{"id":200700,"date":"2019-01-27T12:37:14","date_gmt":"2019-01-27T14:37:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=200700"},"modified":"2019-01-27T12:37:14","modified_gmt":"2019-01-27T14:37:14","slug":"derretimento-de-geleiras-preocupa-populacao-do-cazaquistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/derretimento-de-geleiras-preocupa-populacao-do-cazaquistao\/","title":{"rendered":"Derretimento de geleiras preocupa popula\u00e7\u00e3o do Cazaquist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Em um dia de ver\u00e3o, nas montanhas acima de Almaty, a maior cidade do Cazaquist\u00e3o, a geleira Tuyuksu est\u00e1 derretendo muito rapidamente. Pequenos riachos escorrem pela sua fina borda na frente da geleira. Como faz h\u00e1 quase 20 anos, Maria Shahgedanova, glaciologista da Universidade de Reading, na Inglaterra, vem verificar Tuyuksu. Uma das geleiras mais estudadas de todo o planeta, Tuyuksu ajuda a avaliar as consequ\u00eancias da mudan\u00e7a clim\u00e1tica sobre o gelo do mundo.<\/p>\n<p>Com colegas do Instituto de Geografia do Cazaquist\u00e3o, Shahgedanova fez o lento trajeto de Almaty, 24 quil\u00f4metros ao norte, sacolejando por uma estrada \u00edngreme, cheia de sulcos em um ve\u00edculo utilit\u00e1rio russo. No final da estrada, est\u00e1 uma esta\u00e7\u00e3o de pesquisa da era sovi\u00e9tica que, como a pr\u00f3pria Tuyuksu, viu dias melhores. Os pesquisadores mant\u00eam as estacas de medi\u00e7\u00e3o plantadas em buracos no gelo.<\/p>\n<p>No ano passado, no fim da temporada de degelo do ver\u00e3o, a equipe tra\u00e7ou alguns sinais nas estacas marcando a altura do gelo. Agora, observando uma estaca cerca de um ano mais tarde, Nikolay Kasatkin, um dos pesquisadores do instituto, e Shahgedanova, notaram um peda\u00e7o maior de madeira vis\u00edvel. Embora o fim do degelo seja daqui a dois meses, percebe-se que partes da geleira est\u00e3o cerca de um metro mais finas.<\/p>\n<p>As geleiras representam as neves de s\u00e9culos passados, comprimidas ao longo do tempo em rios fluidos de gelo, com cerca de 300 metros de espessura, aqui na cordilheira de Tien Shan. Eles nunca s\u00e3o est\u00e1ticos, acumulam neve no inverno e perdem gelo no ver\u00e3o por causa do derretimento. Mas em um clima quente, o derretimento \u00e9 maior do que o ac\u00famulo, provocando uma perda l\u00edquida de gelo.<\/p>\n<p>A geleira Tuyuksu, que tem cerca de dois quil\u00f4metros e meio de comprimento, est\u00e1 ficando menor e mais fina. Quando a esta\u00e7\u00e3o de pesquisa foi constru\u00edda em 1957, ela se localizava a poucas centenas de metros da borda, ou l\u00edngua. Agora, para chegar at\u00e9 o gelo \u00e9 preciso arrastar-se a p\u00e9 por quase uma hora. Em 60 anos, a geleira perdeu quase um quil\u00f4metro. O que est\u00e1 acontecendo nas montanhas do sudeste do Cazaquist\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno global.<\/p>\n<p>Os aproximadamente 150 mil glaciares existentes no mundo, n\u00e3o incluindo as largas extens\u00f5es de gelo da Groenl\u00e2ndia e da Ant\u00e1rtica, cobrem cerca de 500 mil quil\u00f4metros quadrados da superf\u00edcie de terra. Nos \u00faltimos 40 anos, eles perderam o equivalente a uma camada de gelo de 20 metros de espessura.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a maioria das geleiras est\u00e1 encurtando. Geleiras menores em lugares como as Montanhas Rochosas e os Andes desapareceram. Mesmo que as emiss\u00f5es de gases do efeito estufa diminu\u00edssem imediatamente, j\u00e1 ocorreu um aquecimento suficiente para as geleiras de todo o mundo continuarem encolhendo.<\/p>\n<p>O grande derretimento global contribui para a eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar. Ele afeta a produ\u00e7\u00e3o de energia pelas termoel\u00e9tricas. E ainda gera inunda\u00e7\u00f5es catastr\u00f3ficas e o fluxo de detritos, altera o curso dos rios e dos ecossistemas. Mas aqui no Tien Shan, o maior impacto se deu talvez no fornecimento de \u00e1gua para as pessoas e a agricultura. \u00c0 medida que a Tuyuksu derrete, os riachos se transformam em torrentes, escavando canais na sua superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Parte da \u00e1gua destas geleiras torna-se o Pequeno Rio Almaty. O