{"id":197257,"date":"2018-12-14T10:53:04","date_gmt":"2018-12-14T12:53:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=197257"},"modified":"2018-12-14T13:28:20","modified_gmt":"2018-12-14T15:28:20","slug":"marielle-franco-morreu-por-briga-com-grileiros-de-terras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/marielle-franco-morreu-por-briga-com-grileiros-de-terras\/","title":{"rendered":"&#8216;Marielle Franco morreu por briga com grileiros de terras&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>A vereadora Marielle Franco (PSL) foi morta porque milicianos acreditaram que ela poderia atrapalhar os neg\u00f3cios ligados \u00e0 grilagem de terras na zona oeste do Rio de Janeiro. O crime estava sendo planejado desde 2017.<\/p>\n<p>As revela\u00e7\u00f5es foram feitas pelo general Richard Nunes, secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio. em entrevista ao jornal <em>O Estada de S.Paulo<\/em>.<\/p>\n<p>Nunes, que assumiu a pasta em 27 de fevereiro, relatou problemas que encontrou e disse que v\u00e1rios generais que assumir\u00e3o cargos na \u00e1rea em 2019 procuraram o comando da interven\u00e7\u00e3o para levar o modelo de gest\u00e3o a outros Estados.<\/p>\n<p>Veja trechos da entrevista:<\/p>\n<p><strong>O senhor imaginava o tamanho do problema que encontraria?<\/strong><\/p>\n<p>Imaginava. Primeiro: porque sou do Rio e acompanhei a evolu\u00e7\u00e3o do quadro da Seguran\u00e7a no Estado. Segundo: porque comandei a for\u00e7a de pacifica\u00e7\u00e3o na Mar\u00e9 (ocupa\u00e7\u00e3o militar de complexo de favelas, zona norte do Rio, de abril 2014 a junho de 2015), vendo de perto no n\u00edvel t\u00e1tico, na ponta da linha, o que estava acontecendo no Estado; e, depois, como comandante da Eceme (Escola de Comando e Estado-Maior do Ex\u00e9rcito) era tema de estudo nosso.<\/p>\n<p><strong>De R$ 1,2 bilh\u00e3o enviado pelo governo federal, o gabinete da interven\u00e7\u00e3o empenhou 39,06% ou R$ 468 milh\u00f5es. Qual foi a dificuldade para gastar o dinheiro?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um aspecto fundamental do in\u00edcio da a\u00e7\u00e3o: compreender as restri\u00e7\u00f5es impostas pelo regime de recupera\u00e7\u00e3o fiscal; Isso n\u00e3o estava claro para ningu\u00e9m. O regime de recupera\u00e7\u00e3o fiscal estabelecido em setembro de 2017 nos causou embara\u00e7o de toda ordem. Tanto que a verba federal alocada aqui teve de ser administrada por uma estrutura que n\u00e3o existia, que tivemos de criar. No \u00e2mbito da secretaria, colocamos em funcionamento o Fundo Estadual de Seguran\u00e7a P\u00fablica e Desenvolvimento Social. \u00c9 uma d\u00e1diva. S\u00e3o 5% dos royalties do petr\u00f3leo. Este ano, j\u00e1 superamos R$ 300 milh\u00f5es e no pr\u00f3ximo deve superar R$ 400 milh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Considera que esse foi o principal efeito da interven\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Esse foi o grande diferencial dessa interven\u00e7\u00e3o, o legado que acredito que vai ser apropriado pela Secretaria Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica. O general Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira vir\u00e1 aqui se reunir comigo e com o general (o interventor Walter Souza) Braga Netto; o (futuro) secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a de S\u00e3o Paulo, o general (Jo\u00e3o Camilo Pires de) Campos, o futuro secret\u00e1rio do Paran\u00e1, general (Luiz) Carbonell, estiveram aqui conversando. Est\u00e1 havendo interesse nas experi\u00eancias da interven\u00e7\u00e3o federal que possam ser \u00fateis em outras partes do Pa\u00eds. E o grande diferencial foi exatamente esse. Fizemos a interven\u00e7\u00e3o com prop\u00f3sito muito mais de reestruturar os \u00f3rg\u00e3os do que de tratarmos do dia-a-dia da criminalidade. Seguran\u00e7a P\u00fablica \u00e9 muito absorvida pela tem\u00e1tica da criminalidade, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Nossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o legado da interven\u00e7\u00e3o tenha prosseguimento. O maior risco que corremos aqui \u00e9 a divis\u00e3o da secretaria, como pretendido pelo novo governo (do governador eleito do Rio, Wilson Witzel). \u00c9 como acabar com o Minist\u00e9rio da Defesa. Como acabar com essa estrutura e fazer integra\u00e7\u00e3o? J\u00e1 deixei patente isso em v\u00e1rias reuni\u00f5es. Eu e o general Braga Netto, mas o tempo vai passando, e a gente fica cada vez mais preocupado. N\u00e3o adianta ficar pedindo GLO (opera\u00e7\u00f5es de Garantia da Lei da Ordem com emprego de tropa das For\u00e7as Armadas na seguran\u00e7a p\u00fablica). Esse neg\u00f3cio de GLO virou uma panaceia.