{"id":206281,"date":"2019-04-05T01:31:50","date_gmt":"2019-04-05T04:31:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=206281"},"modified":"2019-04-05T06:41:32","modified_gmt":"2019-04-05T09:41:32","slug":"monarquia-usa-esquerda-falida-para-dar-volta-por-cima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/monarquia-usa-esquerda-falida-para-dar-volta-por-cima\/","title":{"rendered":"Monarquia usa esquerda falida para dar volta por cima"},"content":{"rendered":"<p>No ano em que a queda da Monarquia no Brasil completar\u00e1 seu 130\u00ba anivers\u00e1rio, um membro da antiga fam\u00edlia real portuguesa se sentiu em casa ao visitar um dos \u00f3rg\u00e3os mais poderosos da Rep\u00fablica &#8211; o Congresso Nacional. Bisneto da Princesa Isabel (1846-1921), o l\u00edder monarquista Bertrand Maria Jos\u00e9 Pio Janu\u00e1rio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragan\u00e7a havia agendado reuni\u00f5es com parlamentares rec\u00e9m-empossados.<\/p>\n<p>No gabinete da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), Dom Bertrand &#8211; como \u00e9 chamado por seguidores &#8211; se viu rodeado por uma bandeira com o bras\u00e3o do Imp\u00e9rio, um busto de seu trisav\u00f4 Dom Pedro II e um retrato de seu irm\u00e3o Luiz Gast\u00e3o, atual chefe da Casa Imperial, \u00f3rg\u00e3o que busca restaurar a monarquia no Brasil. Por pouco, n\u00e3o cruzou nos corredores com um sobrinho, o deputado rec\u00e9m-eleito Luiz Philippe de Orleans e Bragan\u00e7a (PSL-SP).<\/p>\n<p>&#8220;Fiquei at\u00e9 surpreso, encontrei mais abertura do que esperava&#8221;, diz ele sobre a visita, em fevereiro, quando tamb\u00e9m se reuniu com o senador M\u00e1rcio Bittar (MDB-AC) e com os deputados federais Paulo Martins (PSC-PR), Delegado Waldir (PSL-GO) e Enrico Misasi (PV-SP). O grupo comp\u00f5e a &#8220;bancada monarquista&#8221; do Congresso, segundo entusiastas do movimento.<\/p>\n<p>Na mesma viagem, Bertrand foi recebido no Itamaraty pelo ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ernesto Ara\u00fajo, e pelo assessor da Presid\u00eancia para assuntos internacionais, Filipe Martins.<\/p>\n<p>O monarquista afirma que alguns interlocutores expressaram &#8220;total conson\u00e2ncia&#8221; com suas posi\u00e7\u00f5es &#8211; que incluem a oposi\u00e7\u00e3o ao casamento gay, o fim das demarca\u00e7\u00f5es de terras ind\u00edgenas e a proibi\u00e7\u00e3o do aborto em qualquer circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Entrevistado, ele n\u00e3o quis responder se abordou a restaura\u00e7\u00e3o da monarquia nos encontros &#8211; de acordo com um assessor que acompanhou uma reuni\u00e3o, a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 tratar o tema com discri\u00e7\u00e3o para n\u00e3o despertar rea\u00e7\u00f5es que minem o projeto.<\/p>\n<p>A calorosa recep\u00e7\u00e3o a Bertrand reflete o avan\u00e7o de adeptos do monarquismo em \u00f3rg\u00e3os do Estado e a reabilita\u00e7\u00e3o de um dos principais expoentes do movimento &#8211; o jornalista e ativista cat\u00f3lico Plinio Corr\u00eaa de Oliveira (1905-1995), fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradi\u00e7\u00e3o, Fam\u00edlia e Propriedade (TFP).<\/p>\n<p>A entidade se projetou na d\u00e9cada de 1960 ao protestar contra o comunismo e defender uma leitura do Catolicismo mais conservadora que a do pr\u00f3prio Vaticano.<\/p>\n<p>A reportagem ouviu dois parlamentares que encontraram Bertrand e se definem como monarquistas: os deputados federais Paulo Martins (PSC-PR) e Carla Zambelli (PSL-SP).