{"id":199334,"date":"2019-01-12T21:25:49","date_gmt":"2019-01-12T23:25:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=199334"},"modified":"2019-01-13T08:17:42","modified_gmt":"2019-01-13T10:17:42","slug":"bolsonaro-coloca-ao-seu-lado-um-anti-pt-que-revolucionou-as-redes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bolsonaro-coloca-ao-seu-lado-um-anti-pt-que-revolucionou-as-redes\/","title":{"rendered":"Bolsonaro coloca ao seu lado um anti-PT que revolucionou as redes"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEst\u00e1 decretada a nova Cruzada. Deus vult!\u201d Foi assim, referindo-se ao movimento de liberta\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m dos infi\u00e9is e ao grito em latim dado pelo povo quando o papa Urbano II anunciou a Primeira Cruzada, em 1095, que o ativista, professor e analista pol\u00edtico Filipe Garcia Martins Pereira, rec\u00e9m-nomeado assessor especial para assuntos internacionais do presidente Jair Bolsonaro e cotado para ser porta-voz do governo, comemorou nas redes sociais a vit\u00f3ria no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es, em 28 de outubro.<\/p>\n<p>\u201cA nova era chegou. \u00c9 tudo nosso! Deus vult!\u201d, acrescentou, no dia da posse, em 1.\u00ba de janeiro, recorrendo mais uma vez \u00e0 sauda\u00e7\u00e3o dos devotos medievais, que, em portugu\u00eas, significa \u201cDeus quer\u201d.<\/p>\n<p>Ao ser questionado sobre as publica\u00e7\u00f5es, Martins, de 30 anos, afirmou que tudo n\u00e3o passou de uma brincadeira. Segundo ele, os posts n\u00e3o significavam que ele encara a miss\u00e3o do novo governo e a sua, em particular, como uma \u201cguerra santa\u201d do s\u00e9culo 21, cujo objetivo seria libertar a Rep\u00fablica dos gentios da esquerda, que assumiram o poder ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, nos anos 1980.<\/p>\n<p>Mas quem o conhece bem afirma que os posts est\u00e3o em linha com o seu pensamento pol\u00edtico e com o que costuma falar por a\u00ed. Bastaria, de qualquer forma, dar uma checada em suas p\u00e1ginas e perfis nas redes sociais para chegar \u00e0 mesma conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>As duas publica\u00e7\u00f5es revelam n\u00e3o s\u00f3 as suas motiva\u00e7\u00f5es e a sua vis\u00e3o pessoal sobre a chegada de Bolsonaro ao poder. Traduzem, de forma emblem\u00e1tica, o estado de esp\u00edrito e a ambi\u00e7\u00e3o dos vencedores, que ele sabe captar e expressar como poucos e que dever\u00e3o nortear tamb\u00e9m a sua atua\u00e7\u00e3o no governo. \u201cO que est\u00e1 acontecendo no Brasil \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o \u2013 a fucking revolution\u2013 e n\u00e3o h\u00e1 meios de par\u00e1-la\u201d, disse Martins pouco antes do segundo turno.<\/p>\n<p>Recentemente, ele se aproximou do vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), um dos filhos do presidente, respons\u00e1vel pela bem-sucedida campanha do pai nas redes. No cl\u00e3 dos Bolsonaro, por\u00e9m, seu padrinho \u00e9 Eduardo, outro filho do presidente, que acabou de se reeleger deputado federal (PSL-SP). Martins conta que conheceu Eduardo pela internet em 2014, quando o movimento que chama de \u201cliberal-conservador\u201d ainda ganhava for\u00e7a, e h\u00e1 alguns anos mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima com ele.<\/p>\n<p>Pupilo aplicado do pensador e escritor Olavo de Carvalho, o grande mentor intelectual de Bolsonaro e especialmente de Eduardo, Martins \u00e9 hoje, talvez, seu principal \u201ctrombone\u201d no Pa\u00eds. Na campanha eleitoral, com o apoio de Olavo e de Eduardo, desempenhou um papel relevante no n\u00facleo ideol\u00f3gico que cercou Bolsonaro e que agora exibiu suas garras, ao dividir com os liberais, os militares e o grupo do ministro da Justi\u00e7a e Seguran\u00e7a P\u00fablica, S\u00e9rgio Moro, o protagonismo no novo governo, arrematando os minist\u00e9rios da Educa\u00e7\u00e3o e das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, al\u00e9m de seu pr\u00f3prio cargo e outros postos de segundo e terceiro escal\u00f5es.