{"id":201756,"date":"2019-02-07T01:40:43","date_gmt":"2019-02-07T03:40:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=201756"},"modified":"2019-02-07T09:42:20","modified_gmt":"2019-02-07T11:42:20","slug":"e-se-a-rua-falasse-hollywood-ouviria-sua-voz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/e-se-a-rua-falasse-hollywood-ouviria-sua-voz\/","title":{"rendered":"E &#8216;Se a Rua Falasse&#8217;, Hollywood ouviria sua voz?"},"content":{"rendered":"<p>Havia a expectativa de que, tr\u00eas anos ap\u00f3s a polariza\u00e7\u00e3o de Moonlight \u2013 Sob a Luz do Luar e La La Land \u2013 Cantando Esta\u00e7\u00f5es, Barry Jenkins e Damien Chazelle voltassem a acertar suas contas no Oscar. Nem um nem outro chegaram l\u00e1. A despeito de suas qualidades, Se a Rua Beale Falasse e O Primeiro Homem foram preteridos nas indica\u00e7\u00f5es para os pr\u00eamios da Academia. Mesmo assim, ser\u00e1 um esc\u00e2ndalo se Regina King, indicada para melhor atriz coadjuvante, n\u00e3o repetir o Globo de Ouro que recebeu pelo papel da m\u00e3e no longa de Jenkins. O filme tem mais duas indica\u00e7\u00f5es \u2013 roteiro adaptado, para o diretor, e trilha, Nicholas Brittell.<\/p>\n<p>Em Se a Rua Beale Falasse, que estreia nesta quinta, 7, Barry Jenkins se atraca com o assim chamado \u2018monumento blues\u2019 de James Baldwin e faz o que n\u00e3o deixa de ser um filme raro. Recapitulando \u2013 at\u00e9 em nome da corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, Hollywood tem atribu\u00eddo, nos \u00faltimos anos, grande reconhecimento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de artistas e t\u00e9cnicos negros. Este ano, Ryan Coogler faz hist\u00f3ria cravando a primeira indica\u00e7\u00e3o de um blockbuster de super-her\u00f3is na categoria de melhor filme, Pantera Negra, e Spike Lee colhe a dupla indica\u00e7\u00e3o, para filme e dire\u00e7\u00e3o, por Infiltrado na Klan.<\/p>\n<p>Se valer, como indica\u00e7\u00e3o, a escolha do Sindicato dos Produtores mostra que quem leva \u00e9 Peter Farrelly pela linda hist\u00f3ria de amizade birracial de Green Book \u2013 O Guia, em que Viggo Mortensen e Mahershala Ali est\u00e3o geniais, e pelo qual o segundo vai repetir seu Oscar de ator coadjuvante por Moonlight.<\/p>\n<p>Escritor de m\u00faltiplos talentos \u2013 romancista, ensa\u00edsta, dramaturgo, poeta \u2013, Baldwin n\u00e3o apenas refletiu sobre tens\u00f5es raciais motivadas pela desigualdade. Tamb\u00e9m encarou a sexualidade, expressando as dificuldades de homens negros homossexuais e bissexuais no rumo da aceita\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria e a da sociedade.<\/p>\n<p>Nesse sentido, h\u00e1 um tanto de Baldwin em Green Book, enquanto em Rua Beale, Jenkins, que j\u00e1 abordou o tema, parece tomar outro rumo. E.L. Doctorow e Milos Forman \u2013 no come\u00e7o dos anos 1980, o autor checo radicado nos EUA fez um dos maiores ataques de Hollywood ao racismo com Na \u00c9poca do Ragtime. No centro de tudo, a hist\u00f3ria de amor de um casal de negros e a intransig\u00eancia policial.<\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias hist\u00f3rias cruzadas \u2013 e que, inclusive, remetem aos prim\u00f3rdios do cinema \u2013, mas a mais intensa de todas \u00e9 a do pianista negro que \u00e9 humilhado e resolve reagir, fazendo justi\u00e7a por conta pr\u00f3pria. \u00c9 o que tamb\u00e9m ocorre em Rua Beale, a parte da injusti\u00e7a, pelo menos. O filme conta o romance de Tish, de 19 anos, e Fonny, de 22. S\u00e3o interpretados por Kiki Layne e Stephan James, que formam o casal mais belo do mundo, independentemente de ra\u00e7a.<\/p>\n<p>O amor seria a coisa mais bela, se Fonny n\u00e3o fosse acusado, por um policial que busca vingan\u00e7a, do estupro de uma mulher porto-riquenha. A partir da\u00ed, irrompe a viol\u00eancia, e n\u00e3o apenas da institui\u00e7\u00e3o, porque, quando Tish engravida, a m\u00e3e de Fonny a acusa de destruir a vida de seu \u2018menino\u2019.