{"id":211612,"date":"2019-07-17T14:20:07","date_gmt":"2019-07-17T17:20:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=211612"},"modified":"2019-07-17T14:20:07","modified_gmt":"2019-07-17T17:20:07","slug":"de-cara-nova-base-fecha-a-enfermaria-6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/de-cara-nova-base-fecha-a-enfermaria-6\/","title":{"rendered":"De cara nova, Base fecha a &#8216;Enfermaria 6&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Tenho uma longa carreira de rep\u00f3rter, especialmente cobrindo os acontecimentos locais, da Editoria de Cidade, mas tamb\u00e9m em outras unidades da nossa diversificada federa\u00e7\u00e3o \u2013 diversificada, mas igualmente maltratada no que tange aos servi\u00e7os p\u00fablicos que cabe ao Estado prestar, sa\u00fade, saneamento b\u00e1sico, educa\u00e7\u00e3o \u2013 todos com a\u00e7\u00f5es e resultados transversais com a sa\u00fade p\u00fablica. Mas essa narrativa, a pedido do meu querido Jos\u00e9 Seabra, n\u00e3o \u00e9 jornal\u00edstica. Ele me pediu que compartilhasse com seus leitores minha experi\u00eancia como paciente, primeiro, em 2017, do Hospital de Base de Bras\u00edlia, e agora, do Instituto do Hospital de Base de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Em 2017, sofri um enfarto agudo do mioc\u00e1rdio e depois dos primeiros socorros fui para o Pronto Socorro do Base. Mais recentemente, no dia 24 de junho, me internei no PS do Instituto Hospital de Base para retirar um c\u00e2ncer do c\u00e9rebro \u2013 vou poupar o uso de termos t\u00e9cnicos, at\u00e9 para n\u00e3o me enrolar e induzir os leitores em erros e d\u00favidas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o foi isso: um infarto e um c\u00e2ncer \u2013 ainda em tratamento, em exatamente dois anos e tratados no mesmo estabelecimento de sa\u00fade e seus profissionais \u2013 com glamour real, n\u00e3o o das s\u00e9ries de ttelevis\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando dei entrada no PS do Base por causa do infarto, havia uma crise administrativa agravada pela discuss\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o do HDB em instituto. Aqui \u00e9 importante uma ressalva. Desde quando Bras\u00edlia adquiriu sua autonomia pol\u00edtica, vieram no pacote as crises que todas as cidades brasileiras t\u00eam na sua administra\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a crise na sa\u00fade p\u00fablica de 2017 n\u00e3o foi a primeira \u2013 embora o que eu vivenciei e estou vivenciando esses dias me deu um alento.<\/p>\n<p>O que tornava qualquer diagn\u00f3stico e procedimentos advindos dif\u00edceis \u00e0 \u00e9poca era o grau de politiza\u00e7\u00e3o do debate j\u00e1 em curso sobre as transforma\u00e7\u00f5es pelas quais o sistema de sa\u00fade demandava. UTIs, como a coron\u00e1ria, onde fiquei duas semanas, eram utilizadas para realiza\u00e7\u00e3o de verdadeiras assembleias corporativas \u2013 at\u00e9 hoje, com os claros sinais de que as coisas est\u00e3o mudando e muito r\u00e1pido e muito para melhor, h\u00e1 quem seja contra; mas \u00e9 cada vez menos esse tipo mesquinho e ego\u00edsta de gente, que s\u00f3 pensa em defender sua med\u00edocre \u201cestabilidade\u201d. M\u00e9dicos (?) mesmo que acham que o paciente n\u00e3o tem direitos porque, afinal, \u201cisso \u00e9 um hospital p\u00fablico, o que voc\u00ea est\u00e1 pensando?\u201d, como me foi dito no primeiro dia no PS, desta vez.<\/p>\n<p>Esses fizeram resid\u00eancia na \u201cEnfermaria n\u00famero 6\u201d, relato precioso do extraordin\u00e1rio novelista e contista russo Anton Tchekhov. Ele o escreveu com pouco mais de trinta anos em 1892, sobre o desenrolar da exist\u00eancia de um m\u00e9dico, Andr\u00e9i Iefimitch, administrador de um hospital numa cidadezinha remota da antiga R\u00fassia czarista, e suas visitas \u00e0 Enfermaria n\u00ba 6, o pavilh\u00e3o dos loucos onde ele trabalha enquanto medita sobre a vida e sobre a morte.