{"id":203971,"date":"2019-03-03T10:17:50","date_gmt":"2019-03-03T13:17:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=203971"},"modified":"2019-03-03T10:47:11","modified_gmt":"2019-03-03T13:47:11","slug":"militares-vao-bem-na-politica-externa-mas-o-itaramaty","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/militares-vao-bem-na-politica-externa-mas-o-itaramaty\/","title":{"rendered":"Militares v\u00e3o bem na pol\u00edtica externa, mas o Itamaraty&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O Brasil est\u00e1 sendo confrontado com sua Hist\u00f3ria. Quem leu o texto recente de Rubens Ricupero sobre a pol\u00edtica externa do governo Bolsonaro perceber\u00e1 os descaminhos pelos quais poderemos enveredar. Diante dos ensaios de ruptura com as tradi\u00e7\u00f5es de nossa pol\u00edtica externa, empalidecem as diferen\u00e7as de matiz pol\u00edtico-ideol\u00f3gico observadas desde Jos\u00e9 Sarney at\u00e9 Michel Temer. Basta ler o livro Um Diplomata a Servi\u00e7o do Estado, do embaixador Rubens Barbosa, para ver que se manteve certo consenso b\u00e1sico sobre o interesse nacional e sobre o modo de adequ\u00e1-lo a mudan\u00e7as nos ventos do mundo.<\/p>\n<p>Historicamente a condu\u00e7\u00e3o da nossa pol\u00edtica externa obedeceu a linhas de continuidade, com raras exce\u00e7\u00f5es em per\u00edodos n\u00e3o democr\u00e1ticos. \u00c9 ao bar\u00e3o do Rio Branco que se atribui a no\u00e7\u00e3o de que dever\u00edamos manter boas rela\u00e7\u00f5es com os Estados Unidos para fazer o que nos conv\u00e9m na \u00e1rea que nos toca mais de perto, a Am\u00e9rica do Sul. Na guerra contra o nazismo at\u00e9 bases estrangeiras foram autorizadas a se instalar no Brasil. Mas foi um momento hist\u00f3rico excepcional a requerer que ag\u00edssemos assim. Em regra, nunca houve ades\u00f5es incondicionais: primaram nossos interesses soberanos. Mesmo na guerra fria, quando o bloco capitalista se opunha ao bloco comunista, buscamos manter certa autonomia.<\/p>\n<p>Com a globaliza\u00e7\u00e3o muita coisa mudou no ambiente pol\u00edtico e, sobretudo, na interconex\u00e3o econ\u00f4mica dos pa\u00edses. A diplomacia brasileira, por\u00e9m, n\u00e3o deixou de se orientar pelo interesse nacional. Em artigo recente publicado neste espa\u00e7o disse que o atual governo abusa da inconsist\u00eancia em certas \u00e1reas. Para onde nos pode levar esse \u201cabuso da inconsist\u00eancia\u201d na pol\u00edtica externa?<\/p>\n<p>Entende-se que haja incertezas na atualidade, advindas da nova p\u00e1gina que se est\u00e1 abrindo nas rela\u00e7\u00f5es entre os Estados Unidos e a China. A aceita\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, obtida gra\u00e7as \u00e0s reformas de Deng Xiaoping, \u00e0s teorias sobre o \u201csocialismo harmonioso\u201d e \u00e0 ascens\u00e3o pac\u00edfica da China, come\u00e7a a mudar. Os chineses queriam evitar a \u201carmadilha de Tuc\u00eddides\u201d: a emerg\u00eancia de nova pot\u00eancia levaria a guerras com o antigo hegemon. Assim, o pa\u00eds abriu a sua economia para capitais internacionais o usarem como plataforma de exporta\u00e7\u00e3o e se tornou o principal financiador do d\u00e9ficit comercial dos Estados Unidos, comprando t\u00edtulos do Tesouro americano. Essa estrat\u00e9gia assegurou tempo e gerou os recursos necess\u00e1rios para que a China ampliasse o mercado interno e investisse na forma\u00e7\u00e3o de empresas globais capazes de disputar a lideran\u00e7a tecnol\u00f3gica com suas rivais americanas.<\/p>\n<p>Estamos chegando a uma profunda revis\u00e3o dessas pol\u00edticas, adotadas quando a coincid\u00eancia de interesses prevaleceu sobre a rivalidade, em ambas as partes. A luta tecnol\u00f3gica pelo predom\u00ednio no mundo globalizado pode produzir surpresas desagrad\u00e1veis. Por tr\u00e1s da ret\u00f3rica arrogante e aparentemente desconexa de Trump existe uma luta real pelo predom\u00ednio global. A chamada \u201cguerra comercial\u201d \u00e9 um sintoma dessa disputa nas tecnologias determinantes do poder futuro, na economia e no campo da seguran\u00e7a. As tens\u00f5es no Pac\u00edfico, do sul da costa chinesa ao litoral do Vietn\u00e3, s\u00e3o a face mais vis\u00edvel da dimens\u00e3o militar do conflito entre as duas pot\u00eancias. O antagonismo ainda \u00e9 mais agudo no ciberespa\u00e7o, onde batalhas s\u00e3o travadas diariamente.