<\/p>\n<p>Por mais cruel que seja a injusti\u00e7a, o amor \u00e9 mais forte e Barry Jenkins conta sua hist\u00f3ria por meio de travellings lentos e cores saturadas, no embalo de uma musicalidade \u2013 o jazz \u2013 que teria alguma coisa da tonalidade m\u00edstica de Terrence Malick, se o diretor n\u00e3o fosse t\u00e3o impregnado pelo romantismo barroco e delirante do mestre do melodrama, Douglas Sirk. N\u00e3o ligue para as refer\u00eancias. Elas est\u00e3o mais no olhar de quem v\u00ea do que propriamente na tela e at\u00e9 a prosa de Baldwin cede espa\u00e7o ao lirismo que, afinal, \u00e9 a leitura que Jenkins faz do texto. Nesse sentido, e a despeito de todo o seu esplendor, faz sentido que Rua Beale esteja sendo minimizado pela Academia.<\/p>\n<p>Ao optar pelos superpoderes de um her\u00f3i negro, e pela incr\u00edvel hist\u00f3ria verdadeira de um policial afro-americano que conseguiu se infiltrar na ultrarracista Ku Klux Klan, a Academia sinaliza para uma tomada de posi\u00e7\u00e3o que s\u00f3 na apar\u00eancia \u00e9 mais urgente. Existe dor, reden\u00e7\u00e3o, luta em Se a Rua Beale Falasse, como havia em Moonlight, embora em outra tonalidade.<\/p>\n<p>Hollywood premiou no ano passado o Corra!, de Jordan Peele, e este ano deixou de fora das indica\u00e7\u00f5es principais n\u00e3o s\u00f3 Barry Jenkins, mas tamb\u00e9m o explosivo Sorry to Bother You, de Boots Riley, com o outro ator de Corra!, Lakeith Stanfield. Com suprema ironia, Riley investe contra o que h\u00e1 de mais perverso no capitalismo. Jenkins n\u00e3o \u00e9 menos duro na descri\u00e7\u00e3o de seus personagens e do mundo em que vivem, mas um autor negro parece n\u00e3o ter direito a essa melanc\u00f3lica \u2013 bela e triste \u2013 epifania. Com ou sem Oscar, Tish e Fonny far\u00e3o parte das lembran\u00e7as inesquec\u00edveis deste ano.<\/p>\n<p>James Baldwin morreu h\u00e1 mais de 30 anos \u2013 em 1.\u00ba de dezembro de 1987 \u2013, na Fran\u00e7a. Ele foi um \u00edcone da insurrei\u00e7\u00e3o por direitos civis, nos anos 1960, mas dentro do pr\u00f3prio movimento negro sempre foi pol\u00eamico. Em seus livros e ensaios, Baldwin n\u00e3o denunciava apenas o preconceito racial e social, a penosa quest\u00e3o da pobreza dos afro-americanos na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Baldwin tamb\u00e9m deu voz \u00e0 sexualidade reprimida de homens negros homossexuais e bissexuais. Consta que foi ele quem fez a cabe\u00e7a \u2013 e \u2018politizou\u2019 \u2013 da cantora, compositora e ativista americana Nina Simone. Nem por isso deixou de sofrer cr\u00edticas do radical Malcolm X.<\/p>\n<p>Se a Rua Beale foi seu \u00faltimo livro, publicado em 1974. Baldwin foi acusado de reutilizar temas racistas da d\u00e9cada anterior. Na verdade, e por menos que o filme de Barry Jenkins seja fiel \u00e0 letra do romance \u2013 a Rua Beale \u00e9 refer\u00eancia, quase n\u00e3o d\u00e1 as caras no filme (nem no livro), embora seja um espa\u00e7o m\u00edtico do blues de Memphis, no Tennessee \u2013, o esp\u00edrito do autor est\u00e1 presente.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que Baldwin se presta \u00e0 reinven\u00e7\u00e3o dos cineastas. De um livro inacabado, sobre tr\u00eas ativistas negros assassinados \u2013 Medgar Evans, Malcolm X e Martin Luther King \u2013, Raoul Peck tirou o document\u00e1rio Eu N\u00e3o Sou Seu Negro, que foi indicado para o Oscar h\u00e1 dois anos. E agora Jenkins impregna de suave tristeza esse admir\u00e1vel Rua Beale.<\/p>\n<p>Baldwin virou um nome com seu segundo livro, um cl\u00e1ssico da literatura gay \u2013 O Quarto de Giovanni. O terceiro, Terra Estranha, \u00e9 um caudaloso volume que investiga as rela\u00e7\u00f5es de um baterista com seu entorno. O tempo passa, o mundo retrocede e \u00e9 precioso (re)ler James Baldwin. As quest\u00f5es que ele aborda seguem atuais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia a expectativa de que, tr\u00eas anos ap\u00f3s a polariza\u00e7\u00e3o de Moonlight \u2013 Sob a Luz do Luar e La La Land \u2013 Cantando Esta\u00e7\u00f5es, Barry Jenkins e Damien Chazelle voltassem a acertar suas contas no Oscar. Nem um nem outro chegaram l\u00e1. 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