{"id":197546,"date":"2018-12-18T05:49:47","date_gmt":"2018-12-18T07:49:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=197546"},"modified":"2018-12-18T05:49:47","modified_gmt":"2018-12-18T07:49:47","slug":"o-novo-cinema-da-paraiba-nasce-ousado-e-criativo-para-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-novo-cinema-da-paraiba-nasce-ousado-e-criativo-para-o-mundo\/","title":{"rendered":"O novo cinema da Para\u00edba nasce ousado e criativo para o mundo"},"content":{"rendered":"<p>A grande surpresa do Festival Aruanda do Audioviosual, encerrado na semana passada, n\u00e3o veio da mostra competitiva principal, mas de uma paralela intitulada Sob o C\u00e9u Nordestino. Essa se\u00e7\u00e3o j\u00e1 existia h\u00e1 alguns anos para abrigar a produ\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o Nordeste. Mas a novidade \u00e9 que, neste 13.\u00ba Aruanda, ela foi preenchida integralmente por longas-metragens paraibanos.<\/p>\n<p>Para um Estado que raramente consegue produzir um longa-metragem, e cuja maior tradi\u00e7\u00e3o encontra-se no cinema documental (Linduarte Noronha e Vladimir Carvalho s\u00e3o as figuras mais not\u00e1veis), a atual safra, que mescla document\u00e1rios e fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 de encher os olhos. O cr\u00edtico e professor da USP Jean-Claude Bernardet, presente no evento, a classificou de \u201cexcepcional\u201d. Tanto que prop\u00f4s um pr\u00eamio da cr\u00edtica especial para esse segmento.<\/p>\n<p>S\u00e3o seis longas, como se disse, mas deveriam ser sete, pois o document\u00e1rio consagrado ao grande Jackson do Pandeiro, dirigido por Marcus Vilar, n\u00e3o p\u00f4de ser apresentado por problemas ainda pendentes com direitos autorais de som e imagem. Al\u00e9m desses filmes, outros sete devem chegar at\u00e9 o pr\u00f3ximo ano. Est\u00e3o na boca do forno.<\/p>\n<p>Os longas paraibanos em cartaz no Fest Aruanda foram Bei\u00e7o de Estrada, de Eli\u00e9zer Rolim, Estrangeiro, de Edson Lemos Akatoy, O Seu Amor de Volta (Mesmo que ele n\u00e3o Queira), de Bertrand Lira, Rebento, de Andr\u00e9 Morais, Sol Alegria, de Tavinho Teixeira, e Ambiente Familiar, de Torquato Joel.<\/p>\n<p>Tal safra n\u00e3o configura, possivelmente, um \u201cmovimento\u201d, no sentido cl\u00e1ssico do termo, com uma po\u00e9tica estabelecida em cima de regras e posturas preestabelecidas, mas um desses c\u00edrculos virtuosos ocasionais, beneficiados pela soma de uma pol\u00edtica de incentivo inteligente com a presen\u00e7a de talentos individuais.<\/p>\n<p>O boom se deve, de acordo com os cineastas, a um edital da prefeitura de Jo\u00e3o Pessoa, que leva o nome de Walfredo Rodrigues, um dos pioneiros do cinema paraibano, em parceira com o Fundo Setorial da Ancine.<\/p>\n<p>De acordo com o diretor Marcus Vilar, \u201chouve outro fato marcante: os filmes de curta e m\u00e9dia-metragens advindos do curso de cinema da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB). Alguns redundaram em longas, sendo o mais famoso Estrangeiro, filme que j\u00e1 circulou por mostras de cinco pa\u00edses\u201d, escreveu ele em artigo no jornal Correio da Para\u00edba (Cinema da Para\u00edba n\u00e3o para, 9\/12\/2018).<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil procurar por uma unidade tem\u00e1tica ou estil\u00edstica entre esses filmes. H\u00e1 diversidade muito grande entre as obras, que v\u00e3o do ambiente regional banhado por uma certa metaf\u00edsica (Rebento) a um intimismo m\u00edstico \u00e0 la Terrence Malick (Estrangeiro), at\u00e9 a ode libert\u00e1ria e dionis\u00edaca de Sol Alegria, passando pelos bastidores de adivinhos e cartomantes em O Seu Amor de Volta. Bei\u00e7o de Estrada, de Eli\u00e9zer Rolim, \u00e9 uma hist\u00f3ria de abandono contada em tom mais cl\u00e1ssico. E Ambiente Familiar, de Torquato Joel, explora o tema das novas configura\u00e7\u00f5es familiares em estilo pl\u00e1stico e figurativo, com imagens bastante sensoriais e que lembram, \u00e0s vezes, as do russo Andrei Tarkovski.