<\/p>\n<p>&#8220;Quando as pessoas s\u00e3o eleitas, elas se preocupam muito com a pr\u00f3xima elei\u00e7\u00e3o. Um monarca n\u00e3o tem essa preocupa\u00e7\u00e3o: ele s\u00f3 pensa no bem do pa\u00eds&#8221;, argumenta Zambelli, que diz manter permanentemente em seu gabinete os s\u00edmbolos imperiais vistos por Bertrand.<\/p>\n<p>A deputada defende a ado\u00e7\u00e3o de uma monarquia parlamentarista no Brasil, com elei\u00e7\u00f5es para o Parlamento e o retorno da fam\u00edlia Orleans e Bragan\u00e7a ao trono. Nesse cen\u00e1rio, Bertrand seria o segundo na linha sucess\u00f3ria para o posto de rei, atr\u00e1s de seu irm\u00e3o Luiz Gast\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1993, a restaura\u00e7\u00e3o da monarquia no Brasil foi rejeitada em plebiscito, tendo recebido o apoio de 13,4% dos eleitores. Outros 86,6% endossaram a manuten\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;A Rep\u00fablica rompeu um processo hist\u00f3rico e criou um regime ileg\u00edtimo cunhado por meia d\u00fazia de militares e intelectuais, sem qualquer apoio das massas&#8221;, diz o deputado federal Paulo Martins.<\/p>\n<p>Zambelli e Martins afirmam, por\u00e9m, que ainda n\u00e3o h\u00e1 clima pol\u00edtico para discutir a volta ao regime. &#8220;Antes \u00e9 preciso um movimento de resgate cultural, de resgate da verdadeira hist\u00f3ria da monarquia, que o per\u00edodo republicano cuidou de destruir&#8221;, diz Martins.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia do movimento monarquista n\u00e3o se restringe ao novo Congresso. Na semana retrasada, um adepto da causa, o procurador Gilberto Callado de Oliveira, foi nomeado representante da sociedade civil no Inep (Instituto Nacional de Estudos Educacionais An\u00edsio Teixeira), \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelo Enem (Exame Nacional do Ensimo M\u00e9dio).<\/p>\n<p>Amigo de Bertrand, Callado \u00e9 membro do C\u00edrculo Mon\u00e1rquico de Nossa Senhora do Desterro, em Santa Catarina, e dedicou um livro ao fundador da TFP: &#8220;Ao saudoso professor Plinio C\u00f4rrea de Oliveira, representante maior da intelig\u00eancia contrarrevolucion\u00e1ria&#8221;, escreveu.<\/p>\n<p>A lista de simpatizantes do monarquismo no governo inclui o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Ricardo V\u00e9lez. Em 2014, ele publicou no Facebook que, caso o Brasil fosse uma monarquia, &#8220;n\u00e3o estar\u00edamos \u00e0s voltas com todas estas lamban\u00e7as&#8221;. &#8220;O monarca, de h\u00e1 muito, teria dissolvido o parlamento e convocado novas elei\u00e7\u00f5es para renova\u00e7\u00e3o do elenco&#8221;, disse V\u00e9lez.<\/p>\n<p>Outro que demonstra afinidade com o movimento \u00e9 o assessor da Presid\u00eancia para assuntos internacionais, Filipe Martins. Ele divulgou no Twitter uma foto de seu encontro com Bertrand em fevereiro, apresentando-o como &#8220;Sua Alteza Imperial e Real, Dom Bertrand de Orleans e Bragan\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>V\u00e9lez e Martins foram indicados ao governo pelo escritor Olavo de Carvalho, que tamb\u00e9m j\u00e1 defendeu a monarquia em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Em 2017, ele afirmou em v\u00eddeo no YouTube que, ap\u00f3s o fim do regime, &#8220;o Brasil caminhou de golpe em golpe, de revolu\u00e7\u00e3o em revolu\u00e7\u00e3o, e nunca mais se estabilizou&#8221;.<\/p>\n<p>Em outro v\u00eddeo, Olavo definiu Bertrand de Orleans e Bragan\u00e7a como &#8220;o brasileiro mais patriota que eu j\u00e1 vi na minha vida, o sujeito que mais estudou os problemas do Brasil, que mais busca solu\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>A BBC News Brasil encontrou Bertrand na antiga sede da TFP e atual Instituto Plinio Corr\u00eaa de Oliveira (IPCO), criado em 2006 em meio a uma disputa que sucedeu a morte do l\u00edder. Bertrand integrou a TFP e agora \u00e9 diretor de rela\u00e7\u00f5es institucionais do IPCO.