{"id":213225,"date":"2019-08-12T00:46:02","date_gmt":"2019-08-12T03:46:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=213225"},"modified":"2019-08-12T07:50:01","modified_gmt":"2019-08-12T10:50:01","slug":"na-telona-um-novo-thelma-louise-do-seculo-21","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/na-telona-um-novo-thelma-louise-do-seculo-21\/","title":{"rendered":"Na telona, um novo Thelma &#038; Louise do s\u00e9culo 21"},"content":{"rendered":"<p>No original, elas s\u00e3o \u2018rebelles\u2019 e voc\u00ea n\u00e3o precisa saber franc\u00eas para entender \u2013 Rebeldes. No Brasil \u00e9 que o t\u00edtulo ganhou acr\u00e9scimo sem descolar da trama \u2013 Mulheres Armadas, Homens na Lata. Um cr\u00edtico j\u00e1 definiu o filme como Thelma &amp; Louise para o s\u00e9culo 21, acrescentando que a dupla famosa est\u00e1 de volta como trio. Seria acurado, se o longa de Ridley Scott n\u00e3o colocasse suas hero\u00ednas pr\u00e9-feministas na estrada, e a com\u00e9dia dram\u00e1tica de Allan Mauduit n\u00e3o fosse um filme localizado, num meio preciso, quase claustrof\u00f3bico.<\/p>\n<p>Antes de mais nada, Mulheres Armadas \u00e9 um filme de atrizes \u2013 C\u00e9cile de France, Yolande Moreau, Audrey Lamy. A bela C\u00e9cile foi miss em Toulouse sur Mer e agora est\u00e1 de volta. Levou pancada do marido, ou amante, e volta para o camping para recome\u00e7ar a vida. O assistente social a adverte, quando vai procurar emprego \u2013 n\u00e3o h\u00e1 escolha, qualquer um j\u00e1 ser\u00e1 bom.<\/p>\n<p>Bem-vindos ao mundo das economias liberais. Ela vai trabalhar numa f\u00e1brica de conservas de peixe, e \u00e9 onde entram os homens, ou o homem, na lata. C\u00e9cile conhece a dura realidade do ass\u00e9dio. E logo vai se envolver com um policial que tamb\u00e9m vai investigar o desaparecimento do chefe dela. O cara que sumiu tinha uma mala de dinheiro do crime. As oper\u00e1rias mal pagas veem no dinheiro uma oportunidade para a grande virada. Mas s\u00e3o mulheres, e t\u00eam de enfrentar os homens.<\/p>\n<p>Como descri\u00e7\u00e3o de um meio social opressivo, o filme poderia ser de Ken Loach, e seria outro. Mulheres e regenera\u00e7\u00e3o. Allan Mauduit segue outra via. N\u00e3o teme ser grosseiro nem vulgar. C\u00e9cile, bel\u00edssima, vira um caco. Audrey Lamy, muito popular na TV francesa, \u00e9 aquela m\u00e3e fracassada a quem o pr\u00f3prio filho diz que sobraria dinheiro em casa, se ela n\u00e3o se drogasse tanto. E Yolande Moreau, maravilhosa atriz, faz a mulher que j\u00e1 perdeu toda a esperan\u00e7a, mas segura, mesmo assim, as pontas de uma fam\u00edlia disfuncional. O que fazem essas mulheres? Mulheres Armadas, Homens na Lata \u00e9 uma f\u00e1bula sobre o empoderamento feminino, sem hero\u00edsmo \u2013 nenhuma delas \u00e9 uma mulher-maravilha \u2013 mas tamb\u00e9m \u00e9 sobre o que pode ser o inverso, ou reverso, dessa moeda.<\/p>\n<p>Mulheres poderosas, homens castrados? A castra\u00e7\u00e3o pode ser real, ou metaf\u00f3rica. Numa f\u00e1brica de sardinhas, faz sentido que as mulheres armadas coloquem o homem na lata \u2013 mesmo que seja de sardinhas. Mauduit n\u00e3o embeleza sua f\u00e1bula. \u00c9 tudo muito s\u00f3rdido. Quando C\u00e9cile, a personagem, encontra o pai, ele n\u00e3o vale nada, mas os la\u00e7os de sangue sempre contam \u2013 li\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m se encontra em outro filme franc\u00eas em cartaz, A \u00daltima Loucura de Claire Darling, de Julie Bertuccelli, com Catherine Deneuve. Ali\u00e1s, aproveitando a refer\u00eancia, Mulheres Armadas termina bem melhor que Claire Darling, e tamb\u00e9m que O Professor Substituto, outro longa franc\u00eas \u2013 de S\u00e9bastien Marnier, com Laurent Lafitte \u2013 em cartaz na cidade. Essas mulheres enfrentam maridos, filhos, pais, at\u00e9 um policial \u00edntegro (mas n\u00e3o tanto) para se afirmar no mundo hostil.<\/p>\n<p>Chegam vivas, comemorando, no final, sem enfrentar o suic\u00eddio de Thelma &amp; Louise, no desfecho do Ridley Scott, de 1991. H\u00e1 quase 30 anos, mulheres podiam se afirmar, reproduzindo a trajet\u00f3ria dos homens no mundo masculino, mas ainda terminavam punidas. No terceiro mil\u00eanio, n\u00e3o tem homem que segure C\u00e9cile e suas amigas \u2013 ela, a prop\u00f3sito, chama-se Sandra na fic\u00e7\u00e3o de Mauduit.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, ele \u00e9 conhecido principalmente por Kaboul Kitchen, miniss\u00e9rie (em 17 cap\u00edtulos) sobre um restaurante em pleno Afeganist\u00e3o conflagrado. O dono \u00e9 um c\u00ednico que est\u00e1 ali para ganhar dinheiro e n\u00e3o se importa nem um pouco com o horror al\u00e9m da porta de seu estabelecimento. Quem se importa \u00e9 sua filha, que tem preocupa\u00e7\u00f5es, digamos, humanit\u00e1rias. Tudo a ver com Mulheres Armadas. Preste aten\u00e7\u00e3o no discurso moral do policial. H\u00e1 que estar atento contra os que se valem das t\u00e1buas da lei para nos enganar. Mauduit acerta o tom e com suas atrizes logra um filme cr\u00edtico e divertido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No original, elas s\u00e3o \u2018rebelles\u2019 e voc\u00ea n\u00e3o precisa saber franc\u00eas para entender \u2013 Rebeldes. No Brasil \u00e9 que o t\u00edtulo ganhou acr\u00e9scimo sem descolar da trama \u2013 Mulheres Armadas, Homens na Lata. 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