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe algo como uma est\u00e9tica paraibana\u201d, abre o jogo Bertrand Lira, diretor de Seu Amor de Volta, vencedor do Pr\u00eamio Especial da Cr\u00edtica criado para esse segmento. Bertrand defende mais a particularidade de cada obra do que problem\u00e1ticos pontos comuns que indiquem uma tend\u00eancia.<\/p>\n<p>Diretor de Rebento, Andr\u00e9 Morais concorda com Bertrand. \u201cNossos esfor\u00e7os como grupo foram mais empregados na luta pol\u00edtica audiovisual do que discuss\u00f5es est\u00e9ticas\u201d, diz. \u201cLutamos pelos editais e depois para que eles de fato acontecessem. Ficamos muito focados nisso.\u201d Por sorte, essa batalha burocr\u00e1tica n\u00e3o contamina seu longa, hist\u00f3ria de uma mulher que, depois de parir e cometer um ato radical, sai numa busca metaf\u00f3rica por reden\u00e7\u00e3o, em busca de seu pai.<\/p>\n<p>Bertrand Lira lembra que h\u00e1, entre os colegas, est\u00e9ticas mais rurais, pr\u00f3ximas da tradi\u00e7\u00e3o documental paraibana, e outras mais urbanas. Ele pr\u00f3prio ambienta seu longa no centro hist\u00f3rico de Jo\u00e3o Pessoa, em ruas do bas-fonds, com seres desesperados frequentando as pequenas salas de quiromantes e videntes. J\u00e1 Morais, de Rebento, optou pelo campo. \u201cQuis ir para o sert\u00e3o por causa de uma mem\u00f3ria afetiva muito forte, cheia de implica\u00e7\u00f5es maternas\u201d, diz. \u201cMas um sert\u00e3o n\u00e3o necessariamente paraibano; poderia ser no interior da Amaz\u00f4nia ou de Minas Gerais.\u201d<\/p>\n<p>Edson Lemos, de Estrangeiro, diz que seu filme se distancia da tradi\u00e7\u00e3o rural paraibana e vai em dire\u00e7\u00e3o oposta. \u201c\u00c9 uma ode \u00e0 praia.\u201d Filmado em preto e branco, seu longa usa a natureza, mar e praia, no caso, como caminho de espiritualidade, reencontro de sua personagem feminina consigo mesma ap\u00f3s anos de ex\u00edlio volunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esse t\u00f4nus espiritual parece presente de maneira ainda mais evidente em Ambiente Familiar, de Torquato Joel. Torquato \u00e9 conhecid\u00edssimo na Para\u00edba como docente e tamb\u00e9m como autor de curtas que marcaram \u00e9poca, como Passadouro e Transubstancial. Faz um cinema metaf\u00edsico, de constru\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica bastante influenciada pela pintura e tendo como horizonte a poesia profunda de Augusto dos Anjos.<\/p>\n<p>Existe portanto esse eixo da espiritualidade, marcante, mas n\u00e3o dominante. Sol Alegria, por exemplo, ocupa-se mais dos corpos que do esp\u00edrito. Busca, na carnalidade, uma forma de transgress\u00e3o e libera\u00e7\u00e3o, com cunho pol\u00edtico e contestador.<\/p>\n<p>Num ponto, os diretores s\u00e3o un\u00e2nimes: \u201cManter essa diversidade \u00e9 muito mais importante que encontrar pontos comuns em nossas obras\u201d, diz Eli\u00e9zer.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o boom do cinema pernambucano, com o grupo \u00c1rido Movie e que teve seguimento em diretores como Kleber Mendon\u00e7a Filho (de O Som ao Redor e Aquarius), depois do cinema mineiro com cineastas como Andr\u00e9 Novais, Affonso Uch\u00f4a e outros, depois do coletivo cearense Alumbramento, talvez tenha chegado a hora de o cinema paraibano despontar no panorama nacional. Por enquanto, h\u00e1 que se comemorar esse momento especial. Em seguida, ser\u00e1 preciso estud\u00e1-lo, pois sua import\u00e2ncia j\u00e1 extrapola as fronteiras do Estado da Para\u00edba.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A grande surpresa do Festival Aruanda do Audioviosual, encerrado na semana passada, n\u00e3o veio da mostra competitiva principal, mas de uma paralela intitulada Sob o C\u00e9u Nordestino. Essa se\u00e7\u00e3o j\u00e1 existia h\u00e1 alguns anos para abrigar a produ\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o Nordeste. 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