<\/p>\n<p><strong>Ali\u00e1s, continua GLO depois do fim da interven\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. GLO morre com a interven\u00e7\u00e3o, no dia 31 de dezembro.<\/p>\n<p><strong>General, o caso Marielle foi uma afronta \u00e0 interven\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foi. O que entendo hoje \u00e9 que os criminosos superestimaram o papel que a vereadora poderia desempenhar. Era um crime que j\u00e1 estava sendo planejado desde o fim de 2017, antes da interven\u00e7\u00e3o Isso a\u00ed temos; est\u00e1 claro na investiga\u00e7\u00e3o. O que aconteceu foi o contr\u00e1rio. Os criminosos se deram conta da dimens\u00e3o que tomou o crime por ter sido na interven\u00e7\u00e3o. N\u00e3o podemos entender como afronta porque assumi em 27 de fevereiro. E dei posse ao comandante da PM em 14 de mar\u00e7o, dia do crime. Est\u00e1vamos iniciando um trabalho. E hoje, com dados de que dispomos de 19 volumes de investiga\u00e7\u00e3o, fica claro que se superestimou o papel que ela desempenhava.<\/p>\n<p><strong>Que papel?<\/strong><\/p>\n<p>Ela estava lidando em determinada \u00e1rea do Rio controladas por milicianos, onde interesses econ\u00f4micos de toda ordem s\u00e3o colocados em jogo. No momento em que determinada lideran\u00e7a pol\u00edtica, membro do Legislativo, come\u00e7a a questionar rela\u00e7\u00f5es que se estabelecem naquela comunidade, afeta os interesses daqueles grupos criminosos. \u00c9 nesse ponto que a gente precisa chegar, provar essa tese, que est\u00e1 muito s\u00f3lida. O que leva ao assassinato da vereadora e do motorista \u00e9 essa percep\u00e7\u00e3o de que ela colocaria em risco naquelas \u00e1reas os interesses desses grupos criminosos.<\/p>\n<p><strong>Como ela colocaria em risco?<\/strong><\/p>\n<p>A mil\u00edcia atua muito em cima da posse de terra e assim faz a explora\u00e7\u00e3o de todos os recursos. E h\u00e1 no Rio, na \u00e1rea oeste, na baixada de Jacarepagu\u00e1, problemas graves de loteamento, de ocupa\u00e7\u00e3o de terras. Essas \u00e1reas s\u00e3o complicadas.<\/p>\n<p><strong>A atua\u00e7\u00e3o dela seria de fazer&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Uma conscientiza\u00e7\u00e3o daquelas pessoas sobre a posse da terra. Isso causou instabilidade e \u00e9 por a\u00ed que n\u00f3s estamos caminhando. Mais do que isso eu n\u00e3o posso dizer.<\/p>\n<p><strong>O senhor ou a interven\u00e7\u00e3o receberam press\u00f5es por esse crime?<\/strong><\/p>\n<p>Zero. O que h\u00e1 \u00e9 muita especula\u00e7\u00e3o. Houve um movimento para tentar federalizar esse investiga\u00e7\u00e3o totalmente desprovido de fundamento. Houve essa sugest\u00e3o sob a suspeita de que a Pol\u00edcia Civil n\u00e3o estaria fazendo um trabalho isento. Isso n\u00e3o tem fundamento. Temos de ter muito cuidado em n\u00e3o dar voz a criminosos que se encontram presos e colocam em xeque o processo de investiga\u00e7\u00e3o (trata-se do miliciano Orlando de Ara\u00fajo, o Orlando de Curicica).<\/p>\n<p><strong>Hoje depois desse tempo todo pode-se dizer que as mil\u00edcias s\u00e3o um perigo maior para o Rio do que as fac\u00e7\u00f5es criminosas?<\/strong><\/p>\n<p>Elas se equivalem. O que h\u00e1 de perigoso nas mil\u00edcia \u00e9 o modo como explora determinadas atividades. \u00c9 mais insidiosa. Por\u00e9m, fac\u00e7\u00f5es t\u00eam adotado pr\u00e1ticas de mil\u00edcia e vice-versa. Como secret\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 como estabelecer grau de risco diferenciado. Quando a mil\u00edcia passa a aceitar o tr\u00e1fico e quando o traficante se dedica a modalidades de crimes semelhantes aos da mil\u00edcia, para mim, isso indica que temos de combater esses movimentos criminosos com a mesma intensidade.<\/p>\n<p><strong>O senhor vai conseguir deixar a secretaria com o an\u00fancio da pris\u00e3o dos envolvidos nesse crime?