{"id":209129,"date":"2019-06-02T08:21:00","date_gmt":"2019-06-02T11:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=209129"},"modified":"2019-06-02T08:21:00","modified_gmt":"2019-06-02T11:21:00","slug":"vivendo-e-aprendendo-a-brincar-perigosamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vivendo-e-aprendendo-a-brincar-perigosamente\/","title":{"rendered":"Vivendo e aprendendo a brincar perigosamente"},"content":{"rendered":"<p>Em tempos de pais e m\u00e3es super protetores, pesquisas t\u00eam mostrado que o desenvolvimento das crian\u00e7as \u00e9 muito melhor quando elas se exp\u00f5em a riscos. N\u00e3o se trata de deixar o filho se pendurar na janela ou atravessar a rua sozinho. Mas encorajar a vontade dos pequenos de escalar brinquedos altos, subir em \u00e1rvores e descer de cabe\u00e7a para baixo no escorregador ajuda a formar pessoas seguras, com mais resili\u00eancia, habilidades sociais e at\u00e9 com melhor aprendizado. Estudos internacionais passaram, inclusive, a recomendar a constru\u00e7\u00e3o de parquinhos \u201cmais perigosos\u201d.<\/p>\n<p>Especialistas discordam de ambientes com pisos acolchoados, brinquedos s\u00f3 de pl\u00e1stico, pontas protegidas, piscinas de bolinhas. E recomendam, por outro lado, que \u00e1reas de playgrounds e de p\u00e1tios escolares tenham areia, toras, pedras, pneus. Os brinquedos devem ser constru\u00eddos em madeira, altos suficientes para impor desafios, com escadas, rampas e pontes elevadas para estimular o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>As descri\u00e7\u00f5es acima, no entanto, apavoram a maioria dos pais. O grande temor \u00e9 que as crian\u00e7as se machuquem. Mas uma grande pesquisa feita no Canad\u00e1, que analisou 21 estudos sobre o assunto, concluiu que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o entre aumento de quedas e machucados e altura dos brinquedos. E que crian\u00e7as que se arriscam mais, na verdade, se machucam menos. Elas acabam desenvolvendo habilidades f\u00edsicas e compreendendo seus limites. \u201cHoje se entende que cuidar bem \u00e9 super proteger, mas na verdade os pais est\u00e3o tirando a oportunidade dos filhos se desenvolverem\u201d, diz La\u00eds Fleury, coordenadora do programa Crian\u00e7a e Natureza do Instituo Alana.<\/p>\n<p>\u201cQue mensagem est\u00e3o passando \u00e0s crian\u00e7as ao dizer \u201cpare\u201d ou \u201ccuidado\u201d? De que elas n\u00e3o s\u00e3o capazes de se cuidar, de tomar decis\u00f5es e que o mundo \u00e9 mundo perigoso para elas\u201d, disse ao Estado a pesquisadora Mariana Brussoni, da Universidade de British Columbia, autora do estudo. Segundo ela, os pais precisam aprender a lidar com a pr\u00f3pria ansiedade e inseguran\u00e7a para saber avaliar o que \u00e9 um perigo real.<\/p>\n<p>\u201cEu sempre sugiro que contem at\u00e9 17 quando quiserem dizer \u2018pare\u2019. Em geral \u00e9 tempo suficiente para a crian\u00e7a brincar e o pai perceber se realmente deveria ter interferido.\u201d A pesquisa concluiu que h\u00e1 mais efeitos positivos \u00e0 sa\u00fade das crian\u00e7as ao participar de brincadeiras que envolvem risco do que ao evit\u00e1-las. Melhora a criatividade, a resili\u00eancia e a intera\u00e7\u00e3o social \u2013 e n\u00e3o aumenta agressividade.<\/p>\n<p>O estudo \u00e9 um dos que endossam um documento mundial elaborado pela Internacional School Grounds Alliance. Por meio dele, a organiza\u00e7\u00e3o, presente em 16 pa\u00edses, pede que pais e educadores incentivem pol\u00edticas para que os p\u00e1tios das escolas tenham atividades \u201ccom n\u00edveis ben\u00e9ficos de risco\u201d. \u201cO mundo \u00e9 cheio de riscos, as crian\u00e7as precisam aprender a reconhec\u00ea-los e responder a eles se protegendo e desenvolvendo sua pr\u00f3pria capacidade de avali\u00e1-los\u201d, diz o manifesto.<\/p>\n<p>Na Nova Zel\u00e2ndia, uma outra pesquisa incentivou que oito escolas deixassem os parquinhos \u201cmais perigosos\u201d e acabassem com regras como a de n\u00e3o poder brincar na chuva, por exemplo. Elas foram comparadas com outras que n\u00e3o mudaram nada. Depois de dois anos, os alunos das escolas com interven\u00e7\u00f5es se diziam mais felizes, brincavam com mais colegas e tiveram menos problemas com bullying. \u201cCrian\u00e7as precisam ir experimentando um pouco de risco de acordo com a idade. Ou, no futuro, podem tomar decis\u00f5es terr\u00edveis quando estiverem no controle das suas vidas, diante de bebidas alco\u00f3licas ou dirigindo um carro\u201d, afirmou ao Estado uma das respons\u00e1veis pela pesquisa, a professora Rachael Taylor, da Universidade de Otago.