{"id":202784,"date":"2019-02-18T06:02:05","date_gmt":"2019-02-18T09:02:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=202784"},"modified":"2019-02-18T06:02:05","modified_gmt":"2019-02-18T09:02:05","slug":"frasco-de-lanca-perfume-da-lugar-a-poesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/frasco-de-lanca-perfume-da-lugar-a-poesia\/","title":{"rendered":"Frasco de lan\u00e7a-perfume d\u00e1 lugar \u00e0 poesia"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Durante muito tempo me deixei levar pelos sentimentos e me degradava, achando que era a solu\u00e7\u00e3o&#8221;. Assim foi a adolesc\u00eancia de Antonio Guerra, de 23 anos. Assolado pela depress\u00e3o e com problemas familiares e de autoestima, o morador da Cidade Tiradentes &#8211; periferia do extremo leste de S\u00e3o Paulo &#8211; saiu de casa aos 17 anos, em 2013, e se entregou \u00e0s drogas, em busca de um al\u00edvio para os problemas emocionais que enfrentava.<\/p>\n<p>Guerra j\u00e1 se entorpecia h\u00e1 algum tempo. Sem um lar, ele morou na rua, passou fome e aumentou o v\u00edcio numa pra\u00e7a da comunidade, apelidada de &#8220;Quadrado&#8221;, onde moradores dividiam espa\u00e7o com viciados e traficantes.<\/p>\n<p>&#8220;Aos 14 anos, a moda na quebrada era o lan\u00e7a-perfume. Maconha era para os caras mais velhos, os &#8216;malocas&#8217; veteranos. L\u00e1 tinha at\u00e9 crian\u00e7a&#8221;, afirma. &#8220;A maioria [da juventude da Cidade Tiradentes] come\u00e7a no lan\u00e7a, e depois vai para a coca\u00edna e afins. Lembro de uma \u00e9poca em que traficantes enchiam frascos de lan\u00e7a-perfume por cinco reais. Aquilo matou v\u00e1rios&#8221;, completa.<\/p>\n<p>As drogas pareciam resumir a vida de Guerra, at\u00e9 ele conhecer o luau cultural Raiz Quadrado, realizado na pra\u00e7a nas noites de domingo, h\u00e1 seis anos. O espa\u00e7o despertou nele a vontade de escrever e recitar poesias, o que o fez repensar a vida e come\u00e7ar a se afastar das drogas &#8211; por mais que ainda fume cigarro de nicotina e beba \u00e1lcool.<\/p>\n<p>O evento atrai n\u00e3o s\u00f3 os dependentes qu\u00edmicos e usu\u00e1rios do local, mas qualquer morador interessado em tocar algum instrumento, cantar, ler textos ou s\u00f3 assistir. &#8220;N\u00f3s acolhemos todos que v\u00e3o l\u00e1, independentemente dos v\u00edcios. Ningu\u00e9m ser\u00e1 julgado. A pessoa vai falar e ser escutada, porque vivemos numa sociedade pl\u00e1stica, que n\u00e3o conversa. Ningu\u00e9m quer saber quem o outro realmente \u00e9. L\u00e1 n\u00e3o \u00e9 e n\u00e3o vai ser assim&#8221;, diz.<\/p>\n<p>A vontade de erguer um debate sobre drogas e amparar as pessoas fez Guerra inovar o luau. Num fim de semana em que limpava a pra\u00e7a para as apresenta\u00e7\u00f5es, ele teve a ideia de pegar os in\u00fameros frascos de lan\u00e7a-perfume jogados no ch\u00e3o, limp\u00e1-los e colocar pequenas poesias dentro deles. O poeta renova os textos todo m\u00eas, os distribui para o p\u00fablico e prop\u00f5e que cada um da plateia leia para os demais.<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o vou dizer que mudou a vida de algu\u00e9m, mas gerou reflex\u00e3o. As pessoas passaram a falar [no luau] o que conhecem sobre as drogas, o que j\u00e1 aconteceu na vida delas, a desabafar mesmo&#8221;, conta. &#8220;J\u00e1 vi usu\u00e1rio de crack e coca\u00edna chegar l\u00e1 e fazer as pessoas chorarem, com palavras po\u00e9ticas, art\u00edsticas&#8221;, diz.<\/p>\n<p>De acordo com a psic\u00f3loga especialista na quest\u00e3o das drogas da ONG \u00c9 De Lei, Maria Ang\u00e9lica Comis, isso \u00e9 importante na medida em que Antonio Guerra n\u00e3o assume uma vis\u00e3o moralista sobre o tema. Al\u00e9m disso, ela acredita que s\u00f3 deixando o terror de lado para conseguir ter uma conversa aberta e sincera com a juventude.<\/p>\n<p>&#8220;Quando voc\u00ea tira o peso moral do assunto, voc\u00ea consegue dialogar mais com a popula\u00e7\u00e3o, porque as pessoas t\u00eam medo de falar que s\u00e3o usu\u00e1rias de drogas il\u00edcitas&#8221;, explica. &#8220;Uma campanha falando que droga mata, por exemplo, cria uma barreira com os adolescentes. Ele ver\u00e1 que o amigo usu\u00e1rio dele n\u00e3o morreu, e o papo vai cair em descr\u00e9dito&#8221;, completa.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o de Antonio Guerra foi registrada em um minidocument\u00e1rio de 22 minutos chamado Lan\u00e7a, em que a artista pl\u00e1stica e diretora da obra Aline Di F\u00e1tima colheu depoimentos para mostrar como o lan\u00e7a-perfume vem matando os jovens. Segundo ela, o filme foi exibido em diversos espa\u00e7os para um p\u00fablico jovem, que mostrou desconhecimento sobre o assunto.