{"id":204807,"date":"2019-03-16T03:32:24","date_gmt":"2019-03-16T06:32:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=204807"},"modified":"2019-03-16T03:32:24","modified_gmt":"2019-03-16T06:32:24","slug":"limpando-aqui-e-ali-e-vivendo-com-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/limpando-aqui-e-ali-e-vivendo-com-liberdade\/","title":{"rendered":"Limpando aqui e ali, e vivendo com liberdade"},"content":{"rendered":"<p>Marlene de Ara\u00fajo, 55 anos, baiana, m\u00e3e de tr\u00eas homens, av\u00f3 de duas meninas e um menino, integrante da equipe de varri\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Limpeza Urbana (SLU) h\u00e1 11 anos. Este \u00e9 o perfil de Dona Marlene, como \u00e9 carinhosamente chamada pelos colegas de trabalho.<\/p>\n<p>Chegou a Bras\u00edlia em 1988. Veio acompanhada pelo ent\u00e3o companheiro. Foi empregada dom\u00e9stica, trabalhou no com\u00e9rcio e depois conquistou a carteira assinada no SLU. Moradora do Recanto das Emas, ela viveu uma hist\u00f3ria que se confunde com a de milhares de outras mulheres brasileiras.<\/p>\n<p>Na inf\u00e2ncia, os pais proibiram sua ida \u00e0 escola. Na juventude, encontrou um companheiro que a agredia f\u00edsica e moralmente. Enfrentou todas essas dificuldades e, no trabalho, encontrou o caminho para resgatar sua qualidade de vida.<\/p>\n<p><strong>Como foi sua inf\u00e2ncia? A senhora considera que foi reprimida por seus pais por ser mulher?<\/strong><\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o nossa foi do jeito que minha m\u00e3e falava e era bem assim: \u201cSe voc\u00ea casar, voc\u00ea tem que aguentar o marido! Pode ser o que for. Voc\u00ea tem que aguentar\u201d. Acho que muitas mulheres, no Brasil todo, sofrem demais por causa dos pais. Comigo era assim: \u201cSe o marido bater e tudo mais, mas voc\u00ea casou com ele, ent\u00e3o, tem que aguentar\u201d. Por isto, a gente tinha que engolir. Hoje em dia, as mulheres aguentam porque querem. Se quiser mesmo, de verdade, homem nenhum no mundo pode segurar. N\u00e3o tenho vergonha de falar. Minha vida j\u00e1 foi muito sofrida. J\u00e1 tomei rem\u00e9dio para n\u00e3o morrer de tanto sofrimento que passei com meu marido. Hoje, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o quero morrer de jeito nenhum, minha filha! Quero morrer de amor\u2026de alegria!<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, a senhora foi criada para ficar casada mesmo sendo agredida?<\/strong><\/p>\n<p>Fiquei 25 anos casada e sofrendo agress\u00f5es. Eu acho que sentia obriga\u00e7\u00e3o de continuar casada com ele. Era um medo que eu tinha das conversas de minha m\u00e3e e meu pai. Tinha vergonha.<\/p>\n<p><strong>E os estudos? A senhora frequentou a escola na inf\u00e2ncia?<\/strong><\/p>\n<p>Eu era do interior da Bahia. Meu pai n\u00e3o deixava a gente estudar de jeito nenhum. \u201cPra que filha mulher estudar? Vai estudar pra escrever carta pra macho?\u201d. \u201cA caneta delas \u00e9 a enxada\u201d. Essas eram as frases dele. O tempo todo dizia isso para n\u00f3s. Quando a professora ia at\u00e9 nossa casa para dar aula, papai logo botava a gente para ir dormir, eu e minhas duas irm\u00e3s. Mesmo sem sono, ele mandava e a gente tinha que obedecer. Eu ainda aprendi um pouquinho porque tinha uma cunhada da minha irm\u00e3 que era professora e me dava aula \u00e0s escondidas de vez em quando. Bem mais tarde foi que meu pai viu o que eu estava fazendo. Ent\u00e3o, meus irm\u00e3os foram estudar. As mulheres foram para a escola j\u00e1 mo\u00e7as grandes.<\/p>\n<p><strong>E depois, quando saiu da casa dos pais, a senhora frequentou a escola?<\/strong><\/p>\n<p>S\u00f3 agora tive a oportunidade de voltar os estudos. Tinha tentado v\u00e1rias vezes. Um tempo atr\u00e1s, entrei numa escola do Recanto [das Emas] para estudar \u00e0 noite, mas parei de ir. Um dia, meu marido foi me buscar e me xingou. Morri de vergonha e n\u00e3o quis mais voltar. Agora, vou retomar os estudos aqui na empresa mesmo. Eles t\u00eam um programa de educa\u00e7\u00e3o para adultos.