{"id":210042,"date":"2019-06-22T08:00:02","date_gmt":"2019-06-22T11:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=210042"},"modified":"2019-06-22T08:00:02","modified_gmt":"2019-06-22T11:00:02","slug":"uma-viagem-amarga-em-filme-sobre-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/uma-viagem-amarga-em-filme-sobre-a-ditadura\/","title":{"rendered":"Uma viagem amarga em filme sobre a ditadura"},"content":{"rendered":"<p>O processo come\u00e7ou h\u00e1 dez anos, mas o novo filme de Fl\u00e1via Castro, Deslembro, que estreia nesta quinta, 20, guarda ecos que ganharam nova relev\u00e2ncia nos \u00faltimos meses. O cen\u00e1rio principal \u00e9 o Brasil do ano de 1979, p\u00f3s Anistia. Mas o filme come\u00e7a na Fran\u00e7a, onde Joana (a estreia de Jeanne Boudier), sua m\u00e3e (Sara Antunes) e irm\u00e3os vivem exilados, depois que o Estado brasileiro sumiu com o pai da fam\u00edlia, militante contra a ditadura. A volta do grupo ao Brasil, ent\u00e3o, coincide com um retorno de Joana ao lugar onde nasceu, mas que, na verdade, nunca conheceu \u2013 e a resist\u00eancia enorme que ela exerce \u00e9 fruto da imagem de um pa\u00eds que, nas suas palavras, \u201ctorturava e matava\u201d.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, mas tem fundo autobiogr\u00e1fico: Fl\u00e1via experimentou o ex\u00edlio com os pais durante inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, e a ang\u00fastia da volta tamb\u00e9m esteve presente na sua hist\u00f3ria. \u201cO lugar do filho (de militantes exilados) \u00e9 um lugar de experi\u00eancia, e o que me interessa como cineasta \u00e9 a subjetividade, n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o, o sequestro, o assalto ao banco. No meu caso, quero tentar dar conta do que os personagens estavam sentindo\u201d, explica. O ponto de vista da adolescente, ent\u00e3o, se torna uma hist\u00f3ria \u201cpequena\u201d inserida no contexto mais abrangente, porque mostra o pre\u00e7o do autoritarismo na vida das pessoas e das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o da diretora, o cinema brasileiro j\u00e1 tem alguma tradi\u00e7\u00e3o de pensar os processos hist\u00f3ricos do Pa\u00eds. \u201cFilmamos no final de 2017, ent\u00e3o o filme j\u00e1 absorve todo um clima\u201d, comenta a diretora sobre o esp\u00edrito da \u00e9poca em que o filme chega \u2013 algu\u00e9m grita um \u201cvai pra Cuba!\u201d. \u201cMas os filmes se inscrevem no presente da sua realiza\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 o que \u00e9 hoje, nesse dia de estreia. Ele nasce dessa rela\u00e7\u00e3o com o que est\u00e1 fora. Se ele se inscrever num trabalho de mem\u00f3ria, que n\u00f3s n\u00e3o fizemos no Brasil e \u00e9 urgente num momento de negacionismo hist\u00f3rico avassalador, j\u00e1 seria uma coisa imensa\u201d, projeta.<\/p>\n<p>Na sua volta ao Brasil, a personagem Joana encontra sua av\u00f3 paterna (Eliane Giardini), e com sua ajuda tenta desvendar o pouco que se lembra do pai.<\/p>\n<p>Outra camada do filme \u00e9 a troca de idiomas, que ocorre muitas vezes no mesmo di\u00e1logo \u2013 al\u00e9m do portugu\u00eas e do franc\u00eas, o castelhano aparece na figura de Luis (Juli\u00e1n Marras), companheiro da m\u00e3e. Essa troca de linguagens, como definido pela cr\u00edtica argentina Sylvia Molloy, \u201cabala a funda\u00e7\u00e3o da casa\u201d.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 outra tinta autobiogr\u00e1fica do filme, para Fl\u00e1via. \u201c\u00c9 real, abala mesmo. O idioma \u00e9 uma maneira de pensar o mundo. A Joana passa de uma l\u00edngua para outra e, quando ela faz isso, nas discuss\u00f5es com a m\u00e3e, s\u00e3o quest\u00f5es muito sintom\u00e1ticas de como ela vivencia toda essa experi\u00eancia.\u201d Mas como reproduzir, na tela, essas ideias? \u201cEu precisava de crian\u00e7as que vivessem isso, porque n\u00e3o se pode inventar\u201d, brincou. Ela ent\u00e3o encontrou Jeanne Boudier.<\/p>\n<p>Hoje, Boudier tem 17 anos \u2013 nasceu na Fran\u00e7a, e desembarcou no Brasil aos 2 anos de idade, por conta de movimenta\u00e7\u00f5es no trabalho do pai. A diretora precisava de atores bil\u00edngues e, numa aula de teatro do Lyc\u00e9e Moli\u00e8re, encontrou Jeanne e lhe pediu um v\u00eddeo. Sua experi\u00eancia anterior correspondia \u00e0s classes de teatro na escola e passagens r\u00e1pidas pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), mas era, nas suas palavras, um trabalho \u201cmuito leve\u201d. Seu sonho, por\u00e9m, era ser atriz. Foi selecionada.<\/p>\n<p>A personagem, Joana, \u00e9 uma adolescente naquela fase em que tudo na vida parece definitivo: o rock n\u2019 roll do The Doors, o viol\u00e3o marcado de Caetano Veloso em Caju\u00edna, a literatura francesa e a poesia de Fernando Pessoa (\u00e9 de um poema dele de onde vem o t\u00edtulo do filme). Num passo seguinte, as descobertas do \u201cmundo real\u201d: o Arpoador, o fumo, o sexo. A intensidade (que nunca se confunde com rigidez, pelo contr\u00e1rio) com que a estreante interpreta todas essas fases \u00e9 coisa n\u00e3o menos do que surpreendente.<\/p>\n<p>\u201cSempre estive entre os dois pa\u00edses, Fran\u00e7a e Brasil, e nunca soube dizer se sou mais francesa ou brasileira\u201d, comenta Jeanne sobre sua sobreposi\u00e7\u00e3o com a personagem.<\/p>\n<p>Sara Antunes, que faz a m\u00e3e, tamb\u00e9m vivenciou experi\u00eancias semelhantes \u00e0s do filme \u2013 filha de exilados, morou na Fran\u00e7a e tamb\u00e9m empreendeu uma investiga\u00e7\u00e3o particular sobre a hist\u00f3ria da pr\u00f3pria fam\u00edlia na ditadura. \u201cA Fl\u00e1via queria criar um outro imagin\u00e1rio do que a gente tem de guerrilha e de ditadura militar. A m\u00e3e militante \u00e9 a mesma que corta cebola. Essa perspectiva contribui muito para a gente entender esse per\u00edodo.\u201d<br \/>\n&#8212;&#8212;&#8211;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O processo come\u00e7ou h\u00e1 dez anos, mas o novo filme de Fl\u00e1via Castro, Deslembro, que estreia nesta quinta, 20, guarda ecos que ganharam nova relev\u00e2ncia nos \u00faltimos meses. O cen\u00e1rio principal \u00e9 o Brasil do ano de 1979, p\u00f3s Anistia. 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