<\/p>\n<p>&#8220;Muita gente nunca tinha ouvido falar, porque essas coisas n\u00e3o chegam ainda [na periferia], \u00e9 um assunto desconhecido&#8221;, diz ela, que morou por mais de dez anos na Cidade Tiradentes. A afirma\u00e7\u00e3o se reflete em n\u00fameros: segundo dados n\u00e3o oficiais apresentados no filme, 111 jovens morreram em fun\u00e7\u00e3o do consumo de lan\u00e7a-perfume na capital paulista em 2015, sendo a grande maioria menor de 18 anos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a associa\u00e7\u00e3o Rolezinho, A Voz do Brasil estimou em 2016 que a cada cem jovens que deram entrada em hospitais nos fins de semana da capital paulista, cerca de quatro morrem por uso de lan\u00e7a-perfume e 16 apresentam complica\u00e7\u00f5es causadas pela droga.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0s trag\u00e9dias, Aline revela que ficou interessada em dirigir o filme depois que dois ex-alunos seus, de quando dava aulas de Portugu\u00eas na rede p\u00fablica, morreram ao usar a subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>Trag\u00e9dia silenciosa<\/strong> &#8211; As trag\u00e9dias por lan\u00e7a-perfume s\u00e3o silenciosas no Brasil. Ricardo Sucesso, que coordena a campanha Lan\u00e7a Mata, afirma que n\u00e3o existem dados oficiais sobre as mortes pelo consumo da droga, porque os motivos do \u00f3bito s\u00e3o registrado pelos efeitos dela, como parada cardiorrespirat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o ativista alerta que o sofrimento retratado no filme vai continuar sendo uma realidade enquanto houver a falta de propagandas da Prefeitura de S\u00e3o Paulo que aproximem a juventude dos Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicosocial (Caps). &#8220;Falta di\u00e1logo com as comunidades, e o distanciamento geralmente se d\u00e1 por falta de informa\u00e7\u00e3o&#8221;, explica.<\/p>\n<p>A Cidade Tiradentes conta com uma unidade da Caps, mas tanto Aline quanto Guerra afirmam que o trabalho da institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se aproxima dos dependentes qu\u00edmicos do distrito com efic\u00e1cia. &#8220;Existe um bloqueio das pessoas ao se abrigarem nesses lugares ou procurarem ajuda. A divulga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o forte&#8221;, critica o poeta, que em nenhum momento recebeu amparo do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>A presidente do Conselho Municipal de Pol\u00edticas de Drogas e \u00c1lcool de S\u00e3o Paulo (Comuda), Nath\u00e1lia Oliveira, destaca que profissionais de sa\u00fade est\u00e3o h\u00e1 pelo menos cinco anos alertando os governos sobre o consumo de lan\u00e7a-perfume, mas nada \u00e9 feito, o que, em sua vis\u00e3o, refor\u00e7a a import\u00e2ncia do filme Lan\u00e7a. &#8220;O document\u00e1rio apresenta uma linguagem que comunica [o problema de depend\u00eancia qu\u00edmica] de jovem para jovem, aumentando o alcance e o impacto das mensagens de conscientiza\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma.<\/p>\n<p><strong>Os males<\/strong> &#8211; A droga \u00e9 produzida por solventes qu\u00edmicos, como clorof\u00f3rmio, ingredientes de tintas, verniz e \u00e1gua de bateria. Essas subst\u00e2ncias s\u00e3o misturadas com aromas e colocadas sob alta press\u00e3o dentro de frascos, podendo acelerar os batimentos card\u00edacos e gerar alucina\u00e7\u00f5es acompanhadas de formigamento e sensa\u00e7\u00e3o de felicidade.<\/p>\n<p>Os efeitos duram at\u00e9 30 minutos, mas as consequ\u00eancias podem ser eternas. O entorpecente causa danos aos rins, f\u00edgado, sistema nervoso central &#8211; importante para o equil\u00edbrio do corpo -, cardiovascular, aumenta as chances de ter c\u00e2ncer e pode matar em uma \u00fanica inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante desses problemas, Guerra diz continuar firme na sua iniciativa art\u00edstica para reduzir os danos da droga. Ele destaca que n\u00e3o \u00e9 a salva\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m, mas que, no meio das dificuldades, segue acreditando no potencial que existe nas vielas e ruas da Cidade Tiradentes. &#8220;\u00c9 aqui que nasce a verdadeira arte. Sair das drogas \u00e9 uma grande metamorfose por aqui. Cada dia voc\u00ea desconstr\u00f3i um passo ao lado de pessoas que o mundo n\u00e3o ouve&#8221;, conclui o poeta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Durante muito tempo me deixei levar pelos sentimentos e me degradava, achando que era a solu\u00e7\u00e3o&#8221;. Assim foi a adolesc\u00eancia de Antonio Guerra, de 23 anos. 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