<\/p>\n<p>A Enfermaria 6 \u00e9 parte quase invis\u00edvel da unidade estatal de sa\u00fade cujo \u00fanico objetivo era manter o doente ali, sem o risco de cura; \u00e9 apenas um hospital p\u00fablico que, se ficar sem seus pacientes deixa desempregados os profissionais formados com o or\u00e7amento p\u00fablico.<br \/>\nO inusitado se d\u00e1 quando o m\u00e9dico desenvolve interlocu\u00e7\u00e3o com um paciente da Enfermaria. Este tenta mostrar ao j\u00e1 impass\u00edvel doutor que h\u00e1 dor, que h\u00e1 sofrimento justo onde deveria haver conforto, a busca da cura. E esse di\u00e1logo se estende at\u00e9 o momento em que o <em>status quo<\/em> amea\u00e7ado interna, na pr\u00f3pria Enfermaria 6, o seu ex-chefe: o diagn\u00f3stico \u00e9 a humildade e a dignidade com que o m\u00e9dico passa a tratar seu paciente; e a gentileza e carinho presentes em qualquer situa\u00e7\u00e3o, de uma simples aferi\u00e7\u00e3o de temperatura, a um delicado procedimento cir\u00fargico.<\/p>\n<p>O Instituto Hospital de Base de Bras\u00edlia est\u00e1 fechando suas enfermarias com a marca do n\u00famero 6.<\/p>\n<p>Repito: estou relatando uma experi\u00eancia pessoal; n\u00e3o entrevistei dirigentes, m\u00e9dicos, enfermeiros, nem outros pacientes. Convivi com eles por for\u00e7a de uma doen\u00e7a. N\u00e3o se trata de uma experi\u00eancia de antropologia social.<\/p>\n<p>Em 2017, infartado, vi meus filhos disputando a sobra de uma cadeira de pl\u00e1stico quebrada para passar a noite no Pronto Socorro me acompanhando; situa\u00e7\u00e3o vivida por todos os acompanhantes. Agora, no mesmo PS, espregui\u00e7adoras ao lado de praticamente cada leito. Corredores ainda ocupados, mas enfermeiros comentando, com sorriso incontido que daqui a pouco isso tamb\u00e9m vai melhorar. E aqui est\u00e1 o que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o: os servidores est\u00e3o felizes por poder oferecer um tratamento melhor aos pacientes. E os pacientes demonstram seu reconhecimento.<\/p>\n<p>Tudo d\u00f3i. O c\u00e2ncer, o meu, pressiona o nervo \u00f3tico e d\u00f3i muito. Mas as mudan\u00e7as n\u00e3o passam desapercebidas. Equipamentos novos, novos tipos de instrumentos para procedimentos at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o realizados ali \u2013 tudo \u00e9 celebrado pela equipe de sa\u00fade, m\u00e9dicos, radiologistas, enfermeiras.<\/p>\n<p>Um passo de cada vez, n\u00e3o \u00e9 m\u00e1gica; n\u00e3o estava tudo pronto e agora s\u00f3 est\u00e3o ligando na tomada. Notadamente porque a energia que est\u00e1 alimentando essa quebra de paradigma que come\u00e7a a se processar no atendimento p\u00fablico de sa\u00fade do DF vem da cren\u00e7a de que \u00e9 assim que tem que ser: corresponda com a mesma humildade com que o paciente lhe deposita a vida em suas m\u00e3os e o processo de cura ter\u00e1 iniciado.<\/p>\n<p>Como me disse algu\u00e9m l\u00e1, ainda no corre-corre do Pronto Socorro: \u201cSeu Eduardo, o que est\u00e1 acontecendo aqui est\u00e1 sendo muito bom para o usu\u00e1rio. Eu \u00e9 que vou ter que rever essa cultura de estabilidade no emprego\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho uma longa carreira de rep\u00f3rter, especialmente cobrindo os acontecimentos locais, da Editoria de Cidade, mas tamb\u00e9m em outras unidades da nossa diversificada federa\u00e7\u00e3o \u2013 diversificada, mas igualmente maltratada no que tange aos servi\u00e7os p\u00fablicos que cabe ao Estado prestar, sa\u00fade, saneamento b\u00e1sico, educa\u00e7\u00e3o \u2013 todos com a\u00e7\u00f5es e resultados transversais com a sa\u00fade p\u00fablica. 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