{"id":207746,"date":"2019-05-05T08:26:08","date_gmt":"2019-05-05T11:26:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=207746"},"modified":"2019-05-05T08:26:08","modified_gmt":"2019-05-05T11:26:08","slug":"fabiana-cozza-enche-a-voz-cantando-dona-ivone-lara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fabiana-cozza-enche-a-voz-cantando-dona-ivone-lara\/","title":{"rendered":"Fabiana Cozza enche a voz cantando Dona Ivone Lara"},"content":{"rendered":"<p>O samba sem cor de Dona Ivone Lara acaba de ganhar uma de suas mais especiais interpreta\u00e7\u00f5es. A cantora Fabiana Cozza, que no ano passado renunciou ao papel de Dona Ivone no musical que contaria sua hist\u00f3ria depois de ler coment\u00e1rios seguidos de ofensas nas redes sociais julgando-a n\u00e3o ser preta o suficiente para representar a sambista no palco, aceitou um convite da gravadora Biscoito Fino e fez Canto da Noite na Boca do Forno, um \u00e1lbum com m\u00fasicas de uma das mais importantes compositoras brasileiras.<\/p>\n<p>Por si, o disco \u00e9 espl\u00eandido, com um tratamento singular nas melodias de Ivone e na voz de Fabiana. H\u00e1 pouca marca\u00e7\u00e3o r\u00edtmica, a instrumenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 nos detalhes e, assim, tudo fica maior e mais evidente, transpassando quem ouve com uma verdade de sil\u00eancios arrebatadora. Por tudo o mais, o \u00e1lbum \u00e9 uma resposta do tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 um efeito imediato com a extra\u00e7\u00e3o da sess\u00e3o r\u00edtmica. A voz de Fabiana, conduzida pelo viol\u00e3o de Alessandro Penezzi, sobe e brilha, transbordando na dor que os dias que a castigaram deixaram em sua fala. O sil\u00eancio soa mais alto que o grito, como em uma ora\u00e7\u00e3o, e Enredo do Meu Samba ganha a inten\u00e7\u00e3o certa. Aquilo \u00e9 triste, mas ningu\u00e9m havia pensado em interpretar assim: \u201cN\u00e3o entendi o enredo desse samba, amor \/ J\u00e1 desfilei na passarela do teu cora\u00e7\u00e3o \/ Gastei a subven\u00e7\u00e3o do amor que voc\u00ea me entregou \/ passei pro segundo grupo e com raz\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Algu\u00e9m me Avisou \u00e9 outro redimens\u00e3o da import\u00e2ncia de Dona Ivone. Sem as turbinas do surdo e o calor dos tamborins, fica o verso de Fabi e o lirismo de Penezzi. \u201cForam me chamar, eu estou aqui o que \u00e9 que h\u00e1&#8230;\u201d Algo t\u00e3o entranhado no brasileiro branco, pardo e preto, em qualquer grau de melanina, que o afeto da mem\u00f3ria leva quem ouve para o lugar que ele desejar, \u00e0 revelia at\u00e9 mesmo da for\u00e7a calorosa da convidada Maria Beth\u00e2nia.<\/p>\n<p>A abertura parece algo escrito pela pr\u00f3pria Fabiana, e talvez seja mesmo o recado. Dona Ivone diz assim, ao lado de D\u00e9lcio Carvalho, na letra de Meu Samba \u00e9 Luz, \u00e9 C\u00e9u, \u00e9 Mar: \u201cQuero arrancar da minha mente \/ Tristeza, saudade \/ Quero espalhar pra toda gente \/ a minha verdade \/ Quero soltar, enfim \/ a alegria que existe em mim \/ Que querem sufocar \/ lentamente at\u00e9 matar\u201d.<\/p>\n<p>Fabiana Cozza sangrou para que, \u00e0 parte dos fomentadores do \u00f3dio sem crit\u00e9rios, uma discuss\u00e3o delicada viesse \u00e0 tona. Assim que decidiu deixar o elenco do musical Dona Ivone Lara \u2013 Um Sorriso Negro, ela escreveu uma carta e a divulgou no calor dos \u00e2nimos. \u201cO racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. Renuncio hoje ao papel de Dona Ivone Lara no musical ap\u00f3s ouvir muitos gritos de alerta \u2013 n\u00e3o os ladridos raivosos. Aprendo diariamente no exerc\u00edcio da arte \u2013 e mais recentemente no da academia, sempre com os meus mestres \u2013 que escuta \u00e9 lugar de reconhecimento da exist\u00eancia do outro, \u00e9 o espelho de n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Algumas pessoas passaram a bombarde\u00e1-la com mensagens raivosas por entenderem que Fabiana tentou representar no palco uma mulher com a pele de pigmenta\u00e7\u00e3o mais escura que a dela, em uma esp\u00e9cie de desvirtuamento gen\u00e9tico. O colorismo mostraria como as pessoas de pele mais escura sofreriam preconceitos maiores. Em outras palavras, quanto mais preto, maior o preconceito. E as amea\u00e7as chegaram. \u201cEstamos de olho em voc\u00ea, presta aten\u00e7\u00e3o, cuidado com suas escolhas daqui pra frente\u201d, foi o teor de algumas.