{"id":210953,"date":"2019-07-07T08:50:18","date_gmt":"2019-07-07T11:50:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=210953"},"modified":"2019-07-07T18:07:02","modified_gmt":"2019-07-07T21:07:02","slug":"maos-a-obra-nova-previdencia-e-como-o-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/maos-a-obra-nova-previdencia-e-como-o-real\/","title":{"rendered":"&#8216;M\u00e3os \u00e0 obra. Nova Previd\u00eancia \u00e9 como Real&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Neste m\u00eas de julho de 2019 o Plano Real comemora 25 anos. As novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o se lembram, mas a infla\u00e7\u00e3o foi um flagelo. De dezembro de 1979 a julho de 1994, a infla\u00e7\u00e3o acumulada atingiu aproximadamente 12 trilh\u00f5es por cento. A renda do trabalhador era corro\u00edda pela alta cr\u00f4nica e crescente dos pre\u00e7os. Sofriam principalmente os trabalhadores mais pobres, sem organiza\u00e7\u00e3o sindical a maioria.<\/p>\n<p>Onde o sindicato era forte havia greve a toda hora: as empresas concediam aumentos salariais, mas os repassavam ao consumidor, alimentando a espiral inflacion\u00e1ria. Protegiam-se melhor dela os bancos, os grandes aplicadores, as empresas capazes de impor seus pre\u00e7os ao mercado e o governo, que tinha suas receitas indexadas e contava com a infla\u00e7\u00e3o para ajustar o valor real dos seus gastos. Da\u00ed o aumento da pobreza e da desigualdade provocado pela infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo defendia o seu caixa, mas n\u00e3o conseguia planejar as suas a\u00e7\u00f5es. Nem as empresas, muito menos os pequenos empreendedores, as fam\u00edlias e as pessoas. A infla\u00e7\u00e3o era um flagelo especialmente para os mais pobres, mas infernizava o Pa\u00eds como um todo.<\/p>\n<p>Foi nesse contexto que ouvi, perplexo, em Nova York o presidente Itamar Franco me perguntar pelo telefone se eu aceitaria trocar o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores pelo Minist\u00e9rio da Fazenda. Est\u00e1vamos em maio de 1993. Seria o quarto ministro da pasta em sete meses de governo. Disse-lhe que n\u00e3o deveria trocar o ent\u00e3o ministro, Eliseu Rezende, mas que, ausente do Brasil, n\u00e3o sabia avaliar a situa\u00e7\u00e3o. Ele respondeu que conversaria com o ministro e me informaria. Mais tarde mandou avisar que n\u00e3o precisava mais falar comigo. Fui para o hotel desanuviado, at\u00e9 ser despertado de manh\u00e3 por minha mulher, Ruth, desgostada por eu haver sido designado para pasta t\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Voltei ao Brasil com meu chefe de gabinete, embaixador Sin\u00e9sio Sampaio G\u00f3es. Disse-lhe que precisaria dele no novo minist\u00e9rio, pois n\u00e3o conhecia bem os funcion\u00e1rios de l\u00e1. Voei pensando no discurso de posse do dia seguinte. Repeti o mantra de Jos\u00e9 Serra: o Brasil tem tr\u00eas problemas; o primeiro \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o, o segundo tamb\u00e9m e terceiro, idem. Mas \u201ccom que roupa\u201d poderia dirigir o Minist\u00e9rio da Fazenda? Sou soci\u00f3logo, embora haja trabalhado na Cepal e iniciado a carreira universit\u00e1ria na Faculdade de Economia da USP. S\u00f3 havia um jeito: convocar uma boa equipe de economistas e cuidar da pol\u00edtica. Tinha recebido carta branca de Itamar.<\/p>\n<p>A isso me dediquei com afinco. O primeiro a topar foi Cl\u00f3vis Carvalho, que designei secret\u00e1rio-geral. Edmar Bacha aceitou ser assessor. Consegui a nomea\u00e7\u00e3o de um jovem, Gustavo Franco, para a Secretaria de Pol\u00edtica Econ\u00f4mica, que seria chefiada por Winston Fritsch. Acompanharam-me ainda meu assessor no Senado Eduardo Jorge (Caldas Pereira) e um antigo aluno e amigo, Eduardo Graeff. No come\u00e7o imagin\u00e1vamos um plano tradicional de controle dos gastos.