{"id":208196,"date":"2019-05-14T00:24:32","date_gmt":"2019-05-14T03:24:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=208196"},"modified":"2019-05-14T08:29:10","modified_gmt":"2019-05-14T11:29:10","slug":"vento-soa-brando-nas-cordas-de-joao-camarero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vento-soa-brando-nas-cordas-de-joao-camarero\/","title":{"rendered":"Vento soa brando nas cordas de Jo\u00e3o Camarero"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 algo nas m\u00e3os de Jo\u00e3o Camarero que s\u00f3 est\u00e1 l\u00e1. Uma agilidade sem nervos, uma entrega sem esfor\u00e7os e a certeza de que podem chegar onde quiserem sem deixar rastros entre a partida e o destino. H\u00e1 sons e pausas, euforia e lamento e uma destreza para desenhar figuras intrincadas com acabamentos de pinceladas barrocas, subindo e descendo pelas sete cordas, algo t\u00e3o surpreendente que contrasta com a figura de seu pr\u00f3prio rosto, um rosto pl\u00e1cido que se comporta como se nada acontecesse. Chega o momento em que aquelas m\u00e3os n\u00e3o parecem mais obedecer aos comandos do c\u00e9rebro, que poderia tension\u00e1-las diante da racionaliza\u00e7\u00e3o de um desafio, mas de algum lugar que bombeia o pr\u00f3prio sangue.<\/p>\n<p>Seu nome \u00e9 Jo\u00e3o Camarero e ele s\u00f3 tem 28 anos. \u201c\u00c9 um craque do viol\u00e3o de sete cordas. Ele conseguiu pegar informa\u00e7\u00f5es principalmente de Raphael Rabello e colocar nos dias de hoje. Seu viol\u00e3o \u00e9 brejeiro, t\u00edpico do choro, mas ao mesmo tempo ele se desenvolveu como solista tocando m\u00fasicas de Radam\u00e9s Gnattali. Acho que ele tem uma bela hist\u00f3ria com o viol\u00e3o brasileiro pela frente\u201d, diz o bandolinista Hamilton de Holanda, o melhor em seu instrumento. \u201cSe (o violonista) Dino Sete Cordas disse que eu seria seu sucessor, posso dizer ent\u00e3o que passo o bast\u00e3o para Jo\u00e3o. Esse garoto \u00e9 a maior revela\u00e7\u00e3o do viol\u00e3o\u201d, diz Luizinho Sete Cordas, uma das lendas do instrumento na linguagem do choro.<\/p>\n<p>O segundo \u00e1lbum de Jo\u00e3o Camarero, Vento Brando, sai agora por um dos mais respeitados selos especializados em viol\u00e3o do mundo, o Guitar Coop. Apesar de impressionar pelo grau de dificuldade, os temas que escolhe, e sobretudo a forma com que apresenta cada um deles, n\u00e3o apostam em um impressionismo baseado na virtude das velocidades e das explos\u00f5es, o que j\u00e1 \u00e9 um trunfo. Se fosse seguir a linguagem vigente entre muitos de seus pares do chamado choro moderno \u2013 e ela tamb\u00e9m tem seu valor \u2013 Camarero fecharia os olhos, se contorceria na cadeira e buscaria a velocidade das frases que absorvem o espectador desde que Jimi Hendrix reinventou o espet\u00e1culo. Pois tudo em Camarero, apesar da t\u00e9cnica sobrando, persegue tanto as notas limpas quanto as pausas profundas.<\/p>\n<p>Sua origem est\u00e1 em Avar\u00e9, no interior de S\u00e3o Paulo, onde cresceu vendo rodas de m\u00fasicos na espa\u00e7osa casa dos pais. Ningu\u00e9m tocava na fam\u00edlia mas o garoto estava ali, absorvendo o que podia dos chor\u00f5es da cidade. Os estudos vieram dos 14 para os 15 anos, quando j\u00e1 sabia o que seria da vida. \u201cComparado a outros m\u00fasicos, comecei tarde.\u201d O coment\u00e1rio indica um certo grau de preciosismo. Mais tarde, em 2007, seguiu para Tatu\u00ed, onde ficou por um ano no conservat\u00f3rio e abriu as primeiras portas para uma vida profissional. \u201cFoi quando comecei a trabalhar sempre como acompanhante nas sete cordas de a\u00e7o.\u201d E de l\u00e1, finalmente S\u00e3o Paulo. \u201cEle chegou dizendo que era de Avar\u00e9. Quando o vi tocar, falei com Danilo Brito (bandolinista) para que tocasse em seu grupo. Houve uma certa resist\u00eancia, mas porque n\u00e3o o conheciam. Eu olhava e pensava que Jo\u00e3o podia estar perdendo coisas da juventude por estudar tanto, mas sua m\u00fasica s\u00f3 ganhava\u201d, lembra Luizinho, o primeiro professor em S\u00e3o Paulo. \u201cEu quase dormia l\u00e1\u201d, fala Camarero. \u201cFicava o dia todo estudando at\u00e9 que ele me colocou para trabalhar com um monte de gente.