{"id":204112,"date":"2019-03-05T03:06:55","date_gmt":"2019-03-05T06:06:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=204112"},"modified":"2019-03-05T10:10:25","modified_gmt":"2019-03-05T13:10:25","slug":"lindo-nao-e-mesmo-mas-e-se-for-copia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lindo-nao-e-mesmo-mas-e-se-for-copia\/","title":{"rendered":"Lindo, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Mas, e se for c\u00f3pia?"},"content":{"rendered":"<p>Num sal\u00e3o do Museu Nacional de Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Americana do Instituto Smithsoniano, pode-se ver o Painel n\u00ba 1 das 60 pinturas de Jacob Lawrence da s\u00e9rie Migra\u00e7\u00e3o. Instalada como parte da exposi\u00e7\u00e3o Defendendo a Liberdade, Definindo a Liberdade, a pintura mostra a migra\u00e7\u00e3o para o norte de milh\u00f5es de afro-americanos depois da 1.\u00aa Guerra Mundial \u2013 uma multid\u00e3o de figuras abstratas em verde e negro rumando para Chicago, Nova York e Saint Louis e lotando uma esta\u00e7\u00e3o de trem.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar um lugar mais apropriado para se ver essa obra. No entanto, o Lawrence do museu n\u00e3o \u00e9 verdadeiro, mas uma fotografia do original. A pintura real est\u00e1 na Phillips Collection, dona dos pain\u00e9is de numera\u00e7\u00e3o \u00edmpar da s\u00e9rie (os de n\u00fameros pares pertencem ao Museu de Arte Moderna de Nova York). A \u00fanica pista de que se trata de uma c\u00f3pia \u00e9 uma refer\u00eancia no cart\u00e3o pr\u00f3ximo a ela, no qual se l\u00ea: \u201cLawrence Jacob (1917-2000) \/ The Phillips Collection, Washington, D.C., USA \/ Adquirido em 1942 \/ Bridgeman Images\u201d.<\/p>\n<p>Bridgeman \u00e9 uma empresa que tem o direito de reproduzir obras \u2013 mas, se voc\u00ea n\u00e3o souber disso, pode n\u00e3o perceber que est\u00e1 vendo uma c\u00f3pia. Um porta-voz do Museu Afro-Americano n\u00e3o quis comentar os termos vagos descrevendo a c\u00f3pia do Painel n\u00ba 1. J\u00e1 uma porta-voz da Phillips Collection disse que o museu particular do Dupont Circle, D.C., tem conhecimento da c\u00f3pia exibida no museu Afro-Americano, mas n\u00e3o comentaria a forma como est\u00e1 sendo apresentada.<\/p>\n<p>Existem, por\u00e9m, curadores e funcion\u00e1rios de museus que consideram que a ideia de se exibir c\u00f3pias sem uma clara admiss\u00e3o do fato vai contra a fun\u00e7\u00e3o educacional dos museus. Graham Beal, que se aposentou em 2015 ap\u00f3s 16 anos como diretor do Instituto de Artes de Detroit, disse que a institui\u00e7\u00e3o exibe reprodu\u00e7\u00f5es ao lado de obras originais, mas n\u00e3o as emoldura (como o museu Afro-Americano fez com a c\u00f3pia de Lawrence) e as apresenta claramente como reprodu\u00e7\u00f5es. \u201cNunca soube nem ouvi falar de um museu recorrendo a tal subterf\u00fagio\u201d, disse ele. \u201cA coisa que os museus mais devem prezar \u00e9 a autenticidade. Museus deveriam ser o oposto de fake news.\u201d<\/p>\n<p>Gary Vikan, que dirigiu por quase 20 anos o Walters Art Museum, de Baltimore, preocupa-se com a possibilidade de um turista, vendo uma c\u00f3pia de uma grande obra, \u201cembarque no avi\u00e3o levando consigo uma imagem que n\u00e3o \u00e9 verdadeira\u201d, embora n\u00e3o por culpa sua. \u201cSomos enganados na internet. Somos enganados pela Casa Branca. Ser\u00e1 que estamos nos sentindo mais confort\u00e1veis com a mentira?\u201d, pergunta ele.