{"id":201969,"date":"2019-02-09T00:37:50","date_gmt":"2019-02-09T02:37:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=201969"},"modified":"2019-02-09T08:40:45","modified_gmt":"2019-02-09T10:40:45","slug":"eliane-giardini-e-antonio-gonzales-ironizam-casamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/eliane-giardini-e-antonio-gonzales-ironizam-casamento\/","title":{"rendered":"Eliane Giardini e Ant\u00f4nio Gonzales ironizam casamento"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 da rotina de pesquisadores e at\u00e9 de artistas usar fen\u00f4menos sociais como objetos de estudo. J\u00e1 dramaturgos como Edward Albee (1928-2016), sempre ser\u00e3o lembrados por transformar temas e tabus sociais em verdadeiros alvos para o ataque. \u00c9 esse o foco do espet\u00e1culo Pe\u00e7a do Casamento, que subiu aos palcos nesta sexta, 8.<\/p>\n<p>O tema \u00e9 caro ao autor de pe\u00e7as como A Cabra ou Quem \u00c9 Sylvia? e Tr\u00eas Mulheres Altas. Sua obsess\u00e3o por dissecar o matrim\u00f4nio, considerado por ele como \u201ca estrutura social fundamental da cultura contempor\u00e2nea ocidental\u201d, atingiu em cheio o diretor Guilherme Weber. \u201cO casamento \u00e9 um fetiche para Albee e a pe\u00e7a percebe como esse assunto se desdobra na sociedade, nos mais diversos \u00e2mbitos, como o social, econ\u00f4mico, pol\u00edtico, de g\u00eanero e desejo.\u201d<\/p>\n<p>Um dos exemplos \u00e9 o cl\u00e1ssico Quem Tem Medo de Virg\u00ednia Wolf?, eternizado no cinema pela interpreta\u00e7\u00e3o de Elizabeth Taylor no papel da mulher-f\u00faria chamada Martha. \u201cGosto muito de autores que constroem uma carreira perseguindo um certo assunto\u201d, diz Weber. \u201cQuando olhamos para sua obra, conseguimos compreender o que foi abordado e o funcionamento na sociedade, para al\u00e9m dessa obsess\u00e3o do autor. No caso de Albee, o matrim\u00f4nio se torna a investiga\u00e7\u00e3o de uma vida, uma vingan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Em cena, temos um arranjo de fam\u00edlia nada peculiar e bastante sujeito ao humor dos tempos de hoje: um casal branco e heterossexual dos anos 1980. Interpretados por Eliane Giardini e Ant\u00f4nio Gonzalez, a dupla re\u00fane a complexidade das demais personagens de Albee. A mulher demonstra um car\u00e1ter forte, permeado por erotismo, al\u00e9m de ser desbocada e neur\u00f3tica. J\u00e1 o homem sofre por n\u00e3o enxergar sentido em um casamento de 30 anos, como se a solid\u00e3o fosse um terceiro parceiro inevit\u00e1vel em uma rela\u00e7\u00e3o duradoura.<\/p>\n<p>\u00c9 dessa condi\u00e7\u00e3o med\u00edocre que Albee ressalta seu humor e seu olhar, transmitido aqui, de um jeito sagaz, conta Weber. \u201cA hist\u00f3ria do casal \u00e9 observada por um menino gay, o que concede ao texto um ambiente f\u00e9rtil para a par\u00f3dia, o pastiche\u201d, explica. Para ele, Albee j\u00e1 desejava reafirmar sua vingan\u00e7a retomando a si mesmo quando crian\u00e7a. \u201cDurante toda a carreira, Albee vai recriar mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia e de sua fam\u00edlia.\u201d<\/p>\n<p>Ref\u00e9ns de um olhar esperto e nada condescendente, o casal passa uma noite em claro revisitando os \u00faltimos 30 anos. E aqui surge uma camada interessante ao espet\u00e1culo. Marriage Play, o nome original n\u00e3o deixa a dever ao ampliar o sentido de brincadeira, jogo e espet\u00e1culo que cabem na mesma palavra, incapaz de ser expresso apenas em \u201cpe\u00e7a\u201d. Na montagem, o casal vai relembrar de eventos especiais como a lua de mel, o nascimento dos filhos e do passado agrad\u00e1vel, como forma de avaliar o presente turbulento. Esse retorno ao passado exp\u00f5e um certo metateatro, defende o diretor. \u201cO autor n\u00e3o deixa de sobrepor pap\u00e9is, como se o arqu\u00e9tipo do casamento, o matrim\u00f4nio com toda a cerim\u00f4nia e significado para a sociedade n\u00e3o deixasse de ser um tamb\u00e9m papel que se interpreta.\u201d<\/p>\n<p>Na cena, Weber recorre ao uso de diversos espelhos. \u201cAl\u00e9m da aparente condi\u00e7\u00e3o de refletir um ao outro, o palco tamb\u00e9m transfere essa condi\u00e7\u00e3o \u00e0 plateia. De alguma maneira o casamento \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que atinge a todos, quando n\u00e3o c\u00f4njuges, mas filhos, irm\u00e3os, parentes\u201d, diz Weber.