<\/p>\n<p>Como na TFP, s\u00f3 homens podem integrar a organiza\u00e7\u00e3o (segundo Bertrand, as atividades do instituto, que incluem marchas e viagens pelo Brasil, &#8220;n\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3prias para pessoas do sexo fr\u00e1gil&#8221;).<\/p>\n<p>Erguido em 1895 e tombado como patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e arquitet\u00f4nico em 2003, o casar\u00e3o no bairro de Higien\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo, exibe v\u00e1rios objetos de arte sacra, como uma imagem em m\u00e1rmore de Nossa Senhora de Coromoto, esculpida na Espanha, al\u00e9m de uma capela com vitrais.<\/p>\n<p>\u00c0 entrada do casar\u00e3o, um jarro de porcelana chinesa se destaca entre cortinas, lustres e sof\u00e1s de couro. A sala ao lado, reservada a visitantes ilustres, tem paredes adornadas com tecido dourado e m\u00f3veis que pertenciam \u00e0 fam\u00edlia imperial nos tempos de Dom Jo\u00e3o 6\u00ba (1767-1826). Um membro do IPCO diz que Bertrand vendeu os itens \u00e0 antiga TFP quando passava por dificuldades financeiras.<\/p>\n<p>Aos 78 anos, o monarquista vestia sobre o terno uma faixa com um retrato de Plinio Corr\u00eaa de Oliveira, seu mentor intelectual. Era acompanhado pelo assessor Oilsson Guglielmin e por dois jovens membros do instituto, que tiravam fotos do encontro e serviam caf\u00e9.<\/p>\n<p>Para Bertrand, o pensamento do fundador da TFP est\u00e1 por tr\u00e1s do movimento conservador que p\u00f4s fim aos governos do PT e chegou \u00e0 Presid\u00eancia com Jair Bolsonaro. Mais do que isso: segundo Bertrand, ao militar contra o comunismo no Brasil, Oliveira ajudou a impedir que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica prorrogasse sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Antes de 1964, o Brasil estava a um mil\u00edmetro de virar um regime comunista. Imagine se tivesse virado? Nesse turbilh\u00e3o, o resto da Am\u00e9rica Latina iria junto, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica dominaria todos os pa\u00edses da regi\u00e3o e n\u00e3o teria ca\u00eddo&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco respaldo entre historiadores \u00e0 tese de que o Brasil ficou \u00e0 beira do comunismo antes do golpe de 1964, apesar do fortalecimento da esquerda no governo do presidente deposto, Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p>Pol\u00edticas esquerdistas &#8211; como a proposta de reforma agr\u00e1ria de Goulart &#8211; entraram no alvo da TFP desde sua funda\u00e7\u00e3o, em 1960. O grupo integrou as Marchas da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade, s\u00e9rie de manifesta\u00e7\u00f5es contra o comunismo que ocorreram antes e ap\u00f3s o golpe.<\/p>\n<p>Em artigo para o Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea do Brasil da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV-CPOC), os cientistas pol\u00edticos Thomas Ferdinand Heye e M\u00f4nica Kornis dizem que &#8220;a TFP caracterizou-se como a mais radical organiza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica de oposi\u00e7\u00e3o ao governo Jo\u00e3o Goulart&#8221;.<\/p>\n<p>Nas marchas, membros da organiza\u00e7\u00e3o portavam bandeiras com a imagem de um le\u00e3o e vestiam capas vermelhas, evocando cavaleiros crist\u00e3os medievais nas Cruzadas. Oliveira tamb\u00e9m difundia suas ideias em livros e artigos de jornais (ele foi colunista da Folha de S Paulo por quase 30 anos).