{"id":206449,"date":"2019-04-07T09:15:07","date_gmt":"2019-04-07T12:15:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=206449"},"modified":"2019-04-07T09:15:07","modified_gmt":"2019-04-07T12:15:07","slug":"garis-trocam-vassoura-pelo-caderno-e-lapis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/garis-trocam-vassoura-pelo-caderno-e-lapis\/","title":{"rendered":"Garis trocam vassoura pelo caderno e l\u00e1pis"},"content":{"rendered":"<p>Aos 57 anos, Ana Rosa da Silva Santana come\u00e7a a desenhar as primeiras curvas das letras de seu nome. As m\u00e3os tr\u00eamulas mostram uma inseguran\u00e7a ainda persistente. \u201cMas eu vou vencer, sou uma guerreira\u201d, afirma. Nascida em Barreiras, na Bahia, Ana Rosa nunca frequentou uma escola.<\/p>\n<p>\u201cFui criada por pessoas que achavam que escola era perda de tempo. Eu fugia para ir para a escola e quando voltava para casa eu apanhava. Nunca tive oportunidade de aprender\u201d, lembra emocionada. Atualmente, gari no Servi\u00e7o de Limpeza Urbana de Bras\u00edlia, atividade que mant\u00e9m h\u00e1 sete anos, ela precisou fazer \u201cbicos\u201d ao longo de muito tempo para sobreviver e sustentar os filhos. O primeiro, nascido quando Ana Rosa tinha apenas 12 anos de idade.<\/p>\n<p>Ana integra agora a atual turma de 50 garis que decidiram arrega\u00e7ar as mangas e recuperar o tempo perdido nos estudos. O projeto que vem sendo desenvolvido h\u00e1 cinco anos pela empresa j\u00e1 alfabetizou mais de 160 funcion\u00e1rios que prestam servi\u00e7o \u00e0 companhia local.<\/p>\n<p>A iniciativa \u00e9 mantida em parceria. A empresa de limpeza urbana viabilizou o mobili\u00e1rio das salas de aulas e \u00e9 respons\u00e1vel por custear os alfabetizadores, a Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia (UCB) fornece a metodologia e os materiais escolares e o Servi\u00e7o de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU-DF) cedeu o espa\u00e7o f\u00edsico e autorizou que os alunos estudassem durante o hor\u00e1rio de trabalho, contribuindo para reduzir a evas\u00e3o escolar.<\/p>\n<p>\u201cO estudo vai trazer muita coisa boa para mim, posso ser algu\u00e9m na vida, ajudar um neto que precise em algum trabalho de escola\u201d, disse. Mas, quando o assunto \u00e9 o sonho de vida, Ana Rosa n\u00e3o hesita: \u201cEu sou salgadeira, mas ainda n\u00e3o sou profissional. Quero aprender mais e tamb\u00e9m fazer todos os tipos de doces e bolos. Poder ler receitas e dicas vai ajudar muito\u201d, contou.<\/p>\n<p>O curso deste ano come\u00e7ou na \u00faltima quinta-feira (4). Ge\u00edlson Coelho, 29 anos, tamb\u00e9m se matriculou para buscar novas oportunidades. Diferentemente da colega mais velha de classe, Coelho estudou at\u00e9 os 14 anos, mas n\u00e3o retornou para a escola at\u00e9 ent\u00e3o. \u201cEspero agora melhorar, espero passar mais coisas para meus filhos futuramente. Sinto falta da escrita. Lamento ter parado cedo e n\u00e3o ter voltado depois. Agora quero ser um confeiteiro e a escrita ajuda muito\u201d, disse, se emocionando a lembrar da m\u00e3e de cria\u00e7\u00e3o que sempre o incentivou a retomar os estudos.<\/p>\n<p>Coordenadora e uma das idealizadoras do projeto, Williani Carvalho explica a dificuldade de alfabetizar adultos. Segundo ela, al\u00e9m do tempo mais escasso em fun\u00e7\u00e3o de todas as obriga\u00e7\u00f5es rotineiras, ainda h\u00e1 o fator emocional.<\/p>\n<p>\u201cQuando voc\u00ea \u00e9 podado, tem dificuldade de crescer. At\u00e9 assumir que s\u00e3o analfabetos \u00e9 dif\u00edcil. Uma das coisas que nos alertou, que nos fez criar indicadores, foi observar que n\u00e3o conseguiam ler avisos em \u00f4nibus da empresa e tinham dificuldades em question\u00e1rios de treinamentos. Alguns diziam que estavam com dor de cabe\u00e7a para n\u00e3o ter que assumir que era analfabeto\u201d, conta a alfabetizadora.<\/p>\n<p>Williani e sua equipe adaptam os conte\u00fados \u00e0s realidades da turma, dirigindo a alfabetiza\u00e7\u00e3o em rumos definidos por cada aluno como um sonho. \u201cQuando um diz que quer ser padeiro, a gente busca como motivar dentro da realidade dele, como trazer receitas para cozinhar aqui. Trazemos fatos da atualidade. Falamos sobre DST [doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis], problemas psicol\u00f3gicos. A forma que temos de motivar \u00e9 a partir dos sonhos deles\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para ela, o projeto s\u00f3 tem seguido em frente por conta do envolvimento dos dirigentes das empresas. Cada aluno deixa de trabalhar por tr\u00eas horas na semana para poder estudar. \u201cMenos 50 pessoas na rua s\u00e3o menos quil\u00f4metros de ruas limpos\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Um levantamento realizado em 2007 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) revelou que, apenas no Distrito Federal, mais de 60 mil pessoas acima de 15 anos n\u00e3o sabem ler nem escrever. O pa\u00eds busca a meta de erradica\u00e7\u00e3o do analfabetismo at\u00e9 2024.<\/p>\n<p>Quando se trata do universo de garis em atua\u00e7\u00e3o em Bras\u00edlia, uma pesquisa mostrou que 60% dos 2.700 trabalhadores na capital federal s\u00e3o analfabetos ou n\u00e3o conclu\u00edram o ensino fundamental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 57 anos, Ana Rosa da Silva Santana come\u00e7a a desenhar as primeiras curvas das letras de seu nome. As m\u00e3os tr\u00eamulas mostram uma inseguran\u00e7a ainda persistente. \u201cMas eu vou vencer, sou uma guerreira\u201d, afirma. 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