<\/p>\n<p>Pe\u00e7a do Casamento n\u00e3o \u00e9 a primeira investida de Weber no tema. Em 2016 ele estreou Os Realistas, estrelado por Fernando Eiras, Mariana Lima, Em\u00edlio de Mello e Debora Bloch. No texto do dramaturgo ingl\u00eas Will Eno, acompanha-se a trajet\u00f3ria de dois casais comuns que se conhecem em uma paisagem campestre e passam a enfrentar juntos temas como a fal\u00eancia da linguagem, o fim da vida, mas sempre com a ironia na ponta da l\u00edngua.<\/p>\n<p>Para fechar a trilogia, Weber vai adentrar o terreno das palavras do dramaturgo das \u201ccom\u00e9dias s\u00e9rias\u201d Tom Stoppard. Em De Verdade (The Real Thing), o autor tamb\u00e9m invoca o metateatro. A pe\u00e7a explora a ideia de realidade versus apar\u00eancia focada em relacionamentos com a hist\u00f3ria de Henry, um dramaturgo que carrega as mesmas atribui\u00e7\u00f5es que a cr\u00edtica deu a Stoppard. Com bom humor e sofistica\u00e7\u00e3o, ele vai reclamar de uma pe\u00e7a escrita por Broddie, um ativista escoc\u00eas preso por botar fogo em uma coroa de flores durante um protesto.<\/p>\n<p>Bem pr\u00f3ximo do conceito de kitsch (lixo) nas artes, o estilo camp pode ser definido como uma grande atra\u00e7\u00e3o para algo de mau gosto ou ir\u00f4nico. Se o primeiro diz respeito a objetos de valor barato, dos gostos populares e do ac\u00famulo da falta de sofistica\u00e7\u00e3o, o camp \u00e9 mais impalp\u00e1vel, expresso nas artes perform\u00e1ticas, na m\u00fasica, na dan\u00e7a, e tamb\u00e9m no teatro de Edward Albee.<\/p>\n<p>O diretor Guilherme Weber, que estreia Pe\u00e7a do Casamento (veja acima) lembra que na pe\u00e7a Quem Tem Medo de Virg\u00ednia Woolf?, cl\u00e1ssico do dramaturgo norte-americano, h\u00e1 um movimento que desloca termos e express\u00f5es para recombin\u00e1-los na dramaturgia, no melhor estilo camp. \u201cO t\u00edtulo da pe\u00e7a j\u00e1 \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o da cantiga presente em contos infantis, com a presen\u00e7a do Lobo Mau. Na pe\u00e7a, ela \u00e9 cantada pela casal quase de forma aleat\u00f3ria, mas dessa vez com o nome de Virg\u00ednia Woolf\u201d, lembra.<\/p>\n<p>O filme estrelado por Elizabeth Taylor tamb\u00e9m dialoga com outra p\u00e9rola do cinema. Em A Filha de Satan\u00e1s (Beyond the Forest), uma Bette Davis entediada desce as escadas, olha para a sala da casa e diz: \u201cWhat a Dump! (Que l ix\u00e3o!)\u201d. \u201cAlbee escreve a mesma fala para Martha na pe\u00e7a, que tamb\u00e9m est\u00e1 no filme.\u201d Weber tamb\u00e9m n\u00e3o perdeu a oportunidade. \u201cDecidi fazer um terceiro deslocamento para a personagem de Pe\u00e7a do Casamento.\u201d Ele acrescenta que Albee foi mestre em construir figuras femininas complexas e que n\u00e3o cabiam em si mesmas. \u201cDizem que suas personagens mulheres s\u00e3o quase como bichas tristes.\u201d<\/p>\n<p>Nesse caminho, a vida e a sexualidade de Albee nunca ficaram de fora de suas obras. Criando situa\u00e7\u00f5es inusitadas, o autor expressou o eterno desconforto de seu desejo desviante no ambiente familiar. Em Zoo Story, o protagonista da pe\u00e7a destilava o \u00f3dio pela fam\u00edlia. Em Tr\u00eas Mulheres Altas, escrita ap\u00f3s a morte da m\u00e3e adotiva de Albee, o autor retrata a rela\u00e7\u00e3o de uma das mulheres com o filho gay.<\/p>\n<p>Em Pe\u00e7a do Casamento, esse olhar \u00e9 mais central ao colocar os dramas de um casal sob o ponto de vista de um menino gay. \u201c\u00c9 com esse \u00e2ngulo que o texto ganha a chance de jogar com a par\u00f3dia e a par\u00e1frase, acentuando o humor\u201d, defende o diretor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 da rotina de pesquisadores e at\u00e9 de artistas usar fen\u00f4menos sociais como objetos de estudo. J\u00e1 dramaturgos como Edward Albee (1928-2016), sempre ser\u00e3o lembrados por transformar temas e tabus sociais em verdadeiros alvos para o ataque. \u00c9 esse o foco do espet\u00e1culo Pe\u00e7a do Casamento, que subiu aos palcos nesta sexta, 8. 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