{"id":197845,"date":"2018-12-23T10:25:42","date_gmt":"2018-12-23T12:25:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=197845"},"modified":"2018-12-23T10:26:45","modified_gmt":"2018-12-23T12:26:45","slug":"novos-livros-exploram-a-prosa-politica-e-ficcional-de-fernando-pessoa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/novos-livros-exploram-a-prosa-politica-e-ficcional-de-fernando-pessoa\/","title":{"rendered":"Novos livros exploram prosa pol\u00edtica e ficcional de Fernando Pessoa"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 sabido que Fernando Pessoa escreveu muito e a maior parte de sua obra apareceu aos olhos do mundo depois de sua morte precoce em 1935, aos 47 anos. N\u00e3o deixa de ser impressionante constatar que agora, 83 anos depois, materiais in\u00e9ditos sejam descobertos e publicados, bem como novas edi\u00e7\u00f5es organizadas. \u00c9 o que ocorre agora no mercado editorial brasileiro com quatro lan\u00e7amentos.<\/p>\n<p>Apenas uma entre as suas mil facetas, o ficcionista Fernando Pessoa aparece agora em dois livros com alguns textos in\u00e9ditos: Contos Completos, F\u00e1bulas &amp; Cr\u00f4nicas Decorativas, da Editora Carambaia, e O Banqueiro Anarquista e Outros Contos Escolhidos, da Nova Fronteira.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 fruto da sele\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do renomado poeta e tradutor angolano Zetho Cunha Gon\u00e7alves. O livro traz 14 textos em prosa de Fernando Pessoa: tr\u00eas deles in\u00e9ditos em livro, tr\u00eas tradu\u00e7\u00f5es de contos do escritor americano O. Henry, e uma pe\u00e7a de teatro. Uma narrativa in\u00e9dita apresentada no volume \u00e9 a Cr\u00f4nica Decorativa II, escrita em 1914, em que um narrador anticientificista fica espantado ao descobrir que a P\u00e9rsia, de fato, existe. \u201cEu julgava que a P\u00e9rsia era apenas o nome especial que se dava \u00e0 beleza de certos tapetes\u201d, reflete o narrador, num tipo de humor altamente ir\u00f4nico que perpassa a produ\u00e7\u00e3o ficcional do escritor.<\/p>\n<p>\u201cDe certa forma\u201d, escreve Cunha Gon\u00e7alves, \u201ctoda a obra de Fernando Pessoa \u2013 ort\u00f4nima ou heter\u00f4nima, em prosa ou verso \u2013 se interliga como uma teia de aranha gigantesca, cujos fios e cord\u00e9is compete ao leitor desfiar, tecer, distender, encordoar, e sobre eles caminhar como se fosse um fun\u00e2mbulo em permanente sobressalto e descoberta\u201d.<\/p>\n<p>Um texto que aparece nos dois volumes \u00e9 O Banqueiro Anarquista, \u201ca pe\u00e7a principal do corpus sempre vari\u00e1vel e variado dos contos pessoanos\u201d, segundo o organizador do livro da Nova Fronteira, Alexei Bueno.<\/p>\n<p>O texto \u00e9 uma noveleta em que Pessoa exp\u00f5e um narrador aparentemente paradoxal, afinal, banqueiro e anarquista. \u201cQuanto \u00e0 pr\u00e1tica, sou t\u00e3o anarquista como quanto \u00e0s teorias. E quanto \u00e0 pr\u00e1tica sou mais, sou muito mais anarquista que esses tipos que voc\u00ea citou. Toda a minha vida o mostra\u201d, diz o personagem. O conto segue ent\u00e3o por v\u00e1rias p\u00e1ginas em que ele explica sua vers\u00e3o da teoria anarquista, em que individualiza a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d por considerar que as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de grupo s\u00e3o um entrave no caminho da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O personagem seria \u201cquase um alter ego do criador do \u2018drama em gente\u2019, qui\u00e7\u00e1 um semi-heter\u00f4nimo\u201d, segundo Cunha Gon\u00e7alves. No pref\u00e1cio de Contos Completos&#8230;, ele recupera um texto que Pessoa publicou em 1935, declarando-se \u201canticomunista e antissocialista\u201d, mas tamb\u00e9m \u201cliberal dentro do conservantismo, e absolutamente antirreacion\u00e1rio\u201d.