{"id":202074,"date":"2019-02-10T06:00:59","date_gmt":"2019-02-10T08:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=202074"},"modified":"2019-02-10T06:02:11","modified_gmt":"2019-02-10T08:02:11","slug":"black-earth-chama-atencao-para-massacre-de-ruanda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/black-earth-chama-atencao-para-massacre-de-ruanda\/","title":{"rendered":"&#8216;Black Earth&#8217; chama aten\u00e7\u00e3o para massacre de Ruanda"},"content":{"rendered":"<p>Black Earth Rising quer explicar como e por que o genoc\u00eddio de Ruanda come\u00e7ou, quais os interesses envolvidos ent\u00e3o, o papel dos colonizadores e do mundo na matan\u00e7a e na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A s\u00e9rie, coprodu\u00e7\u00e3o entre a Netflix e a BBC Two que estreou no fim de janeiro no streaming (passou na TV no Reino Unido entre setembro e outubro do ano passado), ainda aponta o dedo para a Igreja, para os tribunais internacionais, para o \u201cpaternalismo ocidental\u201d e para os pol\u00edticos e mostra as marcas do que n\u00e3o pode \u2013 n\u00e3o deve? \u2013 ser esquecido. Ufa. Um punhado de desafios para oito epis\u00f3dios de uma hora cada um.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 centrada em Kate Ashby (a lind\u00edssima Michaela Coel), uma jovem investigadora que nasceu em Ruanda e mora em Londres e que foi salva do genoc\u00eddio pela m\u00e3e, Eve (Harriet Walter), uma renomada advogada especialista em direitos humanos. Ela tem de confrontar o passado, do qual se lembra apenas em vagos flashbacks, quando a m\u00e3e leva ao tribunal um criminoso de guerra. Kate tem a ajuda de Michael Ennis (o sempre \u00f3timo John Goodman) e embarca numa trama misteriosa entre Fran\u00e7a, Inglaterra e Ruanda.<\/p>\n<p>A s\u00e9rie acerta em cheio ao colocar o dedo na ferida em v\u00e1rios momentos. Critica a postura da B\u00e9lgica que, quando da coloniza\u00e7\u00e3o, incentivou a rivalidade entre hutus e tutsis. Enquanto os tutsis faziam parte de uma elite econ\u00f4mica e intelectualmente privilegiada, aos hutus, a maioria dos moradores do pa\u00eds, eram relegadas fun\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas e pouca instru\u00e7\u00e3o. A hist\u00f3ria se inverte com a independ\u00eancia, em 1962, quando os hutus assumem o poder e come\u00e7am as persegui\u00e7\u00f5es aos tutsis e deporta\u00e7\u00f5es \u2013 at\u00e9 o \u00e1pice do horror, de abril a julho de 1994, quando aproximadamente 800 mil tutsis e hutus moderados foram assassinados no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quase sempre por interm\u00e9dio de Kate, Black Earth tamb\u00e9m critica a atua\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a no conflito, acusada de armar e treinar os hutus e s\u00f3 interferir no genoc\u00eddio quando os rebeldes da Frente Patri\u00f3tica de Ruanda (FPR) estavam prestes a tomar o pa\u00eds \u2013 e os franceses s\u00f3 o fizeram, acusa a investigadora, para possibilitar que os hutus escapassem para a vizinha Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo (na \u00e9poca Zaire).<\/p>\n<p>Escrita e dirigida por Hugo Blick, que tamb\u00e9m interpreta o inescrupuloso advogado Blake Gaines, a s\u00e9rie mostra uma Igreja Cat\u00f3lica no m\u00ednimo omissa diante do massacre e p\u00f3s-conflito. E ainda aponta o dedo para o tribunal internacional montado para investigar e punir os criminosos de guerra \u2013 tanto hutus, respons\u00e1veis pelo exterm\u00ednio, quanto os tutsis, que revidaram depois, nos campos de refugiados do Congo. Ao falar dos dias atuais, conta que Ruanda, apesar de ostentar bons \u00edndices econ\u00f4micos, tem uma presidente, Bibi Mundazi (papel de Abena Ayivor), ex-combatente da FPR, no terceiro mandato e que n\u00e3o tolera muito bem a oposi\u00e7\u00e3o \u2013 exatamente como o atual presidente do pa\u00eds, Paul Kagame.<\/p>\n<p>Black Earth Rising ainda acerta ao mostrar algumas das cenas mais chocantes em anima\u00e7\u00e3o em preto em branco, sem perder a dramaticidade. O diretor, no entanto, n\u00e3o poupa o espectador. E, para falar a verdade, isso nem seria poss\u00edvel se a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 contar, mesmo que por alto, a hist\u00f3ria de um genoc\u00eddio. Por isso, ao longo dos oito epis\u00f3dios n\u00e3o faltam assassinatos, envenenamentos, suic\u00eddios e v\u00f4mito, muito v\u00f4mito (de medo, dor, emo\u00e7\u00e3o). H\u00e1 tamb\u00e9m cad\u00e1veres \u2013 nas catacumbas de Paris ou nos memoriais do genoc\u00eddio em Kigali, capital de Ruanda.<\/p>\n<p>Uma das cenas mais tocantes \u00e9 quando, de volta ao pa\u00eds onde nasceu, Kate vai at\u00e9 o que parece ser a igreja de Nyamata, onde, na \u201cvida real\u201d, 50 mil tutsis foram assassinados.<\/p>\n<p>Se em parte parece destinada para \u201ciniciados\u201d no assunto, ao abordar tantos temas em t\u00e3o pouco tempo, Black Earth Rising tem uma import\u00e2ncia fundamental: chamar a aten\u00e7\u00e3o para o massacre de Ruanda, que completa 25 anos em 2019, e que, assim como na \u00e9poca, parece esquecido pelo resto do mundo.<\/p>\n<p>A m\u00fasica de abertura fica a cargo do eterno Leonard Cohen, com You Want It Darker \u2013 e a trilha ainda inclui uma p\u00e9rola de Lou Reed.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Black Earth Rising quer explicar como e por que o genoc\u00eddio de Ruanda come\u00e7ou, quais os interesses envolvidos ent\u00e3o, o papel dos colonizadores e do mundo na matan\u00e7a e na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. 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