{"id":211868,"date":"2019-07-21T22:04:01","date_gmt":"2019-07-22T01:04:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=211868"},"modified":"2019-07-22T08:28:26","modified_gmt":"2019-07-22T11:28:26","slug":"atencao-jovem-troque-o-asfalto-pelo-ar-do-mato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/atencao-jovem-troque-o-asfalto-pelo-ar-do-mato\/","title":{"rendered":"Aten\u00e7\u00e3o, jovem! Troque o asfalto pelo ar do mato"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Uma nuvem de cal\u00e7as&#8221;. Foi assim que o jornalista e tradutor Eduardo Bueno definiu o poeta, historiador e fil\u00f3sofo norte-americano Henry David Thoreau, conhecido por escrever o livro Walden (ou A Vida nos Bosques). Na obra, Thoreau compartilha a experi\u00eancia de levar uma vida simples, longe dos centros urbanos.<\/p>\n<p>Encantado com o esplendor da natureza, o fil\u00f3sofo buscou descobrir, aos 28 anos, o que seria o avesso da industrializa\u00e7\u00e3o. J\u00e1 no s\u00e9culo 19, esperava se libertar do que classificava &#8220;uma falsa pele&#8221;, empreitada que seria poss\u00edvel somente ao se distanciar do consumismo, segundo ele. Ao partir, n\u00e3o quis se explicar a ningu\u00e9m, pois acreditava que as pessoas ao seu redor n\u00e3o entenderiam suas raz\u00f5es, julgando sua jornada &#8220;impertinente&#8221;.<\/p>\n<p>Em um trecho do livro, Thoreau afirma que a humanidade trabalha &#8220;sob engano&#8221; e se dedica a &#8220;acumular tesouros que ser\u00e3o ro\u00eddos pelas tra\u00e7as&#8221;. Para ele, a maioria das pessoas &#8220;n\u00e3o tem tempo de ser nada al\u00e9m de uma m\u00e1quina&#8221;.<\/p>\n<p>Viver sem tantas frivolidades e usufruir mais intensamente de cen\u00e1rios naturais \u00e9 tamb\u00e9m uma das propostas da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Instituto Alana, de defesa dos direitos de crian\u00e7as e adolescentes. Em maio, as duas institui\u00e7\u00f5es divulgaram o manual Benef\u00edcios da Natureza no Desenvolvimento de Crian\u00e7as e Adolescentes.<\/p>\n<p>No documento, destacam que fatores como o planejamento urbano deficiente, o adensamento populacional, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e a &#8220;supremacia dos carros em detrimento de pedestres ou ciclistas&#8221; t\u00eam levado ao desaparecimento de espa\u00e7os verdes nas cidades. Conforme explica La\u00eds Fleury, coordenadora do projeto Crian\u00e7a e Natureza, do Instituto Alana, o manual tem como principal p\u00fablico crian\u00e7as e adolescentes da zona urbana, por sofrerem mais fortemente os preju\u00edzos resultantes desse cen\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>D\u00e9ficit de natureza<\/strong><br \/>\nEla diz que a inf\u00e2ncia nesses locais tem como caracter\u00edstica um progressivo &#8220;confinamento&#8221; e que esse estilo de vida provoca impactos grandes na sa\u00fade. O conjunto de efeitos citado pela coordenadora \u00e9 relacionado ao chamado Transtorno de D\u00e9ficit de Natureza. O termo foi cunhado por um dos co-fundadores do Children &amp; Nature Network, Richard Louv, que escreveu o livro A Ultima Crian\u00e7a na Natureza (Last child in the woods).<\/p>\n<p>La\u00eds defende que o contato com a natureza promove o desenvolvimento integral das crian\u00e7as porque &#8220;sua linguagem \u00e9 o brincar&#8221;. &#8220;Principalmente o brincar espont\u00e2neo. \u00c9 atrav\u00e9s dele que a crian\u00e7a se conhece, compreende o mundo. O brincar passa muito pelo corpo, que \u00e9 uma linguagem de conhecimento que ela vai desenvolvendo quando est\u00e1 crescendo&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>&#8220;Quando est\u00e1 em um ambiente aberto, ao ar livre, a forma como [a crian\u00e7a] se comunica \u00e9 atrav\u00e9s do corpo. Quando est\u00e1 presente em um ambiente com bastante espa\u00e7o, numa praia, por exemplo, ela sente, naturalmente, vontade de correr, de pular, e esses s\u00e3o os verbos da inf\u00e2ncia. Ela se sente convidada, dialoga, \u00e9 uma crian\u00e7a que, fisicamente, tende a ser mais saud\u00e1vel, tende a n\u00e3o ter problema com sobrepeso, porque est\u00e1 em constante movimento, desenvolvendo a for\u00e7a motora, a coordena\u00e7\u00e3o, o equil\u00edbrio&#8221;, pontua.