<\/p>\n<p>Mundinho da direita. Apesar de ser bem articulado e ter as \u201ccostas quentes\u201d, sua ascens\u00e3o mete\u00f3rica ao poder surpreendeu muitos analistas, mesmo os que acompanham de perto a turma de Bolsonaro. Como \u00e9 relativamente jovem e desconhecido fora do mundinho da direita na internet, questiona-se se tem estatura para ser conselheiro pessoal do presidente na \u00e1rea internacional, cargo ocupado nos governos Lula e Dilma pelo petista Marco Aur\u00e9lio Garcia, morto em 2017.<\/p>\n<p>Por estar dentro do Pal\u00e1cio do Planalto, perto de Bolsonaro, questiona-se tamb\u00e9m como ser\u00e1 sua conviv\u00eancia com o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Ara\u00fajo, e em que medida a a\u00e7\u00e3o de Martins poder\u00e1 embolar a pol\u00edtica externa do Pa\u00eds. Mas ele diz que n\u00e3o ter\u00e1 o mesmo papel exercido por Garcia, que era o grande formulador da pol\u00edtica internacional dos governos do PT e deixava para o Itamaraty o papel de executor de suas diretrizes \u2013 algo que Martins considera \u201cuma aberra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, sua fun\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ser mais a de auxiliar o presidente em sua agenda no exterior, na recep\u00e7\u00e3o a chefes de Estado e em mant\u00ea-lo informado sobre os fatos internacionais relevantes. Se isso se confirmar, a formula\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa caber\u00e1 mesmo a Ara\u00fajo, com quem ele parece compartilhar a mesma vis\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Formado em rela\u00e7\u00f5es internacionais na Universidade de Bras\u00edlia, em 2015, Martins trabalhou por dois anos no departamento econ\u00f4mico da embaixada dos Estados Unidos em Bras\u00edlia, acompanhando os trabalhos do Congresso e produzindo pesquisas, an\u00e1lises e relat\u00f3rios sobre a conjuntura pol\u00edtica e econ\u00f4mica do Pa\u00eds. Trabalhou tamb\u00e9m na assessoria internacional do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em consultorias privadas, al\u00e9m de dar aulas em cursos preparat\u00f3rios para a carreira diplom\u00e1tica e a de oficial da Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (Abin).<\/p>\n<p>Mais recentemente, ocupou a secretaria de Assuntos Internacionais do PSL e fez a sua prega\u00e7\u00e3o conservadora pelo Brasil afora, em debates, semin\u00e1rios e palestras. Foi editor-adjunto do site Senso Incomum, do tamb\u00e9m bolsonarista e olavista radical Flavio Azambuja Martins, mais conhecido pelo pseud\u00f4nimo de Flavio Morgenstern, que defendeu, numa publica\u00e7\u00e3o pol\u00eamica no Twitter, a queima de livros do educador Paulo Freire em pra\u00e7a p\u00fablica, para resolver o problema da educa\u00e7\u00e3o no Pa\u00eds. Depois, diante da repercuss\u00e3o negativa do coment\u00e1rio, disse que se tratava de uma ironia, que n\u00e3o deveria ser levada ao p\u00e9 da letra.<\/p>\n<p>Foram, por\u00e9m, os seus propalados acertos em previs\u00f5es eleitorais no exterior que fizeram a fama de Martins, em especial a da vit\u00f3ria de Donald Trump nos Estados Unidos, em 2016. Contra a opini\u00e3o da quase totalidade dos analistas, que apostava em Hillary Clinton, ele cravou que Trump venceria em 48 dos 50 Estados americanos. Desde ent\u00e3o, vem surfando nessa onda, apesar de ter errado outras previs\u00f5es, segundo seus cr\u00edticos, como na antecipa\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es na Inglaterra, em 2017, quando apostou na vit\u00f3ria dos conservadores, que acabaram perdendo espa\u00e7o para os trabalhistas.<\/p>\n<p>\u201cRevolucion\u00e1rio de Facebook\u201d. Como o novo chanceler brasileiro, Martins \u00e9 avesso ao globalismo, que, em sua vis\u00e3o, submete o Pa\u00eds a decis\u00f5es de organiza\u00e7\u00f5es multilaterais que muitas vezes n\u00e3o atendem ao interesse nacional.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de defender uma reaproxima\u00e7\u00e3o do Brasil com os Estados Unidos, Martins afirma ter \u201cgrande admira\u00e7\u00e3o\u201d pelos governos de direita da It\u00e1lia, Hungria, Pol\u00f4nia, \u00c1ustria, Gr\u00e3-Bretanha, Rep\u00fablica Checa, Su\u00ed\u00e7a e Israel. Ele apoia a participa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds na nova alian\u00e7a conservadora global articulada pelo estrategista Steve Bannon, ex-assessor do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.