{"id":194854,"date":"2018-11-08T07:40:41","date_gmt":"2018-11-08T09:40:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=194854"},"modified":"2018-11-08T07:40:41","modified_gmt":"2018-11-08T09:40:41","slug":"chegaram-as-sapatilhas-marrons-para-alivio-de-muitas-bailarinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chegaram-as-sapatilhas-marrons-para-alivio-de-muitas-bailarinas\/","title":{"rendered":"Chegaram as sapatilhas marrons, para al\u00edvio de muitas bailarinas"},"content":{"rendered":"<p>Por quase toda a sua carreira, Cira Robinson &#8211; como muitas das bailarinas negras &#8211; teve um ritual: pintar suas sapatilhas para que elas combinassem com o tom de sua pele. A primeira vez foi em 2001, quando ela tinha 15 anos, no programa de ver\u00e3o do Dance Theatre do Harlem, em Nova York. A companhia disse que o cal\u00e7ado deveria ser marrom, como sua pele, n\u00e3o rosa, mas ela n\u00e3o conseguia achar nas lojas, ent\u00e3o usou tinta em spray.<\/p>\n<p>&#8220;Elas ficaram com relevo e&#8230; eca&#8221;, conta ela. Quando ela se juntou ao Dance Theatre, anos depois, come\u00e7ou a pintar com maquiagem. &#8220;Eu ia nas lojas mais baratas para comprar base&#8221;, do tipo que &#8220;voc\u00ea nunca colocaria em sua pele porque iria causar alergia. Barata tipo 2 d\u00f3lares.&#8221;<\/p>\n<p>Ela usava cinco tubos por semana, para tingir entre 12 a 15 pares &#8211; um processo conhecido como pancaking pelas bailarianas. Demorava entre 45 minutos e uma hora em cada par, conta, porque queria se assegurar que a base cobrisse cada fenda e cada peda\u00e7o de fita.<\/p>\n<p>Ela achava o processo mon\u00f3tono? &#8220;Eu n\u00e3o tinha outra alternativa&#8221;, explica.<\/p>\n<p>Mas agora, Cira, que \u00e9 artista s\u00eanior no companhia brit\u00e2nica Ballet Black, n\u00e3o \u00e9 mais obrigada a passar por isso. Em outubro, a Freed of London, que fabrica suas sapatilhas, come\u00e7ou a comercializar dois modelos pensados para dan\u00e7arinas n\u00e3o-brancas: uma marrom e outra bronze.<\/p>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 a primeira empresa a incluir esses produtos em seu estoque &#8211; a norte-americana Gaynor Minden o faz h\u00e1 mais de um ano &#8211; mas os novos cal\u00e7ados da Freed, uma marca mundial especializada em produtos de bal\u00e9, colocou em foco o estranho ritual feito por muitas das bailarinas.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m um lembrete que dan\u00e7arinos negros &#8211; especialmente as mulheres &#8211; s\u00e3o uma raridade no bal\u00e9. Elas permanecem pouco representadas no mercado, apesar dos sinais de mudan\u00e7a e o aumento da preocupa\u00e7\u00e3o pela diversidade tanto nas escolas quanto nas companhias.<\/p>\n<p>Os cal\u00e7ados n\u00e3o s\u00e3o o \u00fanico lembrete da falta de representatividade na dan\u00e7a. Em setembro, Precious Adams, dan\u00e7arina do English National Ballet, falou sobre o problema da meia cal\u00e7a rosa. &#8220;No bal\u00e9, as pessoas t\u00eam um forte apego as tradi\u00e7\u00f5es&#8221;, contou para o jornal brit\u00e2nico London\u2019s Evening Standard. &#8220;Elas acham que usar meias marrons sob o tutu \u00e9 de alguma forma errado.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mas eu quero parecer da melhor forma poss\u00edvel no palco. Eu n\u00e3o sou daltonica, e acho que a rosa arruina o meu corpo.&#8221; Ela acrescenta que os dan\u00e7arinos n\u00e3o podem fazer o que quiser e que os diretores decidem o figurino &#8211; e na maior parte das vezes, a uniformidade ganha.