<\/p>\n<p>Segundo La\u00eds, ao incorporar atividades ao ar livre ao cotidiano dos filhos, os pais geram benef\u00edcios adicionais, no \u00e2mbito da sa\u00fade mental. &#8220;A gente sabe, intuitivamente, do poder restaurativo que a natureza tem. Adultos, quando est\u00e3o cansados, passam tempo na natureza, na floresta, isso nos regenera. E \u00e9 a mesma coisa para as crian\u00e7as. Esse bem-estar, esse poder regenerativo que a natureza tem \u00e9 algo que impacta, de maneira muito positiva, a sa\u00fade da crian\u00e7a&#8221;, frisa La\u00eds.<\/p>\n<p>A especialista cita outros benef\u00edcios do contato das crian\u00e7as com a natureza. &#8220;H\u00e1 v\u00e1rias pesquisas que mostram que tendem a ser crian\u00e7as mais equilibradas emocionalmente. \u00c9 um ambiente que favorece muito a integra\u00e7\u00e3o entre pares, membros da fam\u00edlia, favorece v\u00ednculos, porque um ajuda o outro e tem brincadeiras acolhedoras. Quando est\u00e1 em meio \u00e0 natureza, a crian\u00e7a brinca com possibilidades. Ela est\u00e1, o tempo todo, criando os pr\u00f3prios brinquedos. Na brincadeira com o outro, n\u00e3o h\u00e1 um limitador&#8221;, afirma a coordenadora.<\/p>\n<p>&#8220;Ela [a crian\u00e7a] estabelece uma brincadeira muito criativa com a natureza, onde a gente percebe que ela ressignifica [coisas]. A gente v\u00ea um pauzinho, que, uma hora, pode ser uma espada de um pr\u00edncipe e, outra hora, pode ser um rabinho de um bicho, algo para puxar um barco, uma caneta pra escrever na areia. [Nota-se] Como um mesmo elemento nutre criativamente a crian\u00e7a, a imagina\u00e7\u00e3o&#8221;, complementa.<\/p>\n<p>De quebra, o l\u00fadico na natureza, diz La\u00eds, \u00e9 capaz de ampliar a resist\u00eancia diante de dificuldades. &#8220;Por exemplo, ao subir em uma \u00e1rvore, a crian\u00e7a est\u00e1 lidando com o risco, por estar trabalhando com a altura. E o fato de ela estar lidando com essas adversidades faz com que esteja desenvolvendo uma resili\u00eancia maior. Est\u00e1 trabalhando a coragem dela, com o imprevis\u00edvel&#8221;.<\/p>\n<p>O incentivo a passeios em \u00e1reas verde \u00e9 tema do guia Acampando com Crian\u00e7as, elaborado pelo Instituto Alana, com o apoio da Coaliz\u00e3o Pr\u00f3-Unidades de Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza e do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio). Tamb\u00e9m participam da iniciativa o portal de campismo MaCamp e a organiza\u00e7\u00e3o Outward Bound Brasil. O material tem distribui\u00e7\u00e3o gratuita e pode ser baixado por download.<\/p>\n<p>O guia lista oito parques nacionais com \u00e1reas reservadas para acampamento. Um deles \u00e9 o Parque Nacional do Capara\u00f3, que fica na Serra do Capara\u00f3, divisa entre os estados de Minas Gerais e Esp\u00edrito Santo. A unidade tem fama de ser um dos destinos mais procurados pelos adeptos do montanhismo no Brasil e abrigar o terceiro ponto mais alto do pa\u00eds, o Pico da Bandeira.<\/p>\n<p>La\u00eds finaliza ressaltando que especialistas observam que as contribui\u00e7\u00f5es n\u00e3o se restringem \u00e0s esferas espiritual e de sa\u00fade, manifestando-se, similarmente, no campo da consci\u00eancia ambiental. Ela argumenta que uma pessoa, ao crescer com viv\u00eancias que valorizam a biodiversidade, ano ap\u00f3s ano, passa a prezar por uma rotina de h\u00e1bitos mais sustent\u00e1veis. &#8220;Al\u00e9m de proporcionar para as crian\u00e7as uma alegria de poder brincar, \u00e9 uma experi\u00eancia relacionada a valores humanos, de desenvolvimento de \u00e9tica, de respeito ao outro, ao meio ambiente, de contempla\u00e7\u00e3o do belo&#8221;, afirma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Uma nuvem de cal\u00e7as&#8221;. 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