{"id":204876,"date":"2019-03-17T03:42:30","date_gmt":"2019-03-17T06:42:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=204876"},"modified":"2019-03-17T03:42:30","modified_gmt":"2019-03-17T06:42:30","slug":"quadrinhos-monstruosos-que-vao-fazendo-sucesso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quadrinhos-monstruosos-que-vao-fazendo-sucesso\/","title":{"rendered":"Quadrinhos monstruosos que v\u00e3o fazendo sucesso"},"content":{"rendered":"<p>Um par de canetas Bic, afinal, pode servir \u00e0 grande arte: \u00e9 o que prova Emil Ferris e o seu Minha Coisa Favorita \u00c9 Monstro, graphic novel incomum e poderosa que fez a autora, estreante no formato livro, arrebanhar tr\u00eas pr\u00eamios Eisner bem como o Fauve d\u2019Or, a principal distin\u00e7\u00e3o do Festival de Angoul\u00eame.<\/p>\n<p>Descendente de pais artistas (e meio quebrados, como ela conta), Ferris trabalhou por anos como desenhista industrial e designer (para marcas como o McDonald\u2019s). Mas foi com o Monstro que Ferris viu a repercuss\u00e3o de seu trabalho atingir marcas antes in\u00e9ditas para ela. Um de seus \u00eddolos, Art Spiegelman (de Maus), depois de ver o livro disse: \u201cEmil Ferris \u00e9 uma das artistas de quadrinhos mais importantes do nosso tempo\u201d.<\/p>\n<p>Desenhado com canetas Bic e canetinhas, o livro emula um di\u00e1rio gr\u00e1fico de Karen, garota de 10 anos apaixonada por filmes de monstros e por belas-artes, retratada por si mesma como uma \u201clobis-mo\u00e7a\u201d \u2013 na verdade, boa parte dos personagens do livro s\u00e3o retratados como monstros. Os quadros pouco ortodoxos est\u00e3o sobre folhas pautadas de caderno, e Ferris conta que come\u00e7ou a desenhar num caderno de fato, mas depois passou a trabalhar em camadas por conta da edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAchei um caderno antigo, de quando estava na segunda s\u00e9rie. Tamb\u00e9m era em caneta Bic, ent\u00e3o quando fiz o livro eu estava reprisando, copiando, ressuscitando (e essa \u00e9 uma boa palavra) um jeito antigo de trabalhar, algo que fiz quando era crian\u00e7a\u201d, explica a autora, com voz calma e sintaxe elegante, por telefone, de sua casa em Chicago, onde nasceu. \u201cO que eu tinha dispon\u00edvel eram meus cadernos de escola e as canetas. Era assim que desenhava e agora retornei a isso.\u201d<\/p>\n<p>Situado numa vizinhan\u00e7a multi\u00e9tnica de Chicago no fim dos anos 1960, o livro segue os anseios da garota e funciona como pr\u00e9via de um romance de forma\u00e7\u00e3o (um segundo volume est\u00e1 sendo preparado por Ferris), mas tamb\u00e9m como livro policial \u2013 uma vizinha da fam\u00edlia morre assassinada em circunst\u00e2ncias misteriosas, e a investiga\u00e7\u00e3o da jovem \u201cdetetive\u201d, dona de uma curiosidade inabal\u00e1vel, conduz o livro. Isso tudo numa atmosfera noir que n\u00e3o deixa de lado aspectos de horror, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e surrealismo.<\/p>\n<p>\u201cSomos todos monstros\u201d, diz. \u201cPodem at\u00e9 haver seres fora de n\u00f3s que nos digam para fazer certas coisas, mas a verdade \u00e9 que monstros aparecem sempre com aspectos da ra\u00e7a humana. Criamos esses seres do espa\u00e7o, subsolo, mas, no fundo, estamos sempre no campo de batalha das nossas almas.