<\/p>\n<p>A faceta pol\u00edtica de Fernando Pessoa \u2013 eclipsada por sua obra po\u00e9tica, mas parte importante de sua vida \u2013 aparece escancarada em Sobre o Fascismo, a Ditadura Portuguesa e Salazar, volume que a Tinta-da-China colocou nas livrarias brasileiras recentemente. O livro foi organizado pelo historiador portugu\u00eas Jos\u00e9 Barreto, especialista dos escritos pol\u00edticos do poeta, e re\u00fane \u201ctodos os escritos de Fernando Pessoa que foi poss\u00edvel recensear, entre os ainda numerosos in\u00e9ditos do esp\u00f3lio do escritor e a obra publicada em vida ou postumamente, versando sobre tr\u00eas temas principais\u201d.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o de Sobre o Fascismo \u00e9 primorosa. Al\u00e9m de uma apresenta\u00e7\u00e3o profunda dos posicionamentos pol\u00edticos do autor assinada por Jos\u00e9 Barreto, o livro traz fac-s\u00edmiles de manuscritos, p\u00e1ginas de jornais, fotos e um arsenal de refer\u00eancias.<\/p>\n<p>No livro \u00e9 poss\u00edvel localizar um conjunto de notas, datilografadas por Pessoa em 1926 e nunca publicados, em que o autor faz uma reflex\u00e3o: \u201cComo, pois, se reforma uma sociedade? \u00c9 simples: por um movimento n\u00e3o colectivo, isto \u00e9, por um impulso puramente individual\u201d. Isso quatro anos depois da publica\u00e7\u00e3o de O Banqueiro Anarquista.<\/p>\n<p>Para o professor de literatura portuguesa da USP Caio Gagliardi, \u201cainda hoje h\u00e1 uma miopia generalizada a respeito de seu posicionamento pol\u00edtico (de Pessoa)\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante ressaltar que a complexidade inerente a Pessoa passa despercebida a esquemas muito r\u00edgidos de leitura, que tendem a rotular o pensamento pol\u00edtico como sendo \u2018de esquerda\u2019 ou \u2018de direita\u2019\u201d, explica o professor, nome \u00e0 frente do grupo Estudos Pessoanos, da FFLCH-USP, que re\u00fane pesquisadores de gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Agora em janeiro, o livro Fernando Pessoa e Cia. N\u00e3o-Heter\u00f4nima, com resultados das pesquisas e artigos in\u00e9ditos em livro, sai pela Editora Mundar\u00e9u.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que Pessoa nutria uma desilus\u00e3o profunda com a Primeira Rep\u00fablica Portuguesa (1910-1926) e chegou a encarar a ditadura militar que se seguiu como sendo \u201cn\u00e3o mais do que um estado de transi\u00e7\u00e3o para o estado constitucional de direito\u201d, explica Gagliardi. \u201cO rico material reunido por Barreto deixa claro que se houve, durante certo per\u00edodo, alguma condescend\u00eancia de Pessoa com rela\u00e7\u00e3o ao regime, a partir de 1932 o autor passa a criticar Salazar, e em 1935 j\u00e1 \u00e9 considerado advers\u00e1rio p\u00fablico do Estado Novo. Um cr\u00edtico convicto da censura, do uso da for\u00e7a e do imperialismo territorial.\u201d<\/p>\n<p>Para ele, deve-se tomar as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Pessoa no plural. \u201c Enquanto cidad\u00e3o comum, Pessoa foi eclipsado por sua obra. \u00c9 nesse sentido que, num ensaio a respeito de Pessoa, Octavio Paz afirma que \u2018Os poetas n\u00e3o t\u00eam biografia. Sua biografia \u00e9 sua obra.\u2019\u201d<\/p>\n<p>Outra publica\u00e7\u00e3o recente da Tinta-da-China Brasil, que traz ao Pa\u00eds a mesma cole\u00e7\u00e3o do autor publicada em Portugal, foi a Obra Completa de Alberto Caeiro, um dos heter\u00f4nimos mais conhecidos do poeta. \u201cAlberto Caeiro est\u00e1 no centro da fic\u00e7\u00e3o pessoana\u201d, explicam os organizadores da edi\u00e7\u00e3o, Jer\u00f3nimo Pizarro (coordenador da cole\u00e7\u00e3o da editora) e Patricio Ferrari.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 sabido que Fernando Pessoa escreveu muito e a maior parte de sua obra apareceu aos olhos do mundo depois de sua morte precoce em 1935, aos 47 anos. 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