{"id":196016,"date":"2018-11-24T08:51:00","date_gmt":"2018-11-24T10:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=196016"},"modified":"2018-11-24T08:51:38","modified_gmt":"2018-11-24T10:51:38","slug":"o-caviar-nao-esta-chegando-aqui-chico-buarque-ficou-com-minha-parte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-caviar-nao-esta-chegando-aqui-chico-buarque-ficou-com-minha-parte\/","title":{"rendered":"&#8216;O caviar n\u00e3o chega aqui. Chico Buarque ficou com minha parte&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Frasista impag\u00e1vel, o escritor e jornalista americano H. L. Mencken (1880-1956) disparava defini\u00e7\u00f5es para praticamente todos os momentos do cotidiano humano e, em uma delas, parecia ter sido pensada para Luis Fernando Ver\u00edssimo, outro grande investigador do dia a dia: &#8220;O que realmente enriquece um homem n\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia: \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Dono de um dos mais atentos olhares da imprensa brasileira, Ver\u00edssimo, cronista do jornal &#8220;O Estado de S. Paulo&#8221; desde 1989, acostumou-se a relatar aos leitores acontecimentos ocorridos tanto dentro como fora de sua casa, cr\u00f4nicas que, com o tempo, solidificaram sua fama de mestre do humor sint\u00e9tico.<\/p>\n<p>O passar dos dias, ali\u00e1s, \u00e9 tema do livro Ironias do Tempo (Objetiva), sele\u00e7\u00e3o de 77 textos dos publicados por Ver\u00edssimo entre 1998 e 2018, a maioria neste jornal. A organiza\u00e7\u00e3o ficou a cargo de m\u00e3e e filha escritoras, Adriana e Isabel Falc\u00e3o, que relatam o sofrimento que enfrentaram at\u00e9 encontrar o conceito dessa antologia.<\/p>\n<p>&#8220;A op\u00e7\u00e3o &#8216;por sorteio&#8217; foi descartada, por honestidade&#8221;, escrevem elas, no pref\u00e1cio. Mas, bastou uma leitura atenta do material para chegarem \u00e0 conclus\u00e3o que abria o caminho: &#8220;Ali estava a vida, acontecendo, em tempo real, atrav\u00e9s dos olhos do Ver\u00edssimo&#8221;. E continuam: &#8220;Fatos, pensamentos, desastres, esc\u00e2ndalos, sentimentos, a hist\u00f3ria de uma \u00e9poca, no Brasil e no mundo, registrados pelo Ver\u00edssimo, sua gra\u00e7a, poesia, sua l\u00f3gica, sua \u00e9tica&#8221;.<\/p>\n<p>De fato, o cronista tanto relata os altos e baixos de seu time do cora\u00e7\u00e3o (Internacional) com a mesma desenvoltura com que acompanha, entre gracinhas e apreens\u00f5es, os acontecimentos em Bras\u00edlia &#8211; no caso, desde o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso at\u00e9 a presid\u00eancia tamp\u00e3o de Michel Temer. Afinal, Ver\u00edssimo exerce sua verve impag\u00e1vel para comentar situa\u00e7\u00f5es inusitadas que, gra\u00e7as ao bom humor, se tornam plenamente fact\u00edveis.<\/p>\n<p>Sobre o assunto, Ver\u00edssimo respondeu por e-mail as seguintes quest\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Qual a ess\u00eancia do tempo cotidiano nas suas cr\u00f4nicas?<\/strong><\/p>\n<p>Muitas das cr\u00f4nicas do livro s\u00e3o sobre o cotidiano de gente comum em situa\u00e7\u00f5es incomuns. O tempo entra como medida de degenera\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, como na hist\u00f3ria do encontro de dois amigos que n\u00e3o se veem h\u00e1 anos e come\u00e7am a comentar o aspecto um do outro, e a se criticarem mutuamente por n\u00e3o terem se cuidado e envelhecido mal, e acabam brigando, desta vez para sempre.<\/p>\n<p><strong>O ef\u00eamero \u00e9 a identidade de um cronista?<\/strong><\/p>\n<p>Depende do cronista. O grande Rubem Braga fazia cr\u00f4nicas inesquec\u00edveis sobre o ef\u00eamero. No fim, o fato de serem inesquec\u00edveis desmente a efemeridade&#8230;<\/p>\n<p><strong>A cr\u00f4nica tem a capacidade de revelar, por meio da superf\u00edcie, uma dimens\u00e3o mais profunda da vida e das rela\u00e7\u00f5es humanas?