<\/p>\n<p><strong>Por que seu marido a agredia?<\/strong><\/p>\n<p>Ele come\u00e7ou a beber, usar drogas e eu s\u00f3 sofrendo, sempre fazendo servi\u00e7o para um e para outro, nas casas de fam\u00edlia. Foi aparecendo menino e meu sonho era ter um filho. Ai, tive o meu filho mais velho. Depois veio mais outro filho e veio mais outro \u2013 e eu sofrendo as agress\u00f5es dele. Quando fui trabalhar, as coisas em casa pioraram. Todo dia era um nome mais feio. Me xingava mesmo. Isso aqui [aponta um pouco acima da sobrancelha direita]\u2026Tenho o maior desgosto quando olho no espelho e vejo essa cicatriz. Um dia cheguei do servi\u00e7o cansada, com febre, por volta do meio-dia, para fazer o almo\u00e7o para os meninos. Ele estava escondido e bateu o port\u00e3o na minha cara. Ele gritava que eu estava tendo um caso, que era vagabunda. Foi muito sofrimento.<\/p>\n<p><strong>Quando ele parou de agredir a senhora?<\/strong><\/p>\n<p>Quando entrei na empresa, h\u00e1 11 anos, eu disse para ele: \u201cHoje eu tenho meu sal\u00e1rio. Nunca mais voc\u00ea trisca a m\u00e3o em mim!\u201d. Quem tem filho pequeno que n\u00e3o tem quem [com quem deixar para] olhar, acaba comprando as coisas para dar suporte. Eu comprava televis\u00e3o nova, DVD, r\u00e1dio\u2026comprava tudo para os meninos ficarem em casa e n\u00e3o sair. Ele [o marido] vendia tudo para fazer dinheiro para beber pinga e usar drogas. Eu n\u00e3o ia atr\u00e1s porque ele vendia tudo em boca de fumo, e era perigoso. Ent\u00e3o, eu deixava de m\u00e3o. Sa\u00eda sempre no preju\u00edzo.<\/p>\n<p><strong>A senhora denunciava as agress\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p>Eu j\u00e1 tinha denunciado na delegacia v\u00e1rias vezes. [A pol\u00edcia o] prendia e soltava. At\u00e9 que um dia eu dei um basta nisso. Entrei durante uma audi\u00eancia no F\u00f3rum da Samambaia e pedi pelo amor de Deus para o juiz que tirasse ele l\u00e1 de casa. Passei mal na hora, chorava muito e minha press\u00e3o subiu demais. Eu gritava: \u201cDoutor, o senhor tira ele l\u00e1 de casa hoje! Vou me matar ou mato ele! \u201d Por um tempo, deu certo.<\/p>\n<p><strong>Como o trabalho a ajudou?<\/strong><\/p>\n<p>Tenho 55 anos e trabalho sempre com disposi\u00e7\u00e3o. Amo meu servi\u00e7o e fa\u00e7o tudo por ele. O trabalho me liberta. Eu n\u00e3o conhecia Bras\u00edlia. Meu marido n\u00e3o me deixava nem sair de casa. E hoje, por causa do meu emprego, conhe\u00e7o todo o Distrito Federal. Gra\u00e7as a Deus, sou vi\u00fava. Quero \u00e9 arrumar um namorado, um homem que me ajude, que seja companheiro de verdade.<\/p>\n<p><strong>Do que a senhora mais gosta no seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Da paz. Aqui tem paz. Passo oito horas varrendo as ruas. Converso com uma pessoa e com outra. Se estiver com algum problema, voc\u00ea at\u00e9 esquece. \u00c9 como uma terapia. Trabalho ao lado da Nalva [citando uma colega] desde quando entrei aqui. N\u00e3o separam a gente. Somos parceiras, amigas, colegas de trabalho. \u00c0s vezes, a gente vai para as festas, sa\u00edmos juntas, contamos as hist\u00f3rias das fam\u00edlias, dividimos muito as coisas.<\/p>\n<p><strong>Qual conselho a senhora daria a outras mulheres que sofrem viol\u00eancia dom\u00e9stica?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira coisa que a mulher precisa fazer \u00e9 criar coragem de trabalhar, ir \u00e0 luta, enfrentar a vida. As amea\u00e7as dos maridos, que prometem matar e bater, t\u00eam que deixar de lado, porque hoje em dia as mulheres t\u00eam tudo nas m\u00e3os para se verem livre de homens desse tipo. N\u00f3s, mulheres, hoje temos todo mundo do nosso lado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marlene de Ara\u00fajo, 55 anos, baiana, m\u00e3e de tr\u00eas homens, av\u00f3 de duas meninas e um menino, integrante da equipe de varri\u00e7\u00e3o do Servi\u00e7o de Limpeza Urbana (SLU) h\u00e1 11 anos. Este \u00e9 o perfil de Dona Marlene, como \u00e9 carinhosamente chamada pelos colegas de trabalho. Chegou a Bras\u00edlia em 1988. 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