{"id":205960,"date":"2019-03-31T11:22:59","date_gmt":"2019-03-31T14:22:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=205960"},"modified":"2019-03-31T16:49:40","modified_gmt":"2019-03-31T19:49:40","slug":"fase-racional-de-tim-maia-chega-ao-streaming","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fase-racional-de-tim-maia-chega-ao-streaming\/","title":{"rendered":"Fase Racional de Tim Maia chega ao streaming"},"content":{"rendered":"<p>Tim Maia j\u00e1 havia aspirado todos os p\u00f3s e entornado todos os l\u00edquidos naquele ano de 1975, quando se sentou com o amigo Tib\u00e9rio Gaspar em um fim de semana. Depois de mandar uma mescalina para dentro, passou a folhear um livro indicado pelo amigo, cheio de conceitos sobre os quais jamais havia escutado. Universo em Desencanto, Mundo Racional, Racional Superior, Cultura Racional,<\/p>\n<p>Energia Racional. A hist\u00f3ria assim: todos os viventes da Terra vieram de um outro planeta. A Terra \u00e9 nosso ex\u00edlio, nos sujando e nos magnetizando, submetendo-nos a todo tipo de sofrimento. A sa\u00edda? Ler o livro Universo em Desencanto e seguir os ensinamentos do emiss\u00e1rio Manoel Jacintho Coelho at\u00e9 atingirmos o est\u00e1gio da Imuniza\u00e7\u00e3o Racional e sermos resgatados pelos seres extra terrenos que nos levar\u00e3o de volta ao mundo original. Quando fechou o livro, Tim j\u00e1 era outro homem.<\/p>\n<p>Uma das fases m\u00edsticas mais vasculhadas de um artista brasileiro, a convers\u00e3o de Tim Maia \u00e0 Cultura Racional, rendeu ao todo tr\u00eas \u00e1lbuns execrados \u00e0 \u00e9poca pela cr\u00edtica mas considerados hoje c\u00e1lices sagrados de colecionadores e f\u00e3s da soul music brasileira. Embriagado pelos mandamentos do livro, Tim parou com o \u00e1lcool, com a coca\u00edna e com a carne vermelha. Ele e seus m\u00fasicos deveriam usar branco, praticar sexo apenas para a procria\u00e7\u00e3o, pintar seus instrumentos de amarelo e, como cl\u00e1usula inegoci\u00e1vel, ler o livro. E quem n\u00e3o gostasse perigava tomar um tapa no p\u00e9 do ouvido e ser demitido da banda. \u201cEu n\u00e3o sei se acredit\u00e1vamos ou n\u00e3o, mas faz\u00edamos o que ele queria. A gente estava tocando com o cara\u201d, lembra Serginho Trombone, um dos m\u00fasicos da tropa racional.<\/p>\n<p>O devoto Tim entregou ao Universo Racional o que ele tinha de melhor. M\u00fasicas que j\u00e1 haviam sido terminadas em 1974 sobre a base mais influenciada pelo soul e o funk norte-americanos que criou em toda a sua biografia tiveram suas letras modificadas e adaptadas ao discurso das eleva\u00e7\u00f5es espirituais. O primeiro \u00e1lbum saiu em 1975 e o segundo em 1976. Um terceiro projeto, chamado Racional 3, gravado tamb\u00e9m em 1976, s\u00f3 seria lan\u00e7ado 35 anos depois. No momento em que o registrava, Tim passou por uma esp\u00e9cie de desimuniza\u00e7\u00e3o racional. N\u00e3o se sabe ao certo o que viu, mas boa coisa n\u00e3o foi. Ao chegar em casa, comeu um fil\u00e9 de brontossauro mal passado, acendeu um baseado, rasgou as roupas brancas e se dirigiu \u00e0 janela de casa, nu, para gritar palavras nada elegantes ao ex-mestre. \u201cPilantra\u201d, \u201cladr\u00e3o\u201d e \u201ctarado\u201d estavam entre elas. Os discos foram imediatamente amaldi\u00e7oados e se tornaram um pesadelo.<\/p>\n<p>\u201cAs letras se tornaram um atestado de ot\u00e1rio para Tim\u201d, diz Nelson Motta. Proibidos pelo autor, com suas prensagens descontinuadas, os \u00e1lbuns se tornaram pe\u00e7as arqueol\u00f3gicas. \u201cO vinil dos dois primeiros sai por, no m\u00ednimo, R$ 1 mil cada. O terceiro pode ter um valor menor\u201d, diz o jornalista Ramiro Zwetsch, da loja Patu\u00e1 Discos.