<\/p>\n<p>Com a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1991, e a morte de Oliveira, em 1995, a TFP perdeu visibilidade. Diverg\u00eancias entre os membros causaram uma cis\u00e3o no grupo. Em 2006, os membros mais antigos fundaram o Instituto Plinio Corr\u00eaa de Oliveira, que voltou a organizar marchas e retomou o ativismo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das pautas antigas, a organiza\u00e7\u00e3o passou a encampar causas populares entre grupos conservadores atuais, como o combate \u00e0 chamada &#8220;ideologia de g\u00eanero&#8221; nos col\u00e9gios; &#8220;a elimina\u00e7\u00e3o do amb\u00edguo conceito de &#8216;trabalho escravo'&#8221;, &#8220;a interrup\u00e7\u00e3o de qualquer ajuda financeira \u00e0s ditaduras &#8216;bolivarianas'&#8221;; e &#8220;a elimina\u00e7\u00e3o de todas as leis socialistas que perseguem os brasileiros com impostos abusivos&#8221;.<\/p>\n<p>Hoje, segundo Bertrand, o grupo mobiliza &#8220;centenas&#8221; de pessoas, entre s\u00f3cios e colaboradores volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s passar algumas d\u00e9cadas nas sombras, o pensamento de Plinio Corr\u00eaa de Oliveira e os ideais monarquistas voltaram a despertar interesse em meio ao crescimento da onda conservadora no Brasil nos \u00faltimos anos. Nas manifesta\u00e7\u00f5es pelo impeachment de Dilma Rousseff, pequenos grupos de manifestantes empunhavam cartezes pedindo a volta da monarquia.<\/p>\n<p>Para o historiador Luis Foresti, que analisou a trajet\u00f3ria de Oliveira em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, as ideias do fundador da TFP est\u00e3o presentes hoje nos discursos de v\u00e1rios pensadores conservadores e ativistas religiosos. Um exemplo, segundo Foresti, \u00e9 o uso do termo &#8220;contrarrevolu\u00e7\u00e3o&#8221; para definir o golpe de 1964. &#8220;A ideia de revolu\u00e7\u00e3o como algo intrinsicamente ruim \u00e9 t\u00edpica do pensamento pliniano&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Bertrand reconhece o momento favor\u00e1vel. &#8220;Ficou bonito ser de direita e conservador, e a esquerda est\u00e1 inibida&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Para ele, Jair Bolsonaro &#8220;soube encarnar um mal-estar dos brasileiros com o politicamente correto&#8221; e &#8220;interpretar a aspira\u00e7\u00e3o dos brasileiros de se virem livres de amarras, de uma mentalidade intervencionista e estatizante, influenciada por socialistas e marxistas, que iam dominando o Brasil e saquearam a na\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Ele diz que o novo governo tem promovido avan\u00e7os, entre os quais a paralisa\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria. &#8220;A propriedade privada \u00e9 a garantia da liberdade. Se n\u00e3o h\u00e1 respeito \u00e0 propriedade, a pessoa fica escrava do Estado&#8221;, diz Bertrand.<\/p>\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma agr\u00e1ria fez com que a organiza\u00e7\u00e3o se aproximasse do agroneg\u00f3cio nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Um dos principais interlocutores da organiza\u00e7\u00e3o no governo \u00e9 o agr\u00f4nomo Evaristo de Miranda, pesquisador da Embrapa que faz visitas frequentes ao instituto e \u00e9 visto por ruralistas como um aliado.<\/p>\n<p>Bertrand tamb\u00e9m elogia as mudan\u00e7as na postura no governo em rela\u00e7\u00e3o ao meio ambiente, como as restri\u00e7\u00f5es a puni\u00e7\u00f5es por infra\u00e7\u00f5es ambientais.<\/p>\n<p>Em 2012, ele lan\u00e7ou o livro &#8220;Psicose Ambientalista&#8221;, onde diz revelar &#8220;os bastidores do ecoterrorismo para implantar uma religi\u00e3o ecol\u00f3gica, igualit\u00e1ria e anticrist\u00e3&#8221;. Contrapondo-se \u00e0 imensa maioria dos cientistas que pesquisam o tema, a obra contesta os estudos que associam a a\u00e7\u00e3o humana \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Segundo Bertrand, a esquerda usa o ambientalismo para promover suas causas. &#8220;Os vermelhos ficaram verdes. Qual a bandeira do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) atualmente? \u00c9 a ecologia.