\u201d<\/p>\n<p>E um monte de gente come\u00e7ou a conhec\u00ea-lo para al\u00e9m de S\u00e3o Paulo. As rodas de choro do Rio, sobretudo de pontos como o Bar Semente, na Lapa, come\u00e7aram a se acostumar com a presen\u00e7a de um garoto cheio de discri\u00e7\u00e3o na postura e desconcertos na execu\u00e7\u00e3o. Ao v\u00ea-lo pela primeira vez, Paulinho da Viola brincou com sua fisionomia e, por tabela, com seu jeito de tocar, dizendo que s\u00f3 podia ser \u201cfilho de Raphael Rabello\u201d, um dos mais importantes violonistas do Brasil, morto em 1995. O coment\u00e1rio pegou um familiar de Raphael de surpresa. \u201cAlgu\u00e9m levou isso a s\u00e9rio, mas era s\u00f3 brincadeira\u201d, diz o m\u00fasico. A parte que n\u00e3o \u00e9 fake news diz respeito \u00e0s influ\u00eancias. Raphael \u00e9 uma das maiores fontes de Camarero. \u201c\u00c9 de onde eu vim mesmo\u201d, diz sobre seu estilo limpo e preciso de chegar \u00e0s notas.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, ainda dos anjos que aparecem pela estrada, vem Crist\u00f3v\u00e3o Bastos. As aulas com o pianista e arranjador, criador de Nana Caymmi, Chico Buarque, Elton Medeiros e tantos outros, desfizeram o que o ensino erudito muitas vezes cria sem querer. Por ter se embrenhado pelo viol\u00e3o dos cl\u00e1ssicos, Camarero tinha regras p\u00e9treas pesando sobre sua cria\u00e7\u00e3o. Como poderia uma mesma m\u00fasica ter um acorde de nona maior com um intervalo de nona menor na ponta? Um choque proibido na teoria, que produziria um desconforto insuport\u00e1vel aos te\u00f3ricos, um ru\u00eddo, uma desarmonia t\u00edpica de quem desconhecia o que estava fazendo. \u201cEle ent\u00e3o me mostrou uma pe\u00e7a de Mahler e provou que era poss\u00edvel sim.\u201d Ou do pensamento harm\u00f4nico, caminhando de forma vertical pelo bra\u00e7o do viol\u00e3o, e n\u00e3o em blocos. \u201cIsso me permitiu criar mais caminhando pelo instrumento, harmonizando de outras formas, algo que me libertou de muitas coisas.\u201d<\/p>\n<p>Antes de entrar em est\u00fadio para o segundo disco (o primeiro \u00e9 de 2016) Camarero fez um convite a Ricardo Dias, um mestre da lutheria, construtor de viol\u00e3o dos mais respeitados no Pa\u00eds, para produzi-lo. Ele mesmo escreve no encarte: \u201cUm grande amigo me disse de um seu aluno: \u2018Precisa conhecer, o cara \u00e9 incr\u00edvel!\u2019 \u2018Est\u00e1 tendo aula por qu\u00ea?\u2019 \u2018Ele n\u00e3o est\u00e1 satisfeito com a t\u00e9cnica, quer dar uma limpada\u2019\u201d. Dias avisou a Camarero que tinha medo de engess\u00e1-lo, j\u00e1 que seu olhar era cl\u00e1ssico. \u201cTolice minha\u201d, disse, depois de conhec\u00ea-lo. \u201cJo\u00e3o Camarero \u00e9 \u2018inengess\u00e1vel\u2019!\u201d<\/p>\n<p>Aos violonistas, talvez ao contr\u00e1rio de muitas outras linguagens, \u00e1lbuns n\u00e3o s\u00e3o o retrato de um momento, mas o ac\u00famulo de uma vida. Assim, Vento Brando reproduz desde o olhar do menino arrebatado na casa dos pais de Avar\u00e9 at\u00e9 as horas de estudo com Luizinho e Crist\u00f3v\u00e3o Bastos. De Radam\u00e9s Gnattali, h\u00e1 Tocata em Ritmo de Samba e Choro. De Garoto, Inspira\u00e7\u00e3o e Enigma. Barrios \u00e9 lembrado com Valsa n\u00ba 3; Canhoto da Para\u00edba tem Quadradinho; Raphael Rabello e Paulo C\u00e9sar Pinheiro v\u00eam com Camar\u00e1; e Jo\u00e3o Lyra, que participa da grava\u00e7\u00e3o, est\u00e1 presente com Makarasu. A face compositor de Camarero aparece em O Maestro na Farra, Paulistano (com Rafael Mallmith) e no t\u00edtulo do \u00e1lbum, Vento Brando (com Crist\u00f3v\u00e3o Bastos).<\/p>\n<p>\u201cEu me sinto um pouco andando na contram\u00e3o do que as pessoas est\u00e3o fazendo\u201d, ele diz. \u201cSei que existe o tocar r\u00e1pido, com muitas notas, mas prefiro sensibilizar as pessoas de outras formas.\u201d Sua apari\u00e7\u00e3o serve tamb\u00e9m para fazer lembrar de que a m\u00fasica, por si, quando verdadeira, j\u00e1 \u00e9 um espet\u00e1culo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 algo nas m\u00e3os de Jo\u00e3o Camarero que s\u00f3 est\u00e1 l\u00e1. 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