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho ideia. Nossa luta \u00e9 contra o tempo; \u00e9 coletar muitos dados que precisamos checar, de caracter\u00edstica t\u00e9cnica, em um quadro de defici\u00eancia estrutural que encontramos. Esse cruzamento de dados, para poder fechar em cima dos autores, \u00e9 demorado e complicado; filtros t\u00eam de ser feitos com precis\u00e3o para que n\u00e3o se cometa erro. O erro que n\u00e3o pode cometer n\u00e3o \u00e9 deixar de anunciar at\u00e9 31 de dezembro. \u00c9 anunciar precipitadamente e essas pessoas virem a ser inocentadas por um inqu\u00e9rito mal conclu\u00eddo. N\u00e3o sou um ator pol\u00edtico, at\u00e9 porque continuo no Ex\u00e9rcito, vou seguir minha vida.<\/p>\n<p><strong>Alguns dos suspeitos est\u00e3o mortos?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que sim.<\/p>\n<p><strong>Queima de arquivo?<\/strong><\/p>\n<p>Queima de arquivo ainda \u00e9 dif\u00edcil de caracterizar porque s\u00e3o pessoas que vivem da pr\u00e1tica de crimes e est\u00e3o mais sujeitas a esse tipo de desfecho.<\/p>\n<p><strong>Uma das cr\u00edticas \u00e0 pol\u00edcia do Rio \u00e9 sua letalidade. De 2013 a 2017, o Ex\u00e9rcito e a Marinha em suas opera\u00e7\u00f5es mataram 19 pessoas e um militar morreu. S\u00f3 em agosto a pol\u00edcia matou 175 pessoas no Rio. O que faz a a\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas ter um n\u00edvel de confronto menor?<\/strong><\/p>\n<p>A capacidade dissuas\u00f3ria. Comparar o Rio com outros Estados \u00e9 complicado. O Rio convive com tr\u00eas fac\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico que disputam espa\u00e7o, al\u00e9m de grupos milicianos. Por causa disso, as fac\u00e7\u00f5es se armaram mais fortemente. Nossa orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 que opera\u00e7\u00f5es em comunidade sejam feitas com absoluta superioridade de meios para dissuadir o enfrentamento. N\u00e3o tem havido atua\u00e7\u00e3o indiscriminada da pol\u00edcia. Este ano, vamos ter redu\u00e7\u00e3o de mortes de policiais em confronto. O aumento de mortes em confronto com a pol\u00edcia se tornou mais debatido porque outros indicadores de viol\u00eancia ca\u00edram, como roubos e homic\u00eddios, e esse n\u00e3o caiu na mesma propor\u00e7\u00e3o, pois tem havido uma atua\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia mais ostensiva. Eu n\u00e3o comparo com as For\u00e7as Armadas. Quando ocupei a Mar\u00e9, t\u00ednhamos a superioridade absoluta de meios. Ai de quem nos enfrentasse. N\u00e3o nos enfrentaram porque n\u00e3o eram loucos.<\/p>\n<p><strong>O senhor acha que a regra de engajamento deve mudar, como na quest\u00e3o do bandido com fuzil?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que um criminoso armado com fuzil \u00e9 uma amea\u00e7a. N\u00e3o importa se ele est\u00e1 no ombro ou na m\u00e3o. Algu\u00e9m que porte um fuzil, sem ser policial ou militar, \u00e9 uma amea\u00e7a \u00e0 sociedade e \u00e9 l\u00edcito, no meu entendimento, que ele seja engajado pela pol\u00edcia. Mas n\u00e3o \u00e9 mudando as regras de engajamento que vamos resolver isso.<\/p>\n<p><strong>V\u00e1rios secret\u00e1rios da seguran\u00e7a ser\u00e3o generais. A que se deve essa op\u00e7\u00e3o do mundo pol\u00edtico?<\/strong><\/p>\n<p>A sociedade chegou a um ponto de amadurecimento de entender que a nossa maior crise era \u00e9tica, muito mais do que econ\u00f4mica e social. E as For\u00e7as Armadas conseguiram atravessar esse processo mantendo um alto grau de credibilidade, preservadas pelos valores que encarna. O outro aspecto ineg\u00e1vel foi a interven\u00e7\u00e3o federal, que sinalizou para o Pa\u00eds que h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de se enfrentar problemas grav\u00edssimos por meio de uma correta percep\u00e7\u00e3o da realidade e encaminhamento de solu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sejam midi\u00e1ticas e pirot\u00e9cnicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vereadora Marielle Franco (PSL) foi morta porque milicianos acreditaram que ela poderia atrapalhar os neg\u00f3cios ligados \u00e0 grilagem de terras na zona oeste do Rio de Janeiro. O crime estava sendo planejado desde 2017. 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