&#8221;<\/p>\n<p>Outra causa comum a esquerdistas e ambientalistas, segundo ele, \u00e9 a demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas. Bertrand critica a extens\u00e3o dessas \u00e1reas, que ocupam 12% do territ\u00f3rio nacional &#8211; embora, segundo ele, &#8220;os \u00edndios que moram na taba (aldeia) no Brasil n\u00e3o cheguem a 100 mil&#8221; (de acordo com o IBGE, 57,7% dos cerca de 900 mil \u00edndios brasileiros vivem em terras ind\u00edgenas).<\/p>\n<p>Para os que defendem novas demarca\u00e7\u00f5es, diz Bertrand, &#8220;voc\u00ea, que \u00e9 branco, eu, que sou branco, dever\u00edamos voltar para a Europa&#8221;. Ele ent\u00e3o pergunta qual a ascend\u00eancia do jovem auxiliar Allysson Vidal, que responde ser &#8220;tipicamente brasileiro&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ele vai ficar na taba&#8221;, interv\u00e9m o assessor Oilsson Guglielmin, para risos dos colegas.<\/p>\n<p>A expatria\u00e7\u00e3o de descendentes de europeus, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma bandeira do movimento ind\u00edgena brasileiro, que diz buscar a demarca\u00e7\u00e3o de terras historicamente ocupadas e necess\u00e1rias \u00e0 sobrevi\u00eancia f\u00edsica e cultural dos grupos.<\/p>\n<p>Ao se posicionar sobre as demarca\u00e7\u00f5es, Bertrand se alinha a Plinio Corr\u00eaa de Oliveira. No livro &#8220;Tribalismo Ind\u00edgena&#8221;, de 1977, o fundador da TFP criticou conceitos que acabariam incorporados pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 &#8211; e que, segundo Oliveira, favoreceram os \u00edndios em preju\u00edzo da soberania nacional.<\/p>\n<p>Contrariando historiadores, Bertrand diz que &#8220;praticamente n\u00e3o houve&#8221; ind\u00edgenas escravizados durante a coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa. Afirma ainda que o Imp\u00e9rio n\u00e3o pode ser responsabilizado pela escravid\u00e3o de negros &#8211; embora 5 milh\u00f5es de africanos tenham sido trazidos para o Brasil como escravos durante o regime &#8211; e que a monarquia enfrentou forte oposi\u00e7\u00e3o ao abolir a pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Para ele, &#8220;a solu\u00e7\u00e3o para o problema dos \u00edndios&#8221; foi dada pelo imperador Dom Jo\u00e3o 3\u00ba a Tom\u00e9 de Souza, governador-geral do Brasil entre 1549 e 1553: &#8220;Tem que catequizar, dar civiliza\u00e7\u00e3o e cultura &#8211; fazer o que a igreja fez ao longo de cinco s\u00e9culos&#8221;, diz Bertrand.<\/p>\n<p>Para Sonia Guajajara, coordenadora-executiva da Articula\u00e7\u00e3o dos Povos Ind\u00edgenas do Brasil, a afirma\u00e7\u00e3o revela ignor\u00e2ncia. &#8220;Falar que precisamos de civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 absurdamente retr\u00f3grado. Temos nossas formas de organiza\u00e7\u00e3o social, nossos costumes e modos de vida, que precisam ser respeitados&#8221;, afirma Guajajara.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo a Igreja Cat\u00f3lica reviu sua posi\u00e7\u00e3o e deixou de defender a convers\u00e3o de ind\u00edgenas. Em 2015, o Papa Francisco pediu desculpas em nome do Vaticano pelos &#8220;graves pecados cometidos contra os povos nativos da Am\u00e9rica em nome de Deus&#8221;.