{"id":208924,"date":"2019-05-29T17:42:21","date_gmt":"2019-05-29T20:42:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=208924"},"modified":"2019-05-29T17:42:21","modified_gmt":"2019-05-29T20:42:21","slug":"fim-do-misterio-ja-sem-sabe-quem-matou-dom-quixote","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/fim-do-misterio-ja-sem-sabe-quem-matou-dom-quixote\/","title":{"rendered":"Fim do mist\u00e9rio. J\u00e1 sem sabe quem matou Dom Quixote"},"content":{"rendered":"<p>Durante mais de 20 anos, Orson Welles tentou realizar sua transposi\u00e7\u00e3o do romance m\u00edtico de Miguel de Cervantes para a Espanha contempor\u00e2nea, mas estava escrito que seu Dom Quixote permaneceria inacabado \u2013 em 1960 e 72, as mortes dos atores Francisco Regueira (Quixote) e Akim Tamiroff (Sancho Pan\u00e7a) colocaram fim ao ambicioso projeto. Ao se lan\u00e7ar \u00e0 sua adapta\u00e7\u00e3o, Terry Gilliam talvez n\u00e3o imaginasse o tanto de dificuldades que tamb\u00e9m iria enfrentar.<\/p>\n<p>Em termos de tempo, o per\u00edodo foi maior ainda. 30 anos! Inclu\u00edram a morte de Jean Rochefort, que seria Sancho Pan\u00e7a, a falta de recursos da produtora do portugu\u00eas Paulo Branco \u2013 dos filmes de Manoel de Oliveira \u2013 para sustentar a imagina\u00e7\u00e3o delirante do cineasta, e as in\u00fameras batalhas judiciais.<\/p>\n<p>Durante o processo, Gilliam perdeu os direitos, mas nem isso o fez desistir. Ele prosseguiu com o filme \u00e0 revelia de Branco, um amigo de Cannes, mas que tentou embargar a apresenta\u00e7\u00e3o especial, como obra de encerramento no Festival de Cannes do ano passado. A ova\u00e7\u00e3o que Gilliam recebeu no palais pouco ou nada teve a ver com as qualidades do filme, e sim como um reconhecimento \u00e0 tenacidade do artista. \u201cConsegui!\u201d, bradou o ex-Monty Python, para logo acrescentar, reconhecendo o esfor\u00e7o coletivo, \u201cconseguimos!\u201d<\/p>\n<p>\u201cWe got it\u201d \u2013 e foi com al\u00edvio que Gilliam havia feito a \u2018mont\u00e9e des marches\u2019, a tradicional subida da escadaria do Grand Th\u00e9\u00e2tre Lumi\u00e8re. Ex-integrante do irreverente humor\u00edstico ingl\u00eas, ele, na sua fase independente do grupo ingl\u00eas, fez filmes como Brazil, Os Doze Macacos, O Pescador de Ilus\u00f5es, As Aventuras do Bar\u00e3o Munchausen, Medo e Del\u00edrio, Os Irm\u00e3os Grimm, etc. V\u00e1rios desses filmes lidam com os dilemas da cria\u00e7\u00e3o e da arte, e O Homem Que Matou Dom Quixote n\u00e3o foge \u00e0 regra. Adam Driver faz um cineasta c\u00ednico que entra na loucura de um sapateiro espanhol que se considera o pr\u00f3prio cavaleiro da triste figura. Jonathan Pryce \u00e9 quem faz o Quixote, e as aventuras do her\u00f3i de Cervantes passam a ser as dele, e de Driver \u2013 que se chama Toby.<\/p>\n<p>O diretor do filme dentro do filme, tal como est\u00e1 na tela, \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o do escritor Tony Grisoni, que h\u00e1 quatro anos \u2013 cinco, pois Gilliam fez essas declara\u00e7\u00f5es em Cannes, 2018 \u2013, tem levado muita gente a ver O Homem Que Matou Dom Quixote como autobiogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>\u201cSem d\u00favida que seria outro filme, se eu tivesse conseguido conclu\u00ed-lo antes. Minha percep\u00e7\u00e3o do mundo e da arte, da pr\u00f3pria vida, mudou muito porque se trata de um lapso de tempo muito grande, e muita coisa ocorreu comigo. Os atores foram se sucedendo e, mesmo os que n\u00e3o est\u00e3o no filme, acabado enriquecendo meu olhar sobre o personagem. E, no final, n\u00e3o sou eu, mas um livro imenso, que abarca a experi\u00eancia humana, e que eu, numa esp\u00e9cie de del\u00edrio, me dediquei, obsessivamente, a formatar, como obra cinematogr\u00e1fica, para o espectador. O pr\u00f3prio cinema mudou, mas a ideia foi sempre abordar a imortalidade do Quixote como personagem, e buscar equivalentes para complexidade da escrita.\u201d<\/p>\n<p>Gilliam admite que a loucura do Quixote \u00e9 um pouco a dele. \u201cHouve um momento, l\u00e1 atr\u00e1s, quando as coisas come\u00e7aram a dar errado para mim, e foi na \u00e9poca de Bar\u00e3o Munchausen, que eu me vi na encruzilhada. Conheci tanta gente talentosa que se perdeu em Hollywood. Jurei, para mim mesmo, que nunca faria filmes para ganhar dinheiro, mas s\u00f3 aqueles que fossem transcendentais para mim. E a\u00ed me ofereceram belos roteiros hollywoodianos, como os de O Pescador de Ilus\u00f5es e Os Doze Macacos, e eu quebrei minha regra, indo filmar no cinem\u00e3o. Descobri que, para ser fiel a mim mesmo, \u00e0s vezes teria de me trair.\u201d<\/p>\n<p>E o cineasta acredita que esse sentimento permeia as hist\u00f3rias de Toby e do Quixote. \u201c(Orson) Welles tamb\u00e9m quase enlouqueceu querendo fazer seu Quixote, trazendo-o para a Espanha dos anos 1960 e 70.\u201d E aqui \u00e9 preciso interromper o texto para advertir sobre o spoiler. \u201cO final do filme foi mudando ao longo do tempo, e foi bom que eu tenha demorado tanto. Porque fazer com que Toby, ap\u00f3s a morte do Quixote, assuma suas linhas deu ao filme uma continuidade temporal muito rica. Creio que atingi a imortalidade e, no limite, fiz o filme que queria, mesmo n\u00e3o sendo o ideal.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante mais de 20 anos, Orson Welles tentou realizar sua transposi\u00e7\u00e3o do romance m\u00edtico de Miguel de Cervantes para a Espanha contempor\u00e2nea, mas estava escrito que seu Dom Quixote permaneceria inacabado \u2013 em 1960 e 72, as mortes dos atores Francisco Regueira (Quixote) e Akim Tamiroff (Sancho Pan\u00e7a) colocaram fim ao ambicioso projeto. 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