{"id":206603,"date":"2019-04-09T01:37:22","date_gmt":"2019-04-09T04:37:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=206603"},"modified":"2019-04-09T09:42:21","modified_gmt":"2019-04-09T12:42:21","slug":"cultura-africana-ganha-espaco-nas-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cultura-africana-ganha-espaco-nas-escolas\/","title":{"rendered":"Cultura africana ganha espa\u00e7o nas escolas"},"content":{"rendered":"<p>Aos quatro anos de idade, o filho da historiadora Luciana Brito, de 40 anos, j\u00e1 estava passando pela terceira escola infantil. O menino tinha frequentado institui\u00e7\u00f5es &#8220;excelentes&#8221;, mas que ainda careciam de uma \u00eanfase na cultura africana e ind\u00edgena, algo que a m\u00e3e sentia falta. No ano passado, ela conheceu o projeto pedag\u00f3gico da Escolinha Maria Felipa, em Salvador, na Bahia, que nasceu para atender essa demanda &#8211; dela e de outros pais da cidade.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 comum ver nas crian\u00e7as estranhamento com o cabelo, por exemplo, no\u00e7\u00f5es de belo e feio. Meu filho tem total conforto com o dele e acha qualquer tipo bonito. Eu, como pessoa negra, aprendi que meu cabelo tinha problema, meu corpo, meu nariz, minha cor. Meu filho, na forma\u00e7\u00e3o da subjetividade dele, j\u00e1 entendeu que \u00e9 belo, inteligente, um menino que d\u00e1 e recebe afeto&#8221;, conta Luciana.<\/p>\n<p>O ensino oferecido na escola particular Maria Felipa resgata os grandes feitos dos antepassados negros para que as crian\u00e7as tenham prazer de ser descendentes deles. &#8220;[Queremos mostrar] que os antepassados vieram de grandes imp\u00e9rios, s\u00e3o fil\u00f3sofos, rainhas, reis, que o conhecimento amer\u00edndio \u00e9 avan\u00e7ado, n\u00e3o \u00e9 menor que a ci\u00eancia moderna&#8221;, diz Ian Cavalcante, s\u00f3cio-diretor da escola.<\/p>\n<p>As atividades, segundo ele, valorizam o conhecimento al\u00e9m dos euroc\u00eantricos, mas sem abandon\u00e1-los. &#8220;A ideia \u00e9 valorizar tudo.&#8221; A apresenta\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros para as crian\u00e7as, por exemplo, \u00e9 feita mostrando a foto de uma t\u00e1bua de contar eg\u00edpcia (\u00e1baco eg\u00edpcio) e contando a hist\u00f3ria por tr\u00e1s dela. &#8220;Isso fortalece a autoestima do meu filho e faz diferen\u00e7a para ele como crian\u00e7a e, sem d\u00favida, quando for adulto&#8221;, diz Luciana, que afirma tamb\u00e9m repassar esses valores para o menino em casa. O curr\u00edculo da escola bil\u00edngue inclui capoeira ensinada em portugu\u00eas, dan\u00e7as latinas e circo em espanhol, al\u00e9m de parte do conte\u00fado em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>A Maria Felipa ficou conhecida h\u00e1 pouco mais de duas semanas quando uma publica\u00e7\u00e3o nas redes sociais viralizou. Na ocasi\u00e3o, uma m\u00e3e que estava em busca de uma escola questionou sobre a presen\u00e7a de um professor transexual na institui\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s sugerir que o n\u00famero de matr\u00edculas havia diminu\u00eddo devido a isso, a escola respondeu: &#8220;Quem acha que uma pessoa trans, apenas por ser trans, n\u00e3o pode educar seu filho n\u00e3o merece a nossa escola&#8221;.<\/p>\n<p>Cavalcante conta que foi a primeira vez que uma situa\u00e7\u00e3o como essa ocorreu e afirma que, quem faz parte da comunidade da escola, a escolheu justamente por seu posicionamento. Mas a diversidade de g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica quest\u00e3o defendida, visto que trabalha em prol do respeito \u00e9tnico-racial.<\/p>\n<p><strong>Primeiros passos<\/strong><br \/>\nA escola de educa\u00e7\u00e3o infantil nasceu de uma preocupa\u00e7\u00e3o de Cavalcante e da mulher dele, que tamb\u00e9m \u00e9 professora. &#8220;Est\u00e1vamos em um processo longo de ado\u00e7\u00e3o, em que pedimos uma menina preta de tr\u00eas a seis anos, e come\u00e7amos a nos preocupar em qual escola coloc\u00e1-la&#8221;, conta. Professor bil\u00edngue de uma escola particular de classe m\u00e9dia alta em Salvador, ele diz que descartou todas as institui\u00e7\u00f5es desse n\u00edvel por terem um &#8220;ensino muito euroc\u00eantrico, de valores de competi\u00e7\u00e3o, muito caras e com poucas crian\u00e7as negras&#8221;. O casal cogitou colocar a filha numa escola p\u00fablica, mas pensou que a vaga poderia ser ocupada por outra cuja fam\u00edlia teria necessidades maiores que as dele.