<\/p>\n<p>Na semana passada, Amelie, de 4 anos, experimentava v\u00e1rios jeitos e, enfim, conseguiu empilhar cubos, caixa e baldinhos para fazer as vezes de um banco. Ela e as amigas subiram na estrutura nada est\u00e1vel para olhar do outro lado do muro da escola onde estuda no Pacaembu, a Jacarand\u00e1. Os tr\u00eas professores que estavam no p\u00e1tio n\u00e3o interferiram e um deles apenas ficou numa dist\u00e2ncia em que pudesse ajud\u00e1-las numa eventual queda. Na escola, at\u00e9 beb\u00eas engatinham no ch\u00e3o de pedra e, aos 3 anos, todos j\u00e1 podem subir nos brinquedos altos.<\/p>\n<p>\u201cAs crian\u00e7as v\u00e3o se adaptando e organizando o movimento no ambiente em que elas est\u00e3o. O corpo \u00e9 a base do desenvolvimento ps\u00edquico, emocional e cognitivo, \u00e9 assim que elas aprendem\u201d, explica a coordenadora pedag\u00f3gica da escola, Vit\u00f3ria Reges Gabay de S\u00e1. \u201cOs pequenos machucados tamb\u00e9m s\u00e3o aprendizagem. N\u00e3o \u00e9 que vamos provocar machucados nem frustra\u00e7\u00f5es, mas a vida \u00e9 assim.\u201d<\/p>\n<p>Na Escola Gr\u00e3o de Ch\u00e3o, na \u00c1gua Branca, as crian\u00e7as fazem fogueira, s\u00e3o livres para subir nas \u00e1rvores e brincam em instala\u00e7\u00f5es feitas com pneus, pedras e tocos de madeira. Nas aulas de artes, com ajuda dos adultos, alunos de no m\u00e1ximo 6 anos usam serrotes e martelos. \u201cNossa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com a crian\u00e7a que n\u00e3o quer desafio, que s\u00f3 quer ficar quietinha desenhando ou com um brinquedo\u201d, diz a diretora Luc\u00edlia Franzini.<\/p>\n<p>Para os pais, h\u00e1 a ang\u00fastia de descobrir o equil\u00edbrio entre proteger e incentivar os desafios. \u201cEu n\u00e3o quero que ele chore, se machuque, mas sei que se devolve ao se expor aos riscos. Ent\u00e3o fico o tempo todo me questionando at\u00e9 onde posso deixar ele ir\u201d, diz a publicit\u00e1ria Tatiana Tsukamoto, de 35 anos, m\u00e3e de Max, de 8 meses. \u201cEu j\u00e1 cogitei mandar meu filho com capacete para a escola por causa de um brinquedo alto\u201d, conta a dentista Ana Elise Valente, de 43 anos, m\u00e3e de Gabriel e Miguel. Hoje ela diz perceber o absurdo da ideia.<\/p>\n<p>\u201cSempre temos que explicar para os pais que n\u00e3o d\u00e1 para arredondar todas as quinas do mundo\u201d, diz a diretora da Escola Projeto Vida, Monica Padroni, que fica em um s\u00edtio na zona norte com casa na \u00e1rvore e escorregadores enormes. A enfermeira Aline Marques, de 29 anos, conta que o filho de 3 precisou de terapia e fonoaudiologia para come\u00e7ar a falar por causa da prote\u00e7\u00e3o exagerada. \u201cNem em areia eu deixava ele brincar e, por isso, n\u00e3o se desenvolveu.\u201d Depois que a m\u00e3e mudou a atitude, diz, ele se tornou outra crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma boa maneira de expor as crian\u00e7as a riscos ben\u00e9ficos, segundo especialistas, \u00e9 deix\u00e1-las brincar na natureza. A Sociedade Brasileira de Pediatria passou a recomendar que crian\u00e7as tenham \u201cacesso di\u00e1rio, no m\u00ednimo por uma hora\u201d a ambientes como parques, pra\u00e7as e praias para \u201cse desenvolver com plena sa\u00fade f\u00edsica, mental, emocional e social\u201d.<\/p>\n<p>O manual, elaborado com apoio do Instituto Alana, tamb\u00e9m pede a pais e escolas que permitam que as crian\u00e7as se engajem em atividades com riscos. \u201cO desafio \u00e9 intr\u00ednseco \u00e0 natureza, o terreno n\u00e3o \u00e9 nivelado, t\u00eam v\u00e1rias diferen\u00e7as de altura, de textura\u201d, diz a coordenadora do programa Crian\u00e7a e Natureza do Alana, La\u00eds Fleury. O documento tem a inten\u00e7\u00e3o de combater a exposi\u00e7\u00e3o excessiva a telas e o confinamento das crian\u00e7as, que s\u00f3 brincam em espa\u00e7os fechados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de pais e m\u00e3es super protetores, pesquisas t\u00eam mostrado que o desenvolvimento das crian\u00e7as \u00e9 muito melhor quando elas se exp\u00f5em a riscos. N\u00e3o se trata de deixar o filho se pendurar na janela ou atravessar a rua sozinho. 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