunes Mello pesquisou entrevistas concedidas por Ney ao longo dos anos \u00e0 imprensa e, a partir dessas informa\u00e7\u00f5es, conduziu tr\u00eas grandes entrevistas com o cantor, para preencher lacunas e atualizar pensamentos. Al\u00e9m dos texto, a obra re\u00fane 70 fotos e discografia completa.<\/p>\n<p>E \u00e9 doloroso, muitas vezes, acessar essas lembran\u00e7as? &#8220;Na verdade, todas as dores passaram. N\u00e3o sou uma pessoa sofredora. Estou em outra fase da minha vida, portanto, mesmo sobre o relacionamento conturbado com meu pai, falo com clareza, porque ultrapassamos isso. Teve um momento em que ficamos amigos \u00edntimos, conversamos sobre a maneira que ele educou os filhos homens e a diferen\u00e7a com que ele educou as filhas mulheres. Pra n\u00f3s, homens, era a p\u00e3o e \u00e1gua, era muito duro, e ele disse que tinha se arrependido&#8221;, responde Ney.<\/p>\n<p>Seu pai, o militar Antonio Matogrosso Pereira, \u00e9 um personagem importante na hist\u00f3ria de Ney. O cantor o descreve, no livro, como &#8220;conservador, cabe\u00e7a-dura, e que tinha pavor a qualquer possibilidade de manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica que eu pudesse desenvolver&#8221;. O oposto da postura de Ney, sempre transgressora, libert\u00e1ria. A dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o entre os dois perdurou durante a inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia do artista. O cantor faz uma constata\u00e7\u00e3o forte dessa fase: &#8220;Eu odiava meu pai, meu pai me odiava&#8221;.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, com Ney j\u00e1 dono do pr\u00f3prio nariz, veio a conex\u00e3o entre pai e filho. &#8220;Eu tinha sa\u00eddo de casa com 17 anos, virei artista com 31. Isso nem era uma quest\u00e3o na minha cabe\u00e7a, o que meu pai vai achar, porque eu j\u00e1 era respons\u00e1vel por mim mesmo. Ent\u00e3o, ser artista j\u00e1 tinha sido digerido por ele. A primeira fase da minha vida com ele foi conturbada, mas depois se resolveu quando ele passou a me respeitar, quando viu que eu vivia mal, mas que eu n\u00e3o aceitava nada dele.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 um momento simb\u00f3lico contado no livro, quando o pai estava prestes a voltar a Mato Grosso e marcou encontro com Ney na frente do pr\u00e9dio do jornal O Estado de S. Paulo, ent\u00e3o no centro de S\u00e3o Paulo. Ali Ney beijou o rosto do pai, algo que nunca um filho homem dele tinha feito. &#8220;Depois desse dia, n\u00f3s nos beijamos at\u00e9 o fim da vida dele. Ent\u00e3o, aquele \u00f3dio que existia entre n\u00f3s, no fundo, era um amor incubado, foi o que conclu\u00ed depois.&#8221;<\/p>\n<p>O livro segue uma esp\u00e9cie de linha do tempo de vida e carreira de Ney, dando conta tamb\u00e9m de algumas curiosidades pouco conhecidas do p\u00fablico. Como a hist\u00f3ria de uma mo\u00e7a com quem ele tinha se relacionado na adolesc\u00eancia que apareceu na casa de sua m\u00e3e com sua suposta filha, um ano depois de ele sair de casa. &#8220;Minha m\u00e3e me disse que, quando ela quis pegar a crian\u00e7a, a mo\u00e7a sumiu. Ela disse que n\u00e3o tinha levado para dar, tinha levado para conhecer. Nunca mais tive not\u00edcias dela&#8221;, diz. &#8220;Nesses anos todos, j\u00e1 fiz tr\u00eas exames de DNA, com tr\u00eas pessoas diferentes, e todas deram negativo.&#8221;<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda a temporada em que ele viveu em Bras\u00edlia, no in\u00edcio dos anos 1960. N\u00e3o foi apenas um per\u00edodo de descobertas, como a primeira vez que fumou maconha e a primeira experi\u00eancia sexual com um homem. L\u00e1 tamb\u00e9m teve o primeiro contato com a morte, quando come\u00e7ou a cuidar de crian\u00e7as em estado terminal, no Hospital de Base. &#8220;Foi um exerc\u00edcio amoroso para mim, que eu fazia com tanto gosto. Eu amava tanto aquelas crian\u00e7as. Eu odiava assinar aquele ponto, mas eu ia com prazer fazer esse trabalho&#8221;, lembra ele.<\/p>\n<p>Apesar de adotar essa linha cronol\u00f3gica, o livro traz cap\u00edtulos que tratam de temas espec\u00edficos, que sempre geram interesse quando o assunto \u00e9 Ney Matogrosso, como sexualidade, drogas, o ic\u00f4nico Secos &amp; Molhados e Cazuza, uma de suas grandes paix\u00f5es. Ali\u00e1s, foram poucos amores em sua vida. &#8220;Tive uns 4, no m\u00e1ximo 5. Tem gente que passa pela vida sem ter um (risos).&#8221;<\/p>\n<p>Ney volta a falar que n\u00e3o se enquadra em r\u00f3tulos. &#8220;J\u00e1 transei com muitas mulheres e com muitos homens, sou livre para me relacionar com quem eu quiser&#8221;, diz ele, num trecho do livro. E que se nega &#8220;a ser estandarte de movimento gay&#8221;, &#8220;pois acredito e defendo direitos diversos, n\u00e3o somente da liberdade sexual&#8221;. Refor\u00e7a ainda que faz pol\u00edtica em cima do palco. E n\u00e3o cobram sua posi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria? &#8220;N\u00e3o, porque n\u00e3o admito que cobrem, n\u00e3o sou obrigado&#8221;, responde ele.<\/p>\n<p>Sobre o cen\u00e1rio do Brasil sob o comando do presidente eleito Jair Bolsonaro, que tem um discurso conservador, Ney diz: &#8220;A expectativa est\u00e1 aparentemente estranha. A gente precisa esperar que as coisas comecem a andar, porque muita coisa \u00e9 falada antes e, depois, pode ser que n\u00e3o aconte\u00e7a. O presidente foi eleito. Ele vai ser presidente do Brasil, n\u00e3o apenas para quem o elegeu&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ney Matogrosso tem uma mem\u00f3ria privilegiada. Pode descrever as mais long\u00ednquas lembran\u00e7as de sua vida &#8211; com direito a imagens, cores e aromas. A primeira delas o conduz \u00e0 inf\u00e2ncia, quando tinha apenas 3 anos, montado em cima de jabutis, quando morava com a fam\u00edlia em Salvador. &#8220;\u00c9 minha primeira mem\u00f3ria&#8221;, conta Ney, aos 77 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":194503,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[70],"tags":[],"class_list":["post-194502","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194502","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=194502"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194502\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":194504,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/194502\/revisions\/194504"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/194503"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=194502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=194502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=194502"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}