<\/p>\n<p>Brincando, eles pensaram em criar a pr\u00f3pria escola, mas depois o assunto ficou s\u00e9rio quando come\u00e7aram a discutir sobre pedagogia hist\u00f3rico-cr\u00edtica. &#8220;Tinha de ser uma escola com princ\u00edpios que buscassem uma sociedade mais equ\u00e2nime e priorizasse as matrizes ancestrais, africanas e amer\u00edndias&#8221;, relata Cavalcante. No final de 2017, eles conversaram com profissionais da educa\u00e7\u00e3o, pessoas da milit\u00e2ncia negra e amer\u00edndia, acad\u00eamicos e elaboraram o projeto pedag\u00f3gico da futura escola. No ano seguinte, fizeram eventos para apresentar a proposta e h\u00e1 dois meses iniciaram o primeiro ano letivo.<\/p>\n<p>Atualmente, a institui\u00e7\u00e3o atende 33 crian\u00e7as, de dois a cinco anos de idade. &#8220;A constru\u00e7\u00e3o da autoestima, da autoimagem no mundo, ocorre nessa faixa et\u00e1ria e \u00e9 essencial que as crian\u00e7as n\u00e3o se sintam deslocadas ou n\u00e3o carreguem preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o diretor. A escola tem uma campanha de arrecada\u00e7\u00e3o online a fim de conceder dez bolsas para crian\u00e7as em vulnerabilidade social.<\/p>\n<p><strong>Tecidos africanos na matem\u00e1tica<\/strong><br \/>\nEm S\u00e3o Paulo, a professora Concei\u00e7\u00e3o Fran\u00e7a atinge duas quest\u00f5es com a mesma proposta: ensinar cultura africana e melhorar o desempenho dos alunos em matem\u00e1tica, disciplina que costuma ter notas baixas em avalia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ela leciona na EMEF Antonio Duarte de Almeida, localizada na periferia na zona leste da cidade. \u00c9 nessas regi\u00f5es afastadas, onde ela trabalha h\u00e1 30 anos, que se encontra grande parte da popula\u00e7\u00e3o negra. Em suas pesquisas acad\u00eamicas, ela abordou a autoimagem da crian\u00e7a negra e percebeu que, na maioria dos casos, \u00e9 negativa.<\/p>\n<p>&#8220;Sempre trabalhei a quest\u00e3o \u00e9tnico-racial, por ser negra, por entender as quest\u00f5es de racismo e preconceito e por acreditar que a escola \u00e9 um lugar onde a gente pode positivar a identidade dessas crian\u00e7as&#8221;, diz Concei\u00e7\u00e3o. Por isso, j\u00e1 h\u00e1 alguns anos, ela trabalha a cultura afro-brasileira com as turmas, fazendo valer a Lei 10.639, de 2003, que torna obrigat\u00f3rio o ensino sobre hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e m\u00e9dio. Uma das abordagens que ela adota \u00e9 o uso de tecidos africanos para ensinar simetria e geometria.<\/p>\n<p>Ela utiliza um material espec\u00edfico, o pano da terra, feito por artes\u00e3os de Guin\u00e9-Bissau e Cabo Verde, de onde a professora os trouxe. Os tecidos t\u00eam padr\u00f5es geom\u00e9tricos que s\u00e3o transpostos pelas crian\u00e7as para o papel quadriculado. Mas, antes de chegar a isso, ela faz a interdisciplinaridade, ou seja, mostra onde est\u00e1 Cabo Verde, qual a cultura do local, o que \u00e9 feito por l\u00e1.<\/p>\n<p>Isso permite trabalhar a cultura africana em hist\u00f3ria, geografia, portugu\u00eas, literatura e inform\u00e1tica. &#8220;Quando se vai trabalhar hist\u00f3ria e cultura africana, \u00e9 muito importante que seja amplo, que a crian\u00e7a tenha uma vis\u00e3o geral.&#8221; Ao chegar na matem\u00e1tica, a bagagem de conhecimento j\u00e1 est\u00e1 cheia.<\/p>\n<p>&#8220;O resultado \u00e9 sempre muito bom, percebo isso nas falas [das crian\u00e7as], na melhora do comportamento, nas rela\u00e7\u00f5es entre elas. As n\u00e3o negras passam a respeitar mais as negras e estas se sentem mais valorizadas, porque sabem que seus antepassados tinham muito conhecimento&#8221;, afirma Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a implementa\u00e7\u00e3o da afro-\u00e9tnico-matem\u00e1tica, ela observou que, nas avalia\u00e7\u00f5es, a escola melhorou de forma significativa o aprendizado da disciplina. &#8220;A gente trabalha esse conhecimento na pr\u00e1tica, ela vivencia, \u00e9 o concreto: olha o tecido, desenha, constr\u00f3i outro desenho. Eles aprendem na pr\u00e1tica.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos quatro anos de idade, o filho da historiadora Luciana Brito, de 40 anos, j\u00e1 estava passando pela terceira escola infantil. O menino tinha frequentado institui\u00e7\u00f5es &#8220;excelentes&#8221;, mas que ainda careciam de uma \u00eanfase na cultura africana e ind\u00edgena, algo que a m\u00e3e sentia falta. 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