<\/p>\n<p>Assim como Oliveira, Bertrand critica os rumos que a Igreja Cat\u00f3lica v\u00eam tomando nas \u00fatimas d\u00e9cadas. Nesse per\u00edodo, correntes progressistas, como a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, avan\u00e7aram por par\u00f3quias latino-americanas. Ele diz que esse movimento \u00e9 respons\u00e1vel pela paulatina redu\u00e7\u00e3o no percentual de brasileiros cat\u00f3licos.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas iam \u00e0 igreja para ouvir a palavra de Deus, e o padre estava l\u00e1 dizendo que os ricos s\u00e3o bandidos, que os pobres s\u00e3o explorados, que \u00e9 preciso fazer reformas de base. Resultado: eles foram fugindo das igrejas que tinham essa tend\u00eancia.&#8221;<\/p>\n<p>No atual pontificado, do papa Francisco, Bertrand diz que v\u00e1rias outras mudan\u00e7as indesej\u00e1veis t\u00eam ocorrido.&#8221;N\u00e3o pregamos uma rebeli\u00e3o, ele (Francisco) \u00e9 o sucessor de Pedro. Mas, nos pontos em que ele rompe com a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, n\u00f3s resistimos.&#8221;<\/p>\n<p>Um dos atos que mobilizaram a organiza\u00e7\u00e3o foram as reformas de Francisco para facilitar a anula\u00e7\u00e3o de casamentos religiosos, em 2015. Segundo Bertrand, o Instituto Plinio Corr\u00eaa de Oliveira e organiza\u00e7\u00f5es estrangeiras associadas colheram mais de 900 mil assinaturas contra a medida.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o se soma a v\u00e1rios atritos entre seguidores de Plinio Corr\u00eaa de Oliveira e a Igreja Cat\u00f3lica. Nos anos 1960, o grupo se insurgiu contra uma s\u00e9rie de reformas iniciadas pelo papa Jo\u00e3o 23 (1958-1963) para modernizar a igreja, como a substitui\u00e7\u00e3o do latim pelo portugu\u00eas nas missas no Brasil.<\/p>\n<p>Para Bertrand, a Igreja Cat\u00f3lica viveu um grande momento na Idade M\u00e9dia, quando se confundia com o Estado e fundou os primeiros hospitais, universidades e lepros\u00e1rios da Europa.<\/p>\n<p>Questionado se defendia a reunifica\u00e7\u00e3o entre igreja e Estado, ele disse que &#8220;a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 a restaura\u00e7\u00e3o da cristandade&#8221;. &#8220;A esfera espiritual n\u00e3o se confunde com a esfera temporal, mas deve haver uma troca de bons oficios entre uma e outra, o que havia antigamente.&#8221;<\/p>\n<p>Dom Pedro 2\u00ba foi o \u00faltimo imperador do Brasil e perdeu o trono com a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889<br \/>\nPara Bertrand, a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa (1789) foi um triste marco para o Ocidente. O movimento &#8211; inspirado no lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade &#8211; p\u00f4s fim \u00e0 monarquia absolutista na Fran\u00e7a e resultou na execu\u00e7\u00e3o do rei Lu\u00eds 16.<\/p>\n<p>Apesar do lema, Bertand diz que &#8220;nunca houve menos liberdade, igualdade e fraternidade do que na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa&#8221;. &#8220;Bastava ser suspeito para ser guilhotinado. Qualquer pessoa que se opusesse ia \u00e0 guilhotina.&#8221;<\/p>\n<p>Bertrand diz que o ideal de igualdade dos revolucion\u00e1rios franceses, que acabou incorporado por socialistas e comunistas, causou grande mal ao mundo.<\/p>\n<p>&#8220;A beleza da sociedade n\u00e3o est\u00e1 na igualdade, mas nas diferen\u00e7as, que devem ser proporcionais, hierarquizadas, harm\u00f4nicas e complementares. Exatamente como uma sinfonia.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No ano em que a queda da Monarquia no Brasil completar\u00e1 seu 130\u00ba anivers\u00e1rio, um membro da antiga fam\u00edlia real portuguesa se sentiu em casa ao visitar um dos \u00f3rg\u00e3os mais poderosos da Rep\u00fablica &#8211; o Congresso Nacional. 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