<\/p>\n<p>Os dan\u00e7arinos do corpo, particularmente, t\u00eam que se misturar ao grupo. Robinson, do Ballet Black, explica que os negros nem sempre podem usar sapatilhas ou meias do tom da sua pele, o que os colocaria em destaque.<\/p>\n<p>Ela ainda conta que viu uma vez uma solicista do English National Ballet usar meias e cal\u00e7ados marrons, quando todos estavam de rosa &#8211; &#8220;mas ela era uma solista.&#8221; (Funciona diferente no Dance Theatre do Harlem e no Ballet Black, que s\u00e3o predominamentemente feitos por pessoas negras.) &#8220;Queremos mudar um pouco as tradic\u00e7\u00f5es&#8221;, continua Robinson. &#8220;Mas \u00e0s vezes voc\u00ea n\u00e3o pode.&#8221;<\/p>\n<p>Ainda assim, a novidade da Freed foi bem vista. &#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 sobre sapatos, \u00e9 sobre quem pertence ao mundo do bal\u00e9 e quem n\u00e3o&#8221;, explica Virgina Johnson, diretora-art\u00edstica do Dance Theatre. &#8220;\u00c9 um sinal de que o universo est\u00e1 aberto a voc\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p>Ela conta que come\u00e7ou a dan\u00e7ar nos anos 1950 com sapatilhas rosas e s\u00f3 nos anos 1970, Arthur Mitchel, um dos fundadores de sua companhia, a Dance Theatre, decidiu que os dan\u00e7arinos deveriam usar cal\u00e7ados que combinassem com a sua pele. Ela come\u00e7ou a pintar os sapatos com maquiagem.<\/p>\n<p>&#8220;Foi incr\u00edvel sub ir no palco sendo eu mesma, 100% da minha cor&#8221;, recorda. &#8220;uma forma, uma tom que tem integridade.&#8221;<\/p>\n<p>Ela lembra que a Capezio forneceu sapatilhas marrons para o Dance Theatre por um tempo, e depois os dan\u00e7arinos come\u00e7aram a tingir os seus cal\u00e7ados com um produto pensado para saltos de noivas. &#8220;Tinta para sapatos Evangeline&#8221;, conta Virginia. &#8220;N\u00e3o pensei nesse nome em anos&#8221;. Desde 2012 a maior parte dos membros usam tinta acr\u00edlica e o figurinista mistura tonalidades para alcan\u00e7ar o tom exato de cada bailarino.<\/p>\n<p>A brasileira Ingrid Silva \u00e9 uma das que continua a usar maquiagem, inclusive compartilhando em seu canal no Youtube tutoriais para jovens de como o fazer. &#8220;As maiores reclama\u00e7\u00f5es s\u00e3o: \u00e9 um processo longo e caro&#8221;, diz. &#8220;Eu uso o tom ebony brown da Black Opal, e custa 11 d\u00f3lares o frasco, que rende para tr\u00eas p\u00e9s.&#8221;<\/p>\n<p>Ela usa uma m\u00e9dia de dois pares por semana, o que significa que ela gasta 770 d\u00f3lares ao ano em maquiagem para os sapatos, um valor significante se considerar o que ela ganha. (A marca recentemente come\u00e7ou a enviar para ela de gra\u00e7a a base.)<\/p>\n<p>Para Ingrid, a novidade \u00e9 positiva, mas uma variedade maior de tons \u00e9 necess\u00e1ria. Ela explica que n\u00e3o pode usar as sapatilhas da Freed porque n\u00e3o s\u00e3o da sua cor. Esse lembrete se assemelha com o das marcas de beleza, que come\u00e7aram a fabricar mais cores de base para atender a mais consumidores. (No ano passado, a Rihanna lan\u00e7ou a Fenty Beauty com 40 tons de base para suprir a demanda.)<\/p>\n<p>E sapatos s\u00e3o apenas um dos problemas. &#8220;O mundo da dan\u00e7a ainda precisa aprender muito&#8221;, acrescenta. &#8220;Come\u00e7ando pelas companhias contratando mais pessoas n\u00e3o-brancas.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por quase toda a sua carreira, Cira Robinson &#8211; como muitas das bailarinas negras &#8211; teve um ritual: pintar suas sapatilhas para que elas combinassem com o tom de sua pele. A primeira vez foi em 2001, quando ela tinha 15 anos, no programa de ver\u00e3o do Dance Theatre do Harlem, em Nova York. 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