<\/p>\n<p>Mesmo funcion\u00e1rios antigos e atuais do Smithsonian ficaram surpresos ao saber de c\u00f3pias n\u00e3o identificadas como tal. \u201cEu ficaria surpreso se isso acontecesse\u201d, disse Peter Liebhold, curador da divis\u00e3o de ind\u00fastria e trabalho do Museu Nacional de Hist\u00f3ria Americana. Steven Lubar, ex-coordenador da divis\u00e3o de tecnologia do Museu de Hist\u00f3ria Americana e atualmente professor da Universidade Brown, disse que a c\u00f3pia de Lawrence deveria ser claramente etiquetada como tal. \u201cSe voc\u00ea apresenta algo como o original e p\u00f5e em moldura, precisa informar isso\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A vaga descri\u00e7\u00e3o do painel de Lawrence poderia facilmente passar em branco se essa n\u00e3o fosse apenas uma de centenas de c\u00f3pias de obras de arte, objetos e esp\u00e9cimes em exibi\u00e7\u00e3o em reputadas institui\u00e7\u00f5es culturais de toda Washington. Museus, \u00e9 claro, t\u00eam raz\u00f5es pr\u00e1ticas para exibir, digamos, um esqueleto de dinossauro composto de ossos reais e falsos em lugar do f\u00f3ssil completo, ou mostrar um modelo de c\u00e1psula espacial em vez da que orbitou em torno da Terra. Mas o papel das c\u00f3pias levanta muitas d\u00favidas sobre a miss\u00e3o dos museus e a natureza da autenticidade, d\u00favidas como: \u201cfaz diferen\u00e7a se as obras de arte ou os objetos hist\u00f3ricos em exibi\u00e7\u00e3o s\u00e3o c\u00f3pias? Isso diminui a import\u00e2ncia das experi\u00eancias dos visitantes? As institui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o identificam claramente as c\u00f3pias est\u00e3o fugindo de sua responsabilidade com o p\u00fablico?\u201d.<\/p>\n<p>O Lawrence do Museu Afro-Americano ficou \u00f3bvio para mim quando eu estava numa coletiva de imprensa poucos meses antes de sua exibi\u00e7\u00e3o para o p\u00fablico. Eu j\u00e1 havia visto dezenas de vezes o original na Phillips. Quando voltei ao museu, pouco menos de um ano depois, fiquei surpreso ao ver que a c\u00f3pia continuava l\u00e1, com o mesmo cart\u00e3o vago. Decidi ent\u00e3o procurar outros exemplos de arte e artefatos falsos que s\u00e3o facilmente tomados pelos originais.<\/p>\n<p>Num dia chuvoso de outubro, dei in\u00edcio \u00e0 minha peculiar ca\u00e7ada, come\u00e7ando pelo Museu Nacional do \u00cdndio Americano e avan\u00e7ando pelo National Mall durante uma semana e meia. Levei em torno de duas horas em cada parada (o Museu Nacional de Hist\u00f3ria Natural, onde s\u00f3 de minerais h\u00e1 2.500 objetos, levou cinco horas). Quando terminei com o Mall, fui para o Museu Smithsonian de Arte Americana e para a National Portrait Gallery, depois para a Phillips. Minha \u00faltima parada foi na Smithsonian\u2019s Renwick Gallery. No total, visitei 12 museus Smithsonians, a National Gallery e a Phillips, esmiu\u00e7ando os r\u00f3tulos de v\u00e1rios milhares de obras de arte e artefatos.<\/p>\n<p>Descobri que muitos dos objetos que cativaram dezenas de milh\u00f5es de visitantes anuais n\u00e3o eram aut\u00eanticos, ou pelo menos n\u00e3o do modo que os visitantes acreditavam. Para deixar claro, objetos n\u00e3o aut\u00eanticos representam uma pequena porcentagem dos imensos acervos do Smithsonian e da National Gallery, e a esmagadora maioria de c\u00f3pias \u00e9 classificada como n\u00e3o aut\u00eantica. Entretanto, curadores e dirigentes de museus admitem prontamente que os visitantes n\u00e3o leem muitas das etiquetas. E, quando eventualmente chegam \u00e0s letras pequenas, cabe-lhes o \u00f4nus de analisar os variados e frequentemente confusos termos usados.