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, o universo encantado dos streamings. Esses, como muitos outros discos de Tim, n\u00e3o estavam ainda dispon\u00edveis nas grandes plataformas de m\u00fasica \u2013 algo como dizer que n\u00e3o existiam para uma gera\u00e7\u00e3o inteira. Depois de uma negocia\u00e7\u00e3o conduzida por Carmelo Maia, filho e \u00fanico representante legal do cantor, as m\u00fasicas passaram a fazer parte dos cat\u00e1logos h\u00e1 uma semana. Racional 1, 2 e 3 estariam completos se n\u00e3o fosse por um detalhe. Tr\u00eas m\u00fasicas ficaram de fora, por uma falta de entendimento legal com as suas respectivas editoras. S\u00e3o elas O Caminho do Bem (talvez a maior falta), Cultura Racional (ambas do volume 2) e Lendo o Livro (do volume 3).<\/p>\n<p>Quase ao mesmo tempo, um outro Tim Maia ainda desconhecido vir\u00e1 \u00e0 tona, segundo as previs\u00f5es, ainda neste semestre. S\u00e3o grava\u00e7\u00f5es de seus sucessos em espanhol que ele nunca lan\u00e7ou. Carmelo explica. \u201cMeu pai, depois de ficar desiludido no Brasil, foi para os Estados Unidos e ficou por l\u00e1 cinco anos, recebendo influ\u00eancias de latinos e norte-americanos. Nos anos 90, gravou uma s\u00e9rie de discos, entre 1994 e 1998 (ele morreria em mar\u00e7o deste ano), com uma produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era nada comum. Em dois anos, fez cinco CDs de uma vez. E um desses, que nunca lan\u00e7ou, traz essas m\u00fasicas em espanhol, como Primavera, Azul da Cor do Mar e Cristina.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o delicada nos relan\u00e7amentos feitos \u00e0 revelia de artistas que n\u00e3o est\u00e3o mas presentes para vet\u00e1-los ou n\u00e3o. O cantor e compositor Hyldon j\u00e1 se pronunciou contr\u00e1rio, considerando um desrespeito trazer \u00e0 luz uma fase que Tim teria renegado \u00e0 escurid\u00e3o. Carmelo fica possesso. \u201cO problema \u00e9 que existe muito cacique para pouco \u00edndio e as pessoas se esquecem de que, nessa tribo, s\u00f3 existe um cacique que se chama Carmelo Maia. Se quiserem decidir sobre as quest\u00f5es do meu pai, posso repassar a elas tamb\u00e9m os 413 processos que Tim deixou para eu resolver.\u201d<\/p>\n<p>Carmelo diz que Tim j\u00e1 vinha em um processo de aceita\u00e7\u00e3o das m\u00fasicas. \u201cEle j\u00e1 tocava Racional Culture nos shows dos anos 90. Eu tenho isso gravado. Mas falar de Tim Maia \u00e9 como falar de Sele\u00e7\u00e3o Brasileira em Copa do Mundo, todo mundo vira t\u00e9cnico. Eu estou aqui seguindo os mandamentos Maia.\u201d<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Carmelo \u00e9 ele mesmo um fruto dos Maia vindo ao mundo em plena era da Cultura Racional. \u201cEm nasci em 24 de janeiro de 1975, em pleno Universo em Desencanto.\u201d A foto que est\u00e1 abaixo, enviada por ele \u00e0 reportagem, \u00e9 prova disso. O pai o vestia de branco com o s\u00edmbolo da cren\u00e7a no peito. \u201cE eu n\u00e3o podia usar outra roupa.\u201d Seu nome foi uma sugest\u00e3o do guru Manoel Jacintho, que veio a Tim com tr\u00eas op\u00e7\u00f5es assim que o menino nasceu: 1. Robson. O nome, traduzido, seria algo como filho de Roberto (son \u00e9 filho em ingl\u00eas). Filho de Roberto era o \u00faltimo nome que Tim colocaria em um rebento seu naqueles anos em que ainda amargava a esnobada de Roberto Carlos no in\u00edcio de sua carreira, quando pediu ajuda para ser lan\u00e7ado mas n\u00e3o teve aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cFilho de Roberto \u00e9 o c&#8230;., merm\u00e3o.