{"id":196193,"date":"2018-11-26T12:40:05","date_gmt":"2018-11-26T14:40:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=196193"},"modified":"2018-11-26T12:40:39","modified_gmt":"2018-11-26T14:40:39","slug":"morre-bertolucci-que-se-esbaldou-de-fazer-cinema-de-primeira-linha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/morre-bertolucci-que-se-esbaldou-de-fazer-cinema-de-primeira-linha\/","title":{"rendered":"Morre Bertolucci, que se esbaldou em fazer cinema de primeira linha"},"content":{"rendered":"<p>Um gigante do cinema nos deixou nesta segunda, 26. Aos 77 anos, foi-se Bernardo Bertolucci, autor de filmes pol\u00eamicos como O \u00daltimo Tango em Paris, pol\u00edticos como 1900, grandiosos como O \u00daltimo Imperador, minimalistas como Eu e Voc\u00ea, seu \u00faltimo longa.<\/p>\n<p>Filho do intelectual e poeta At\u00edlio Bertolucci, Bernardo deu in\u00edcio \u00e0 sua carreira com La Comare Secca (A Morte) em 1962, numa \u00e9poca \u00e1urea do cinema italiano, quando o neorrealismo j\u00e1 havia acabado, mas os grandes, como Fellini, Antonioni, De Sica, Pasolini e o pr\u00f3prio Rossellini estavam n\u00e3o apenas na ativa, mas no auge de suas carreiras.<\/p>\n<p>Um ambiente de tal forma competitivo em termos da excel\u00eancia art\u00edstica mostra-se extremamente estimulante para um novato. E, desse modo, o jovem Bertolucci j\u00e1 brilha com seu segundo longa, Antes da Revolu\u00e7\u00e3o (1962), uma adapta\u00e7\u00e3o livre da Cartuxa de Parma, de Stendhal, reflex\u00e3o sobre o sentido das revolu\u00e7\u00f5es. Tema que ele reencontraria mais tarde no \u00e9pico Novecento, 1900 (1976) um painel extenso e emocionante sobre o \u00edmpeto incontorn\u00e1vel de mudar o mundo.<\/p>\n<p>1900 faz parte do, digamos assim, &#8220;n\u00facleo duro pol\u00edtico&#8221; da obra de Bertolucci, eixo que nunca deixou de conviver com outra de suas preocupa\u00e7\u00f5es &#8211; a quest\u00e3o da subjetividade humana, em leitura psicanal\u00edtica (seu extremo, nessa tend\u00eancia, seria La Luna (1979) sobre a rela\u00e7\u00e3o entre filho e m\u00e3e em chave edipiana expl\u00edcita).<\/p>\n<p>Por isso, uma de suas maiores obras, O Conformista (1970), tirado do romance de Alberto Moravia, analisa a quest\u00e3o do fascismo na It\u00e1lia em suas determina\u00e7\u00f5es sociais, mas tamb\u00e9m nas ra\u00edzes psicol\u00f3gicas do personagem principal, vivido por um Jean-Louis Trintignant em estado de gra\u00e7a. Ele \u00e9 o &#8220;conformista&#8221; do t\u00edtulo, pois deseja confundir-se com a multid\u00e3o; mas \u00e9 tamb\u00e9m o reprimido sexual, que transforma seu impulso prim\u00e1rio recalcado em ressentimento e viol\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O filme disse muito sobre a realidade italiana da \u00e9poca e talvez ainda tenha umas duas ou tr\u00eas palavras a dizer sobre a atualidade brasileira. Filme a ser revisto em nossos dias.<\/p>\n<p>Bertolucci gostava de apoiar-se em grandes autores. Stendhal em Antes da Revolu\u00e7\u00e3o, Moravia em O Conformista e Jorge Luis Borges em A Estrat\u00e9gia da Aranha. Neste \u00faltimo, que \u00e9 outro de seus grandes filmes pol\u00edticos, Bertolucci inspira-se no breve relato de Borges Tema do Traidor e do Her\u00f3i, para falar da ascens\u00e3o de Mussolini e dos crimes pol\u00edticos na It\u00e1lia fascista &#8211; uma de suas obsess\u00f5es.<\/p>\n<p>Bertolucci j\u00e1 era amplamente conhecido por esses filmes, mas seu nome tornou-se universal com um sucesso de esc\u00e2ndalo como O \u00daltimo Tango em Paris (1973). Um desesperado vi\u00favo de meia idade (Marlon Brando) inicia caso terminal com uma jovem (Maria Schneider) numa Paris crepuscular. O sexo \u00e9 menos exerc\u00edcio de prazer ou afeto e mais tentativa frustrada de remediar o vazio existencial.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 de uma beleza convulsiva, como recomendava Baudelaire, e marcou \u00e9poca. Resistiu ao tempo e \u00e0s tentativas tolas de vincul\u00e1-lo a duvidosos bastidores de filmagem. A cr\u00edtica Pauline Kael comparou a import\u00e2ncia do Tango, para o cinema, \u00e0 da estreia da Sagra\u00e7\u00e3o da Primavera, de Stravinsky, para a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Bertolucci, que sabia trabalhar t\u00e3o bem na conten\u00e7\u00e3o como no \u00e9pico, n\u00e3o deixou de ser mordido pela mosca azul do \u00eaxito universal que, no cinema, atende pelo nome de Hollywood. Seu grande \u00eaxito nesse terreno foi com grandiloquente O \u00daltimo Imperador (1987), ganhador de nove Oscars, entre os quais os de melhor filme e diretor. Bertolucci \u00e9 o \u00fanico diretor italiano a possuir essa estatueta.<\/p>\n<p>Sua outra incurs\u00e3o oriental, em O Pequeno Buda (1993), n\u00e3o teve o mesmo sucesso &#8211; e nem foi apreciado pela cr\u00edtica. \u00c9 um trabalho bastante artificial e inconvincente, um dos raros pontos baixos numa carreira em que cumes e cordilheiras s\u00e3o comuns.<\/p>\n<p>J\u00e1 em outro de seus filmes &#8220;americanos&#8221;, O C\u00e9u que nos Protege (1990), adaptado de Paul Bowles, foi bastante feliz, retomando o tema do estranhamento entre culturas, que tamb\u00e9m nunca deixou de fascin\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A fase final de carreira inclui uma bela pe\u00e7a de c\u00e2mera de retorno \u00e0 It\u00e1lia, como Beleza Roubada (1996), uma antevis\u00e3o do que seria um tema comum nos anos 2000 com O Ass\u00e9dio (1998), uma revivesc\u00eancia dos anos rebeldes do maio franc\u00eas de 1968 com Os Sonhadores (2003), e a quest\u00e3o familiar em tom minimalista com Eu e Voc\u00ea (2012), seu \u00faltimo trabalho. Pinceladas finais de um mestre, cuja obra h\u00e1 de permanecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um gigante do cinema nos deixou nesta segunda, 26. Aos 77 anos, foi-se Bernardo Bertolucci, autor de filmes pol\u00eamicos como O \u00daltimo Tango em Paris, pol\u00edticos como 1900, grandiosos como O \u00daltimo Imperador, minimalistas como Eu e Voc\u00ea, seu \u00faltimo longa. 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