<\/p>\n<p>Uma das coisas mais divertidas que fiz nessa viagem foi ir ao jantar de anivers\u00e1rio do Steve Bannon, onde pude conversar com grandes nomes do movimento conservador americano. As conversas foram t\u00e3o boas que tivemos um segundo jantar, ontem em Nova York. Let&#8217;s start a movement!<\/p>\n<p>Por sua atua\u00e7\u00e3o agressiva nas redes sociais e suas ideias muitas vezes messi\u00e2nicas, baseadas nos ensinamentos do \u201cprofessor Olavo\u201d, Martins foi chamado de \u201cRobespirralho\u201d, \u201crevolucion\u00e1rio de Facebook\u201d e \u201cl\u00edder da direita jacobina\u201d. Tamb\u00e9m foi chamado de \u201cSorocabannon\u201d, por ter nascido em Sorocaba, no interior paulista, e pontificar sobre a estrat\u00e9gia pol\u00edtica e eleitoral de Bolsonaro, como Bannon fazia com Trump.<\/p>\n<p>Apesar do antipetismo e da oposi\u00e7\u00e3o que exerce contra o socialismo e o comunismo, \u00e9 nas fileiras da pr\u00f3pria direita que ele costuma \u201ccausar\u201d. Na campanha, Martins foi protagonista de embates antol\u00f3gicos contra o que chama de \u201cdireita limpinha\u201d e \u201cconservadores de almanaque\u201d.<\/p>\n<p>\u201cOs conservadores de \u2018boa estirpe\u2019 talvez sejam \u00f3timos para conquistar afagos dos colegas esquerdistas, mas s\u00f3 a direita xucra tem o desprendimento para ver sua imagem destru\u00edda em nome do que \u00e9 certo\u201d, disse na v\u00e9spera do segundo turno.<\/p>\n<p>Com 58 mil seguidores no Facebook e 108 mil no Twitter, ele n\u00e3o hesita em lan\u00e7ar contra seus advers\u00e1rios na arena digital uma esp\u00e9cie de \u201cfatwa\u201d o decreto emitido por l\u00edderes religiosos do Isl\u00e3 para os fi\u00e9is. \u201cFa\u00e7a piada com o que quiser\u201d, afirmou nas redes, diante da repercuss\u00e3o da fala da ministra Damares Alves contra a chamada \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, usando como met\u00e1fora as cores que meninos e meninas deveriam vestir.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 entenda, a\u00ed do alto de sua religi\u00e3ozinha civil, que o esquisito \u00e9 voc\u00ea e que h\u00e1 um ex\u00e9rcito de tias do zap e de tios do pav\u00ea com piadas o suficiente para lhe fazer chorar para o resto da vida, mesmo que voc\u00ea pe\u00e7a arrego e alegue \u2018discurso de \u00f3dio\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Durante a greve dos caminhoneiros, em 2018, Martins abra\u00e7ou o movimento com armas virtuais e furor revolucion\u00e1rio, como o mestre Olavo. Encampou tamb\u00e9m o \u201cFora, Temer\u201d, refor\u00e7ando a narrativa da esquerda \u00e0 qual tanto se op\u00f5e. Ele enxergou na paralisa\u00e7\u00e3o a chance de \u201cmobilizar a massa\u201d, derrubar o governo, acabar com a corrup\u00e7\u00e3o e os privil\u00e9gios dos pol\u00edticos e promover o corte de gastos p\u00fablicos e de impostos.<\/p>\n<p>Numa tentativa bizarra de unir o esp\u00edrito revolucion\u00e1rio \u00e0s ideias conservadoras, Martins acreditou que a greve representava para o Pa\u00eds uma esp\u00e9cie de Boston Tea Party, o movimento deflagrado em 1773 pelos colonos americanos contra o monop\u00f3lio da Inglaterra na venda de ch\u00e1, que acabou levando \u00e0 independ\u00eancia dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, ao final, como j\u00e1 era previs\u00edvel, o Tea Party de Martins, incensado por Olavo de Carvalho, deu ruim. Com a decis\u00e3o do governo de subsidiar o diesel, a conta sobrou para os contribuintes, e com o tabelamento do frete, houve mais interven\u00e7\u00e3o estatal na economia. O fracasso de sua aventura tresloucada deixou duras li\u00e7\u00f5es. Agora, elas poder\u00e3o contribuir para Martins ser mais equilibrado em sua passagem pelo governo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEst\u00e1 decretada a nova Cruzada. 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