<\/p>\n<p>Foi a partir de uma sugest\u00e3o de Edmar Bacha (a de se tomar como \u00edndice de corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria as Obriga\u00e7\u00f5es do Tesouro Nacional) que come\u00e7amos a pensar numa transforma\u00e7\u00e3o mais profunda. Ali come\u00e7ou a nascer a URV, inspirada em texto te\u00f3rico de Andr\u00e9 Lara Resende e P\u00e9rsio Arida, escrito dez anos antes. Mais tarde o presidente Itamar, sempre inquieto, proporcionou-me incluir ambos na equipe.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 substituiu Pedro Malan na chefia da negocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa, enquanto este assumiu o Banco Central, quando ao in\u00edcio de agosto de 1993 Itamar se desentendeu com o presidente anterior do banco e resolveu demiti-lo. Outro choque entre Itamar e um alto funcion\u00e1rio, desta vez o presidente do BNDES, me permitiu convenc\u00ea-lo a escolher P\u00e9rsio Arida para o cargo. Dar\u00edamos a sensa\u00e7\u00e3o de estar fazendo um novo Plano Cruzado. Embora n\u00e3o fosse certo, era tudo o que Itamar queria.<\/p>\n<p>Estava assim formada a equipe b\u00e1sica dos que trabalharam no Plano Real, que se reunia sob a batuta de Cl\u00f3vis Carvalho. Eu comparecia a algumas discuss\u00f5es. Quando a proposta era muito complicada, sobretudo com equa\u00e7\u00f5es, dizia logo: esclare\u00e7am melhor porque eu terei de explicar tudo ao Pa\u00eds. E foi o que fiz. Das decis\u00f5es tomadas, duas devem ser destacadas. A primeira foi a sugest\u00e3o de anunciar com antecipa\u00e7\u00e3o tudo o que far\u00edamos, nada de surpresas! A segunda foi a de tomar cuidado com as quest\u00f5es legais. A essa tarefa Eduardo Jorge e Gustavo Franco se dedicaram, com apoio de profissionais do Direito. Evitamos os erros jur\u00eddicos que ocorreram em outros planos.<\/p>\n<p>Dediquei-me a explicar o plano (tarefa que foi continuada com sucesso por Rubens Ricupero). Falei com cada bancada partid\u00e1ria no Congresso, com os principais l\u00edderes sindicais, inclu\u00eddos os da CUT, com os ministros e, especialmente, com a Na\u00e7\u00e3o. Mudar o rumo de uma economia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 tarefa t\u00e9cnica. \u00c9 pol\u00edtica. \u00c9 de convencimento, e n\u00e3o apenas \u201cdos mercados\u201d, mas da popula\u00e7\u00e3o. Sem que a m\u00eddia e os comunicadores houvessem entendido e, at\u00e9 certo ponto, aceitado o desafio da estabiliza\u00e7\u00e3o da moeda nada de profundo aconteceria. Mais ainda: a URV n\u00e3o era \u201cum truque\u201d, mas uma ponte s\u00f3lida para uma moeda est\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um programa econ\u00f4mico da magnitude do Real \u00e9 um processo, leva tempo. Requeria a renegocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida externa, como fizemos antes de lan\u00e7ar a nova moeda, bem como a privatiza\u00e7\u00e3o de muitos bancos p\u00fablicos, especialmente os estaduais, a negocia\u00e7\u00e3o da d\u00edvida p\u00fablica de Estados e munic\u00edpios e muitas outras medidas tomadas ao longo dos meus dois mandatos na Presid\u00eancia, culminando com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Foram necess\u00e1rios tempo, persist\u00eancia e coragem. S\u00f3 assim se ganha o que \u00e9 fundamental: a credibilidade.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 importante relembrar os 25 anos do Plano Real. De novo, o Pa\u00eds est\u00e1 em perigo. M\u00e3os \u00e0 obra, a come\u00e7ar pela reforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste m\u00eas de julho de 2019 o Plano Real comemora 25 anos. As novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o se lembram, mas a infla\u00e7\u00e3o foi um flagelo. 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