<\/p>\n<p>No Hirshhorn Sculpture Garden, os visitantes podem vagar apreciando as esculturas de Rodin Os Burgueses de Calais, Monumento a Balzac, A Mulher de C\u00f3coras e L\u2019Home qui Marche. Mas, a menos que as pessoas levem algum tempo examinando os r\u00f3tulos, n\u00e3o deduziriam que Rodin, morto em 1917, n\u00e3o poderia nunca ter tocado essas escultura espec\u00edficas, fundidas entre 1953 e 1966. Um r\u00f3tulo, por exemplo, diz: \u201cAuguste Rodin, franc\u00eas, nascido em Paris, 1840-1917, A Mulher de C\u00f3coras, 1880-82, ampliada em 1907, fundida em bronze em 1962. Doa\u00e7\u00e3o de Joseph H. Hirshhorn, 1966\u201d.<\/p>\n<p>O mesmo \u00e9 verdade para uma das duas esculturas A Pequena Bailarina de 14 Anos, da National Gallery of Art, atribu\u00eddas a Edgar Degas. Uma das duas pequenas bailarinas (em cera) existentes na National Gallery \u00e9 a \u00fanica que Degas tocou; a outra, em gesso, foi feita postumamente. Herdeiros de Degas autorizaram a reprodu\u00e7\u00e3o de algumas de suas esculturas \u2013 originalmente em materiais perec\u00edveis como cera e massa de modelagem \u2013, embora o pr\u00f3prio Degas n\u00e3o autorizasse ningu\u00e9m a fazer isso ap\u00f3s sua morte. As bailarinas est\u00e3o entre 60 esculturas de Degas existentes no museu.<\/p>\n<p>O r\u00f3tulo da Pequena Bailarina de gesso assinala que Degas viveu de 1834 a 1917 e que a reprodu\u00e7\u00e3o foi feita possivelmente em 1920 ou 1921. \u00c9 razo\u00e1vel deduzir que muitos turistas nunca juntaram essas informa\u00e7\u00f5es \u2013 uma porta-voz do museu disse que herdeiros de Degas autorizaram a fundi\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma em bronze para preservar e exibir \u201cum aspecto crucial da criatividade de Degas\u201d que, de outro modo, estaria em risco de se desintegrar dada a fragilidade do material da escultura \u2013 e que a reprodu\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma em gesso foi feita antes de a escultura original ir para restaura\u00e7\u00e3o, e isso permite aos visitantes comparar as duas.<\/p>\n<p>O Hirshhorm foi um dos primeiros museus do mundo a p\u00f4r nos r\u00f3tulos as datas de fundi\u00e7\u00f5es e reprodu\u00e7\u00f5es, disse-me a ex-curadora Valeri Fletcher. Nas institui\u00e7\u00f5es que percorri, os visitantes precisariam \u00e0s vezes ler a mente dos curadores para saber se certas obras s\u00e3o mesmo as originais. Nos r\u00f3tulos e textos de parede de museus, curadores usam amplamente uma terminologia inconsistente. Alguns termos \u2013 como \u201cr\u00e9plica\u201d, \u201cc\u00f3pia\u201d, \u201creconstru\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cfac-s\u00edmile\u201d, \u201creprodu\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cmodelo em escala\u201d s\u00e3o geralmente compreens\u00edveis. Mas outros s\u00e3o mais esot\u00e9ricos, como \u201crestaura\u00e7\u00e3o conjectural\u201d, \u201cartigo para teste de prova\u201d e \u201cmodelo para teste de engenharia\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num sal\u00e3o do Museu Nacional de Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Americana do Instituto Smithsoniano, pode-se ver o Painel n\u00ba 1 das 60 pinturas de Jacob Lawrence da s\u00e9rie Migra\u00e7\u00e3o. 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