Pequeno Almaty e v\u00e1rias outras geleiras fluem para a cidade e no seu entorno. Eles fornecem parte da \u00e1gua pot\u00e1vel aos dois milh\u00f5es de pessoas da regi\u00e3o e \u00e1gua para a irriga\u00e7\u00e3o da lavoura. Shahgedanova e seus colegas estudam a \u00e1gua no Pequeno Almaty e de outros rios. Nem toda esta \u00e1gua vem das geleiras que est\u00e3o derretendo; em parte, \u00e9 \u00e1gua da chuva e do degelo, e, como preveem alguns modelos clim\u00e1ticos, ela poder\u00e1 aumentar na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Outras fontes incluem o derretimento de \u00e1reas de solo congelado, ou permafrost, e enormes pilhas de fragmentos de rocha e gelo em baixo de muitas geleiras. Shahgedanova e colegas analisam as amostras da \u00e1gua para determinar a mescla de fontes. Eles medem regularmente o fluxo para registrar a mudan\u00e7a dos riachos.<\/p>\n<p>Determinar a mescla de fontes de \u00e1gua \u00e9 importante para prever como estar\u00e3o os rios ao longo do tempo. Uma geleira que est\u00e1 derretendo pode aumentar inicialmente o fluxo do riacho, mas a geleira alcan\u00e7ar\u00e1 um ponto cr\u00edtico, chamado pico do fluxo, e a \u00e1gua do derretimento come\u00e7ar\u00e1 a minguar. \u201cA certa altura, elas n\u00e3o poder\u00e3o produzir a \u00e1gua que fornecem agora\u201d, disse Matthias Huss, pesquisador do Swiss Federal Institute of Technology em Zurique. \u201c\u00c9 realmente importante para os gestores da \u00e1gua saber quando esse ponto ser\u00e1 alcan\u00e7ado\u201d.<\/p>\n<p>Os fluxos das geleiras do Cazaquist\u00e3o declinar\u00e3o. Outras geleiras da \u00c1sia Central tamb\u00e9m ser\u00e3o igualmente afetadas. Mas o maior impacto se dar\u00e1 mais ao sul. L\u00e1, in\u00fameras geleiras alimentam a grande bacia fluvial da \u00c1sia. Em todo o Planalto Tibetano e nas cordilheiras do Himalaia e do Karakorum, h\u00e1 milhares de geleiras e as pessoas que dependem delas s\u00e3o centenas de milh\u00f5es, ao longo de rios como o Indo no Paquist\u00e3o, o Ganges na \u00cdndia, o Rio Amarelo e o Yangtz\u00e9 na China, e o Mekong no Sudoeste Asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Estes rios ser\u00e3o afetados pelo recuo das geleiras, afirma Arthur Lutz, um hidrologista da FutureWater, empresa de consultoria holandesa. O momento pode variar; o Indo, por exemplo, \u00e9 mais dependente do derretimento glacial do que o Ganges, que recebe grande parte da sua \u00e1gua das chuvas das mon\u00e7\u00f5es. \u201cO total da \u00e1gua que voc\u00eas obt\u00eam das montanhas provavelmente aumentar\u00e1 at\u00e9 por volta dos anos 2050\u201d.<\/p>\n<p>No Cazaquist\u00e3o, o decl\u00ednio poder\u00e1 come\u00e7ar mais cedo. N\u00e3o h\u00e1 muito incentivo e nem recursos para instalar melhorias como irriga\u00e7\u00e3o por gotejamento nas fazendas, de maneira a economizar \u00e1gua e melhorar a produtividade. Mas o Cazaquist\u00e3o ter\u00e1 de fazer uma gest\u00e3o mais eficiente desse recurso a fim de estar preparado quando o fluxo dos rios alimentados pelas suas geleiras come\u00e7ar a diminuir.<\/p>\n<p>Aleksi Gorbatuk \u00e9 um fazendeiro propriet\u00e1rio de 150 hectares de milho em Karaoy, a cerca de 40 quil\u00f4metros ao norte de Almaty. Ele gostaria de instalar a irriga\u00e7\u00e3o por gotejamento. Ele sabe que isto o ajudaria a conservar a \u00e1gua. E tamb\u00e9m a economizar dinheiro a longo prazo, tornando os campos mais produtivos. Mas \u00e9 um sistema caro. Entretanto, a situa\u00e7\u00e3o de Gorbatuk \u00e9 um lembrete do que disse. \u201cA diminui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas das geleiras ou das montanhas em geral n\u00e3o precisar\u00e1 ser necessariamente um problema\u201d. \u201cAntes, \u00e9 uma quest\u00e3o de como usamos a \u00e1gua\u201d, afirmou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um dia de ver\u00e3o, nas montanhas acima de Almaty, a maior cidade do Cazaquist\u00e3o, a geleira Tuyuksu est\u00e1 derretendo muito rapidamente. Pequenos riachos escorrem pela sua fina borda na frente da geleira. Como faz h\u00e1 quase 20 anos, Maria Shahgedanova, glaciologista da Universidade de Reading, na Inglaterra, vem verificar Tuyuksu. 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