{"id":206929,"date":"2019-04-15T00:17:38","date_gmt":"2019-04-15T03:17:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=206929"},"modified":"2019-04-15T08:29:58","modified_gmt":"2019-04-15T11:29:58","slug":"djavan-e-todos-os-homens-que-vivem-nele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/djavan-e-todos-os-homens-que-vivem-nele\/","title":{"rendered":"Djavan e todos os homens que vivem nele"},"content":{"rendered":"<p>Havia uma pausa de tr\u00eas anos depois da turn\u00ea de Vidas Pra Contar, de 2015. Ali j\u00e1 era um show grandioso, unindo as duas pontas de um tecido que Djavan costura com leveza: a complexidade abrangente, a estranheza pop, a liberdade respons\u00e1vel. Conceitos que poderiam ser incompat\u00edveis reagem complementares e desafiadores. Como m\u00fasicas que poderiam ser de nicho atingem tantas pessoas? O pop n\u00e3o deveria andar de m\u00e3os dadas com o simplismo? N\u00e3o \u00e9 o que os agentes de m\u00eddia repetem tantas vezes? Aos 70 anos, Djavan implode esses conceitos quando sobe a um palco para mostrar o espet\u00e1culo baseado em Ves\u00favio, seu novo \u00e1lbum.<\/p>\n<p>Ele chega mais solto, mais entreteiner, caminhando pelo palco com agilidade, de chap\u00e9u marrom alongado na copa e \u00f3culos divertidos de aros grossos brancos. O quinteto ao lado mistura dois mundos, criando de novo a pororoca de naturezas em que ele surfa. A guitarra de Jo\u00e3o Castilho, o piano de Paulo Calasans e o teclado de Renato Fonseca s\u00e3o seus portos, experientes em sua linguagem, a mesma que os m\u00fasicos n\u00e3o entendiam quando ele apareceu no Rio ca\u00eddo solit\u00e1rio da espa\u00e7onave partida das Alagoas. O baixista Arthur de Palla e o baterista Felipe Alves, mais jovens, v\u00eam com a vibra\u00e7\u00e3o pop quente, flutuando quando \u00e9 ar, suingando quando \u00e9 ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Seu disco novo empresta algumas das m\u00fasicas da noite. A que abre \u00e9 Viver \u00e9 Dever, que poderia estar em qualquer outro \u00e1lbum se n\u00e3o fosse por um alarme que soa sem fazer barulho. \u201cTudo vai mal, muito sal \/ Nada vai bem pra ningu\u00e9m \/ Nessa press\u00e3o quem h\u00e1 de dar a m\u00e3o \/ Pra que o mundo saia l\u00e1 do fundo.\u201d Mais pra frente tem Solitude, ouito protesto que fala mais pelo poder de provocar o sil\u00eancio. \u201cGuerra vende armas, mant\u00e9m cargos, destr\u00f3i sonhos tudo de uma vez.\u201d<\/p>\n<p>Djavan n\u00e3o \u00e9 um homem de rupturas. Logo depois de surgir em 1976 com A Voz, O Viol\u00e3o, A M\u00fasica de Djavan, descoberto pelo pai de Cazuza, Jo\u00e3o Ara\u00fajo, tubar\u00e3o da Som Livre, ele j\u00e1 sabia o que queria e o que funcionava, mesmo com a desanimadora rea\u00e7\u00e3o dos primeiros ouvintes e com conselhos do tipo, \u201cseja um sambista!\u201d. Alguns traumas com produtores dos anos 80 o fizeram tomar ent\u00e3o a decis\u00e3o de manter as r\u00e9deas de todos os processos de produ\u00e7\u00e3o. Da composi\u00e7\u00e3o aos arranjos, das letras \u00e0 escolha dos m\u00fasicos, tudo tem a sua assinatura. \u00c9 raro v\u00ea-lo em parcerias, nas letras, no disco ou no palco. Um selo pr\u00f3prio, luanda Records, veio tamb\u00e9m para resolver os problemas com gravadoras.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o que traz a liberdade tamb\u00e9m cobra um pre\u00e7o, e ele pode estar em coment\u00e1rios que se ouve de quem n\u00e3o entende muito de sua obra e o ouve com os ouvidos verdes, aqueles que trazem as informa\u00e7\u00f5es mais valiosas para um artista: de uns tempos para c\u00e1, as m\u00fasicas novas de Djavan n\u00e3o se parecem muito umas com as outras? Uma segunda audi\u00e7\u00e3o mostra que n\u00e3o, o oceano ali \u00e9 grande, mas a sensa\u00e7\u00e3o de se ouvir can\u00e7\u00f5es de um mesmo disco h\u00e1 algum tempo pode ser sintoma de sua resist\u00eancia em trabalhar sob o comando de um produtor. Algu\u00e9m que o desafie, que o arranque do prumo, que o coloque na linha do tiro da reinven\u00e7\u00e3o e na possibilidade do fracasso que mora no encontro com o outro.<\/p>\n<p>\u201cEu j\u00e1 fa\u00e7o isso h\u00e1 anos\u201d, pode ser sua resposta ao cantar para uma plateia quente do Credicard Hall m\u00fasicas t\u00e3o difusas como Cigano, Madressilva, Esquinas, que ele n\u00e3o mostrava havia 20 anos, e Quero Quero, que traz alguns segredos de sua mente: ser livre na primeira parte, fazer o jazz, e preparar para um refr\u00e3o redentor, explosivo e sequestrador na dan\u00e7a, na m\u00fasica e no verbo. Ou quando faz a demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a, seu teste nuclear, enfileirando, n\u00e3o nessa ordem mas tamb\u00e9m poderia ser, Se, Sina, Oceano, Lil\u00e1s, Flor de Lis e tudo o que coloca a plateia na palma de sua m\u00e3o em qualquer ocasi\u00e3o. S\u00e3o inesgot\u00e1veis e frutos de todos os Djavans que existem ali. Seu pr\u00f3ximo passo poderia ser descobrir no outro os que n\u00e3o existem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia uma pausa de tr\u00eas anos depois da turn\u00ea de Vidas Pra Contar, de 2015. Ali j\u00e1 era um show grandioso, unindo as duas pontas de um tecido que Djavan costura com leveza: a complexidade abrangente, a estranheza pop, a liberdade respons\u00e1vel. Conceitos que poderiam ser incompat\u00edveis reagem complementares e desafiadores. 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