<\/p>\n<p>Fabi se recolheu. \u201cQuando li aquelas pessoas pedindo que eu sa\u00edsse do espet\u00e1culo, fiquei abalada.\u201d Ela acabou embarcando para Cuba, para um concerto j\u00e1 marcado na Escola Superior de Arte, e teve o abra\u00e7o que precisava. Havia acabado de lan\u00e7ar um \u00e1lbum com a obra do pianista cubano Bola de Nieve, Ay Amor, e recebeu um carinho que n\u00e3o esperava. \u201cAquilo foi meu ref\u00fagio afetivo. Acabei amando ainda mais aquele pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>Antes de ser convidada para o fazer o musical, Fabiana j\u00e1 havia cantado a obra de Dona Ivone em 2005, com o mesmo Alessandro Penezzi, um especialista no assunto, no Sesc Santo Andr\u00e9, e em 2006, ao lado da pr\u00f3pria Dona Ivone, em outro projeto chamado Quebrada Cultural, em que um artista consagrado aben\u00e7oava um emergente.<\/p>\n<p>Ao voltar ao Brasil, o assunto ainda ecoava, e veio um convite solid\u00e1rio da gravadora Biscoito Fino. \u201cAs portas est\u00e3o abertas para um disco sobre Dona Ivone Lara.\u201d Fabiana ficou em sil\u00eancio por um tempo. \u201cEu havia sido tirada do lugar que constru\u00ed como mulher negra.\u201d Foi aos amigos, \u00e0 fam\u00edlia, falou com sua empres\u00e1ria e consultou os orix\u00e1s. Gravar Dona Ivone Lara, a mulher se armou com sambas de amor contra qualquer forma de segregacionismo at\u00e9 sua morte, aos 96 anos, em 2018, j\u00e1 n\u00e3o era mais uma escolha.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio ainda rende. \u201cEu n\u00e3o culpo os movimento negros, isso sempre foi coisa de extremista\u201d, diz Fabiana. Acad\u00eamicos abriram rodas, pesquisadores passaram e olhar para a quest\u00e3o e pessoas da comunidade art\u00edstica se manifestaram. O rapper Emicida deu uma entrevista. \u201cUma pessoa que est\u00e1 lutando h\u00e1 20 anos sozinha pelo samba ter a etnia contestada por quem n\u00e3o a conhece? Essa menina est\u00e1 lutando em nome dos orix\u00e1s por 20 anos!\u201d O professor congol\u00eas Kabengele Munanga, da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo da Bahia, com mestrado em Antropologia na USP, desenvolveu sua resposta ao jornal A Tarde.<\/p>\n<p>\u201cO que acontece \u00e9 que algumas pessoas n\u00e3o t\u00eam consci\u00eancia do conceito de negro. A defini\u00e7\u00e3o de negro no Brasil \u00e9 pol\u00edtica&#8230; E agora, os pr\u00f3prios negros est\u00e3o se dividindo entre eles.\u201d E a professora Diva Moreira fez uma explana\u00e7\u00e3o em um canal no You Tube: \u201cAs pessoas miscigenadas foram convidadas por n\u00f3s do movimento negro no censo de 1991 para se declararem negras. Fal\u00e1vamos a elas: \u2018N\u00e3o deixe sua cor passar em branco, responda com bom senso, pense e se declare como pessoa negra\u2019. Como ficamos agora com rela\u00e7\u00e3o a essas pessoas?\u201d Quanto ao disco de Fabiana Cozza cantando Dona Ivone Lara, ningu\u00e9m ainda manifestou indigna\u00e7\u00e3o por conta de legitimidades crom\u00e1ticas. Quem sabe um despertar? O samba de Dona Ivone, assim como sua alma, nunca tiveram cor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O samba sem cor de Dona Ivone Lara acaba de ganhar uma de suas mais especiais interpreta\u00e7\u00f5es. 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