{"id":208517,"date":"2019-05-21T06:44:38","date_gmt":"2019-05-21T09:44:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=208517"},"modified":"2019-05-21T10:50:05","modified_gmt":"2019-05-21T13:50:05","slug":"uma-longa-e-angustiante-viagem-para-curar-a-fossa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/uma-longa-e-angustiante-viagem-para-curar-a-fossa\/","title":{"rendered":"Uma longa e angustiante viagem para curar a fossa"},"content":{"rendered":"<p>O rapaz \u00e9 abandonado pelo namorado e, em vez de curtir a fossa pelas baladas da vida, resolve iniciar um tour pelo mundo. Eis a\u00ed a linha narrativa da simp\u00e1tica com\u00e9dia rom\u00e2ntica gay 45 Dias Sem Voc\u00ea, de Rafael Gomes. O protagonista tamb\u00e9m se chama Rafael (Rafael de Bona) e, diante da separa\u00e7\u00e3o, visita amigas e amigos que moram, na sequ\u00eancia, em Londres, Coimbra, Lisboa, Paris e Buenos Aires. Um p\u00e9riplo breve, por\u00e9m refinado, quase um circuito Elizabeth Arden da dor de cotovelo.<\/p>\n<p>O \u201cclima\u201d est\u00e9tico \u00e9 o de um naturalismo suave, que lembra o de uma sitcom. Como se o diretor optasse por registrar \u201ca vida como ela \u00e9\u201d, tanto nos di\u00e1logos como na maneira de enquadrar os diversos personagens contra a moldura das cidades ou dos apartamentos onde vivem. Nada parece estilizado. Tudo parece natural. E clean.<\/p>\n<p>Essa \u201climpeza\u201d d\u00e1 o tom do filme. Um ambiente interpessoal chique em que se pode conversar de males de amor em meio a cita\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e preocupa\u00e7\u00f5es profissionais. O segmento em que se movem \u00e9 o art\u00edstico, com direito a cita\u00e7\u00f5es de Shakespeare e Julio Cort\u00e1zar. Ali\u00e1s, Rafael, o personagem, imp\u00f5e uma regra aos seus interlocutores, a de nunca, jamais, sob hip\u00f3tese alguma, nomear aquele que o deixou na m\u00e3o em troca de um antigo namorado que tamb\u00e9m vive no exterior. A m\u00e1xima dica \u00e9 que o ingrato tem o mesmo nome do \u201csegundo soldado\u201d da pe\u00e7a Hamlet. Confiram.<\/p>\n<p>No mais, trata-se de uma hist\u00f3ria de deambula\u00e7\u00e3o, de movimento, se quiserem. N\u00e3o se trata apenas de um road movie sentimental, mesmo porque os deslocamentos se fazem por via a\u00e9rea. Mas, sobretudo, porque os road movies de verdade valem-se da mudan\u00e7a de paisagem e dos incidentes de rota para sinalizar a transforma\u00e7\u00e3o do personagem. No entanto, em 45 Dias sem Voc\u00ea, o arco dram\u00e1tico \u00e9 quase inexistente. Rafael vai e volta do mesmo jeito, ou pelo menos \u00e9 o que sentimos como espectadores.<\/p>\n<p>O longa n\u00e3o deixa de ter certo encanto com seus incidentes de viagem que, de certa forma, tiram o personagem, mesmo que um pouco, do seu sofrimento autocentrado \u2013 a dor, como se sabe, opera pr\u00f3xima demais ao ego e transmite \u00e0quele que a sente a ilus\u00e3o de ser o centro do mundo.<\/p>\n<p>Talvez seja esta a origem da m\u00e1 vontade de certos meios em rela\u00e7\u00e3o ao filme. \u201cLimpinho demais, egoc\u00eantrico, sem consci\u00eancia de problemas mais graves\u201d, ouviu-se (e leu-se) nos meios da cr\u00edtica. Esses coment\u00e1rios n\u00e3o deixam de ter certa raz\u00e3o. Sentimos falta de maior aprofundamento de Rafael em rela\u00e7\u00e3o ao seu deslocamento por v\u00e1rios pa\u00edses. Certas situa\u00e7\u00f5es t\u00eam gra\u00e7a, como a sua dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o com a dona da casa que aluga um quarto \u00e0 sua amiga. Mas continuamos com a impress\u00e3o de que ele n\u00e3o est\u00e1 de todo l\u00e1 e que os cen\u00e1rios de Londres (no caso) s\u00e3o mais decorativos do que seria a imers\u00e3o numa realidade diferente, que poderia, por isso mesmo, perturb\u00e1-lo e modific\u00e1-lo. Tal percep\u00e7\u00e3o se repete pelas outras cidades onde passa.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que o filme n\u00e3o tenha m\u00e9ritos ou qualidades. \u00c9 agrad\u00e1vel de ver e tra\u00e7a um quadro interessante do universo jovem (por\u00e9m nem tanto) de uma classe m\u00e9dia intelectualizada, plugada no mundo moderno e que muitas vezes sai do pa\u00eds em busca de alguma outra coisa. Em geral, nem sabem bem o qu\u00ea, mas existe esse impulso de descoberta, de experi\u00eancia no exterior, que fascina muita gente, em especial em certa faixa et\u00e1ria, antes da chegada de compromissos maiores como empregos fixos, casamentos e filhos. O filme faz uma breve passagem por esse processo de auto-ex\u00edlio que, nesses casos, n\u00e3o passa, em geral, de busca de si mesmo a partir de um ponto de vista exterior, isto \u00e9, fora do seu pa\u00eds de origem. \u00c9 pena que isso seja mais insinuado que explicitado. Falta aprofundamento.<\/p>\n<p>E esta falta de profundidade talvez se reflita na aus\u00eancia de maturidade do protagonista, o que nos leva muitas vezes a supor que estamos assistindo a uma hist\u00f3ria adolescente, o que n\u00e3o \u00e9 o caso. A tentativa de articula\u00e7\u00e3o com o mundo adulto n\u00e3o se d\u00e1 por situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas consistentes, mas por di\u00e1logos que querem soar inteligentes, mas, por artificiais, s\u00f3 conseguem contrastar com o naturalismo da filmagem. N\u00e3o a toda hora, mas vez por outra o espectador \u00e9 brindado com cita\u00e7\u00f5es de Nietzsche e Barthes, al\u00e9m dos j\u00e1 citados Shakespeare e Cort\u00e1zar, este autor do cl\u00e1ssico Rayuela (O Jogo da Amarelinha), e que tem muito a ver com esse tema da expatria\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria &#8211; mas ent\u00e3o num bordado cheio de vida e de fato l\u00fadico e adulto.<\/p>\n<p>Em registro discreto, o trabalho de atores \u00e9 bom, a come\u00e7ar por Rafael de Bona, com destaque tamb\u00e9m para as personagens femininas vividas por J\u00falia Correa e Mayara Constantino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rapaz \u00e9 abandonado pelo namorado e, em vez de curtir a fossa pelas baladas da vida, resolve iniciar um tour pelo mundo. Eis a\u00ed a linha narrativa da simp\u00e1tica com\u00e9dia rom\u00e2ntica gay 45 Dias Sem Voc\u00ea, de Rafael Gomes. 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