<\/p>\n<p>Nesse quadro, que interesse poderia ter o Brasil em assumir a priori um dos lados da disputa? Os que sustentam que devemos alinhar-nos em tudo \u00e0 Casa Branca desconhecem que a sociedade americana \u00e9 democr\u00e1tica e seu atual ocupante n\u00e3o expressa necessariamente um consenso duradouro. Vamos transferir a embaixada em Israel de Tel-Aviv, contrariando nossa hist\u00f3rica prega\u00e7\u00e3o em favor de dois Estados naquela regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio?<\/p>\n<p>E que sentido faz criticar a pr\u00f3pria ONU como suspeita de \u201cglobalismo\u201d, do qual ela seria o instrumento? A \u00fanica consequ\u00eancia pr\u00e1tica \u00e9 macular a imagem do Brasil em \u00e1reas t\u00e3o sens\u00edveis e importantes quanto o s\u00e3o os direitos humanos, o meio ambiente e a imigra\u00e7\u00e3o. O dano \u00e0 imagem do Pa\u00eds, uma vez cristalizado, ter\u00e1 consequ\u00eancias contra os nossos interesses, como j\u00e1 se deram conta os setores mais l\u00facidos do empresariado brasileiro.<\/p>\n<p>Insistir\u00e1 o governo no descaminho de subordinar a pol\u00edtica externa a uma ideologia, e n\u00e3o \u00e0s realidades? Em nenhum outro lugar as consequ\u00eancias dessa reviravolta seriam mais nocivas que na nossa vizinhan\u00e7a. A crise da Venezuela se aprofunda. O caso remete \u00e0 \u201cpol\u00edtica do bar\u00e3o\u201d, pois mexe com nossos interesses mais imediatos, na Am\u00e9rica do Sul. \u00c9 de louvar a prud\u00eancia dos militares, mas \u00e9 de temer a vocaliza\u00e7\u00e3o de alguns l\u00edderes pol\u00edticos sobre nossa a\u00e7\u00e3o nesse drama. Sejamos claros: o governo Maduro \u00e9 antidemocr\u00e1tico e insustent\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 de hoje que tenho me manifestado publicamente dessa maneira, em reuni\u00f5es internacionais, acad\u00eamicas e pol\u00edticas. Contudo falar em permitir bases estrangeiras em territ\u00f3rio nacional ou em abrir caminho para aventuras guerreiras nas nossas vizinhan\u00e7as n\u00e3o tem nada que ver com os interesses brasileiros de longo prazo. E em pol\u00edtica externa \u00e9 disso que se trata.<\/p>\n<p>Apoiar a oposi\u00e7\u00e3o venezuelana \u00e9 uma coisa. Imaginar que se deva fazer o que foi feito na L\u00edbia, pensando que for\u00e7as externas podem reconstruir a democracia no pa\u00eds, \u00e9 ignorar os fatos. Os desatinos verbais t\u00eam sido de tal ordem que resta o consolo de ver os militares recordarem que temos uma tradi\u00e7\u00e3o de altanaria e soberania a respeitar, soberania nossa e dos demais pa\u00edses.<\/p>\n<p>Bom mesmo seria ver o Itamaraty voltar a ser coerente com sua tradi\u00e7\u00e3o: ressaltar e criticar o autoritarismo predominante na Venezuela, apoiar a oposi\u00e7\u00e3o, dar acolhida \u00e0s v\u00edtimas do arb\u00edtrio do atual governo e manter acesa a chama democr\u00e1tica. Abrir espa\u00e7o para que terceiros pa\u00edses, mormente distantes da Am\u00e9rica do Sul, queiram resolver o drama pol\u00edtico pela for\u00e7a n\u00e3o nos conv\u00e9m e fere nossas melhores tradi\u00e7\u00f5es de atua\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil est\u00e1 sendo confrontado com sua Hist\u00f3ria. Quem leu o texto recente de Rubens Ricupero sobre a pol\u00edtica externa do governo Bolsonaro perceber\u00e1 os descaminhos pelos quais poderemos enveredar. Diante dos ensaios de ruptura com as tradi\u00e7\u00f5es de nossa pol\u00edtica externa, empalidecem as diferen\u00e7as de matiz pol\u00edtico-ideol\u00f3gico observadas desde Jos\u00e9 Sarney at\u00e9 Michel Temer. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":197513,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-203971","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203971","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=203971"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203971\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":203975,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/203971\/revisions\/203975"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/197513"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=203971"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=203971"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=203971"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}