\u201d N\u00e3o foi o que ele disse ao honor\u00e1vel guru, mas foi o que desabafou em casa. 2. Telmo. Tim lembrou na hora de San Telmo, um santo espanhol, e decidiu ali mesmo. \u201cMeu filho jamais vai ser santo, merm\u00e3o.\u201d Carmelo era a terceira op\u00e7\u00e3o, e ela pegou no cora\u00e7\u00e3o de Tim. O nome lembrava Nossa Senhora do Monte Carmo e, por associa\u00e7\u00e3o, levava \u00e0 sua m\u00e3e, que ele tanto respeitava. Tim levou o filho ao cart\u00f3rio e o registrou: Carmelo Maia. Quando voltou para casa, o apresentou: \u201cAqui est\u00e1 m\u00e3e, esse aqui \u00e9 o Telmo.\u201d N\u00e3o se sabe porque, se fez confus\u00e3o ou se arrependeu do registro, mas o fato \u00e9 que, em fam\u00edlia e na escola, Carmelo virou Telmo.<\/p>\n<p>Tim realizou sua fase espiritual confirmando um comportamento art\u00edstico quase un\u00e2nime. \u201cAs fases espiritualistas costumam render grandes discos\u201d, levanta Ramiro Zwetsch. \u00c1lbuns hist\u00f3ricos foram feitos sob o manto da f\u00e9, seja l\u00e1 no que for. Baden Powell e Vin\u00edcius de Moraes mergulharam nos terreiros para realizar, em 1966, a antologia do Afro-Sambas. John Coltrane queria toda a verdade do universo e a proximidade com seu criador ao gravar A Love Supreme, em 1965. Os Beatles entregaram-se \u00e0 medita\u00e7\u00e3o transcendental do mestre indiano Maharishi Mahesh Yogi e foram \u00e0 \u00cdndia para criar m\u00fasicas que usariam em v\u00e1rias \u00e1lbuns, como Dear Prudence, Norwegian Wood e Across The Universe. Aretha Franklin desceu \u00e0s origens crist\u00e3s batistas e gravou Amazing Grace, em 1972, dentro de um templo de Los Angeles.<\/p>\n<p>Raul Seixas fundou ele mesmo, ao lado de Paulo Coelho, um irmandade, ou uma Sociedade Alternativa, lan\u00e7ada no disco Gita, de 1974, baseada em pensamentos do ocultista brit\u00e2nico Aleister Crowley: \u201cFaze o que tu queres, h\u00e1 de ser tudo da Lei.\u201d Uma esp\u00e9cie de liberdade anti-Cultura Racional. Quando Tim o encontrou, a conversa dos dois come\u00e7ou a ganhar um rumo perigoso. Tim queria levar Raul para a sua seita sob argumentos n\u00e3o muito espiritual\u00edsticos: \u201cTu toma cuidado, hein, magrelo. Nego cheira coca\u00edna e fica logo com vontade de dar o\u2026 Coca\u00edna afrouxa o brioco, merm\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 um elo perdido no horizonte de Carmelo. Ele diz ser um sonho descobrir, afinal, onde estariam as grava\u00e7\u00f5es que Tim Maia fez com a JB Band, a banda de James Brown, nos Estados Unidos. Por ora, n\u00e3o se sabe nem se elas existem mesmo. Outro projeto que o herdeiro diz estar negociando \u00e9 a montagem de um musical sobre Tim Maia, desta vez, na Broadway. Ele diz j\u00e1 ter tido contato com produtores norte-americanos que querem um projeto s\u00f3 com atores estrangeiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tim Maia j\u00e1 havia aspirado todos os p\u00f3s e entornado todos os l\u00edquidos naquele ano de 1975, quando se sentou com o amigo Tib\u00e9rio Gaspar em um fim de semana. Depois de mandar uma mescalina para dentro, passou a folhear um livro indicado pelo amigo, cheio de conceitos sobre os quais jamais havia escutado. 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