\u201d<\/p>\n<p>O embate com o lado obscuro de cada um, para ela, \u00e9 uma oportunidade rica e verdadeira. \u201c\u00c9 melhor aceitar seu status de monstro e n\u00e3o imaginar que \u2018monstro\u2019 significa mal e deve ser morto. Mesmo para se curar completamente de uma doen\u00e7a, apenas elimin\u00e1-la n\u00e3o curaria de fato, seria necess\u00e1rio fortalecer o organismo. Ser um monstro significa ser imaginativo, n\u00e3o estar limitado \u00e0s leis da f\u00edsica. N\u00e3o \u00e9 bom ter isso \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>Mesmo com as imagens muito particulares \u2013 e a pr\u00f3pria autora admite que as emo\u00e7\u00f5es que sente se transportam num processo invis\u00edvel para as linhas do desenho \u2013 a mancha de texto nas p\u00e1ginas \u00e9 geralmente densa. N\u00e3o por acaso, a autora \u00e9 mestre em escrita criativa pelo Art Institute of Chicago e a literatura sempre ocupou um lugar de destaque na sua vida. Hoje em dia, ela ouve audiolivros enquanto desenha porque, por causa de uma doen\u00e7a que contraiu em 2001, a capacidade de leitura cont\u00ednua alojada em algum canto do seu c\u00e9rebro foi reduzida.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Emil ganha tons de dramaticidade, assim como seu livro, bem pouco usuais.<\/p>\n<p>Quando o trabalho de ilustradora n\u00e3o fazia caixa suficiente para os boletos mensais, Ferris trabalhava como faxineira e gar\u00e7onete \u2013 ent\u00e3o, h\u00e1 17 anos (ela agora tem 57), ela foi picada por um mosquito e contraiu a Febre do Nilo Ocidental: 80% das infec\u00e7\u00f5es n\u00e3o geram sintomas em humanos; em casos mais graves, como o de Ferris, h\u00e1 consequ\u00eancias s\u00e9rias. Foram tr\u00eas semanas em coma, algumas sequelas cerebrais e paralisia nos membros (o que a impediu de andar, e os desenhos passaram a sair depois de muito esfor\u00e7o e ajuda da filha, na \u00e9poca com 6 anos).<\/p>\n<p>Escrever Minha Coisa Favorita \u00c9 Monstro fez parte do processo de recupera\u00e7\u00e3o. \u201cAinda estou me recuperando. Tenho uma paralisia parcial na parte de baixo do corpo e muito menos mobilidade na m\u00e3o direita. Foi mais de um ano para andar uma dist\u00e2ncia aceit\u00e1vel. Ando com m\u00fasculos que n\u00e3o servem exatamente para isso. O corpo \u00e9 maravilhoso, ele pergunta: \u2018Bem, voc\u00ea quer fazer isso? Vamos tentar desse jeito\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Chegar t\u00e3o perto da morte, explica, a ajudou a perceber que ainda n\u00e3o tinha realizado seu prop\u00f3sito: contar hist\u00f3rias. \u201cIsso se tornou imperativo. N\u00e3o podia esperar mais. Voc\u00ea nunca sabe quanto tempo tem, mas escolhi que ainda tenho algum tempo, porque tenho v\u00e1rias hist\u00f3rias para contar. Ent\u00e3o me esforcei ao m\u00e1ximo.\u201d<\/p>\n<p>A saga tem mais um cap\u00edtulo, por\u00e9m. Depois de anos de esfor\u00e7o e trabalho, busca por editoras, etc., o livro estava marcado para sair em outubro de 2016 nos EUA. O navio com os 10 mil exemplares impressos na China pertencia a uma companhia sul-coreana que faliu no meio da viagem: os cont\u00eaineres ficaram meses presos no Canal do Panam\u00e1 at\u00e9 que a editora conseguisse resgatar os volumes.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea move todas as suas for\u00e7as em dire\u00e7\u00e3o a um lugar. Assim, h\u00e1 muitos outros \u00edmpetos invis\u00edveis que se juntam para que aquilo aconte\u00e7a. N\u00e3o sou jovem, acredito que minha experi\u00eancia de vida juntou elementos invis\u00edveis, espirituais. H\u00e1 uma m\u00e1gica em combinar palavras e imagens. Os eg\u00edpcios j\u00e1 entendiam isso. Fazer esse livro, para mim, foi como praticar essa m\u00e1gica.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um par de canetas Bic, afinal, pode servir \u00e0 grande arte: \u00e9 o que prova Emil Ferris e o seu Minha Coisa Favorita \u00c9 Monstro, graphic novel incomum e poderosa que fez a autora, estreante no formato livro, arrebanhar tr\u00eas pr\u00eamios Eisner bem como o Fauve d\u2019Or, a principal distin\u00e7\u00e3o do Festival de Angoul\u00eame. 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