<\/strong><\/p>\n<p>Eu gosto de fazer cr\u00f4nicas em que os personagens se revelam pelo que dizem, sem a necessidade de descrev\u00ea-los, ou localiz\u00e1-los. \u00c0s vezes, s\u00f3 com o di\u00e1logo voc\u00ea pode descrever um drama ou uma com\u00e9dia, sem precisar de detalhes.<\/p>\n<p><strong>Escritores do s\u00e9culo 19, tanto Jos\u00e9 de Alencar como Machado de Assis escolheram, como s\u00edmbolo da cr\u00f4nica, o beija-flor. Qual seria o seu eleito?<\/strong><\/p>\n<p>O beija-flor paira no ar e d\u00e1 bicadas nas flores. N\u00e3o se parece com nenhum cronista que eu conhe\u00e7o. Talvez um s\u00edmbolo para os jornalistas brasileiros em geral seja o quero-quero, sempre pedindo emprego ou aumento de sal\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>O historiador italiano Carlo Ginzburg utiliza o pormenor como instrumento para compreens\u00e3o dos homens no tempo. Assim, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o despretensioso, que alimenta o cronista, \u00e9 igualmente um forte sustento para o historiador?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se entendi a pergunta, mas historiadores como (o franc\u00eas) Fernand Braudel usaram o pormenor, os detalhes do cotidiano, para escrever sobre as civiliza\u00e7\u00f5es do Mediterr\u00e2neo, o que ajudou a torn\u00e1-lo famoso. Talvez a contribui\u00e7\u00e3o da cr\u00f4nica para a narrativa hist\u00f3rica seja a valoriza\u00e7\u00e3o da concis\u00e3o e dos pequenos, mas significativos detalhes.<\/p>\n<p><strong>Durante o per\u00edodo da ditadura militar, alguns cronistas que at\u00e9 ent\u00e3o se dedicavam \u00e0 abordagem de amenidades passaram a expressar suas opini\u00f5es de maneira mais expl\u00edcita. Voc\u00ea acredita que isso \u00e9 mais comum em tempos de exce\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o h\u00e1 exce\u00e7\u00e3o nenhuma?<\/strong><\/p>\n<p>Entendo que foi o contr\u00e1rio, a ditadura reprimiu quem queria ser mais explicitamente contra o regime. Houve exce\u00e7\u00f5es, como o escritor Carlos Heitor Cony, mas a maioria teve de recorrer \u00e0s entrelinhas para dizer o que queria. N\u00e3o vamos esquecer que havia censura da imprensa. Que pode voltar com esse novo governo<\/p>\n<p><strong>Ainda sobre esse assunto: o risco de dividir o humor de seu eleitorado ao se manifestar mais diretamente \u00e9 um fator preocupante quando voc\u00ea vai come\u00e7ar uma nova cr\u00f4nica?<\/strong><\/p>\n<p>Eu escrevo o que penso, sem me preocupar muito com a rea\u00e7\u00e3o. Quem n\u00e3o gosta do que eu penso e escrevo tem a op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o me ler, para n\u00e3o se incomodar. Tem os que mandam cartas agressivas. No tempo do Collor, amea\u00e7avam minha fam\u00edlia se eu n\u00e3o parasse de critic\u00e1-lo. Mas a rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o incomoda. As cartas me chamam de comunista, me mandam ir viver em Cuba ou na Venezuela. Uma me mandou ir para a Coreia do Norte! Mas n\u00e3o passa disso. S\u00f3 quando me chamam de esquerda caviar eu reclamo. O caviar n\u00e3o tem chegado \u00e0 minha mesa, acho que o Chico Buarque est\u00e1 ficando com a minha parte.<\/p>\n<p><strong>Servi\u00e7o<\/strong><br \/>\nIronias do Tempo<br \/>\nAutor: Luis Fernando Verissimo<br \/>\nOrganiza\u00e7\u00e3o: Adriana Falc\u00e3o e Isabel Falc\u00e3o<br \/>\nEditora: Objetiva<br \/>\n(208 p\u00e1gs., R$ 49,90)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frasista impag\u00e1vel, o escritor e jornalista americano H. L. Mencken (1880-1956) disparava defini\u00e7\u00f5es para praticamente todos os momentos do cotidiano humano e, em uma delas, parecia ter sido pensada para Luis Fernando Ver\u00edssimo, outro grande investigador do dia a dia: &#8220;O que realmente enriquece um homem n\u00e3o \u00e9 a experi\u00eancia: \u00e9 a observa\u00e7\u00e3o&#8221;. 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