{"id":215672,"date":"2019-09-13T16:08:00","date_gmt":"2019-09-13T19:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=215672"},"modified":"2019-09-14T07:47:43","modified_gmt":"2019-09-14T10:47:43","slug":"bendita-danada-nossa-cachaca-e-um-verdadeiro-me","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/bendita-danada-nossa-cachaca-e-um-verdadeiro-me\/","title":{"rendered":"Bendita danada, nossa cacha\u00e7a \u00e9 verdadeiro m\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Branquinha, a bendita, \u00e1gua-que-passarinho-n\u00e3o-bebe, pinga, m\u00e9, caninha, levanta-velho, danada. A lista de sin\u00f4nimos \u00e9 extensa, a cacha\u00e7a est\u00e1 presente de v\u00e1rias formas no vocabul\u00e1rio e na hist\u00f3ria do Brasil. Mesmo com espa\u00e7o para crescimento, a produ\u00e7\u00e3o da bebida vem se mantendo est\u00e1vel nos \u00faltimos anos e ficou em torno de 700 milh\u00f5es a 800 milh\u00f5es em 2018. No Dia Nacional da Cacha\u00e7a, celebrado nesta sexta-feira (13), o setor ainda busca o reconhecimento e a valoriza\u00e7\u00e3o da cacha\u00e7a como produto t\u00edpico e s\u00edmbolo nacional.<\/p>\n<p>Para o diretor-executivo do Instituto Brasileiro da Cacha\u00e7a (Ibrac), Carlos Lima, a bebida ainda \u00e9 uma grande desconhecida da popula\u00e7\u00e3o. \u201cO brasileiro ainda n\u00e3o conhece a versatilidade, a riqueza que existe por tr\u00e1s da bebida. Ainda existe aquela marginaliza\u00e7\u00e3o da cacha\u00e7a e um grande preconceito. As pessoas ainda preferem beber outros tipos de bebida porque acham que d\u00e1 mais glamour do que beber uma bebida de qualidade, que \u00e9 um produto exclusivo do Brasil\u201d, disse.<\/p>\n<p>De acordo com Lima, \u00e9 um desafio de toda a cadeia produtiva promover a cacha\u00e7a para o p\u00fablico, inclusive bares e restaurantes. \u201cMuitas vezes, a pessoa que est\u00e1 fazendo o servi\u00e7o, que est\u00e1 oferecendo o produto, ela mesma n\u00e3o conhece essa riqueza e versatilidade ou j\u00e1 parte do princ\u00edpio que o consumidor n\u00e3o vai consumir uma cacha\u00e7a e acaba oferecendo outros tipos de bebida\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Ele destaca, entretanto, que j\u00e1 existem estabelecimentos e confrarias de consumidores que desempenham um papel importante de elevar o status da cacha\u00e7a, assim como eventos gastron\u00f4micos. \u201cA caipirinha tem um papel extremamente importante de difundir a cacha\u00e7a, s\u00f3 que hoje \u00e9 algo muito al\u00e9m. A bebida vem sendo consumida pura e de outras formas, inclusive na cria\u00e7\u00e3o de novos drinks e em drinks tradicionais substituindo outros destilados. A gente vem observando nos \u00faltimos anos essa mudan\u00e7a de consumo\u201d, disse.<\/p>\n<p>O desenvolvimento de novos produtos pelas empresas e o trabalho da academia na inova\u00e7\u00e3o e corre\u00e7\u00e3o de processos de produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m s\u00e3o lembrados por Lima no trabalho de valoriza\u00e7\u00e3o da cadeia. \u201cMas, apesar de ser um produto produzido de norte a sul, ainda n\u00e3o existe uma rede nacional de tecnologia da cacha\u00e7a e que seria importante para o aux\u00edlio ao micro e pequeno produtor\u201d, ressalta.<\/p>\n<p><strong>Mapa da Cacha\u00e7a<\/strong><br \/>\nDesenvolvida nos tempos em que o Brasil ainda era col\u00f4nia portuguesa, a bebida esteve presente em momentos como a Inconfid\u00eancia Mineira e durante a escravid\u00e3o e tamb\u00e9m est\u00e1 na m\u00fasica e na culin\u00e1ria brasileiras. Para divulgar a cultura e a hist\u00f3ria que envolve esse destilado, Felipe Jannuzzi e alguns colegas criaram, em 2010, o Mapa da Cacha\u00e7a, site com guias, receitas e artigos sobre a bebida.<\/p>\n<p>Formado em comunica\u00e7\u00e3o, Felipe viaja pelo Brasil, conhecendo alambiques e pesquisando os aromas e sabores da cacha\u00e7a. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, ele explicou que o objetivo \u00e9 inserir a cacha\u00e7a na internet como patrim\u00f4nio dos brasileiros e que a equipe est\u00e1 lan\u00e7ando agora a vers\u00e3o do site em ingl\u00eas. \u201cConheci gente incr\u00edvel. \u00c9 uma bebida que tem uma grande diversidade de sabores. A cacha\u00e7a produzida em Paraty \u00e9 diferente da produzida na Serra Ga\u00facha, por exemplo. Eu fui aprendendo com o tempo, ent\u00e3o o que come\u00e7ou como projeto cultural, acabou virando tamb\u00e9m um projeto sensorial do Brasil\u201d, disse.<\/p>\n<p>De acordo com Felipe, a paleta de sabores da cacha\u00e7a se d\u00e1 pela diversidade de madeiras utilizadas no seu envelhecimento. Ele explicou que a bebida pode ser tomada branca depois da destila\u00e7\u00e3o ou passar por madeiras. \u201cO mundo inteiro faz isso com carvalho, uma madeira do hemisf\u00e9rio norte. A cacha\u00e7a pode passar pelo carvalho, mas passa tamb\u00e9m por mais de 30 madeiras brasileiras. Isso est\u00e1 muito ligado \u00e0 acessibilidade dessa madeira nos locais de produ\u00e7\u00e3o\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Felipe contou que na Para\u00edba, por exemplo, a madeira do freij\u00f3 \u00e9 muito utilizada; em Salinas (MG), \u00e9 o b\u00e1lsamo; e em S\u00e3o Paulo e no interior do Rio de Janeiro se usa o jequitib\u00e1 ou uma madeira chamada amendoim.<\/p>\n<p>Em 2012, o Mapa da Cacha\u00e7a foi reconhecido pelo extinto Minist\u00e9rio da Cultura (MinC) como o melhor projeto de mapeamento cultural do Brasil, e em 2014 venceu um edital do MinC e da Embratur para representar a gastronomia brasileira durante a Copa do Mundo por meio de livros, v\u00eddeos e eventos.<\/p>\n<p>O Dia Nacional da Cacha\u00e7a foi criado em 2009 pelo Ibrac em homenagem \u00e0 data em que a bebida passou a ser oficialmente liberada pela Coroa Portuguesa para fabrica\u00e7\u00e3o e venda no Brasil: 13 de setembro de 1661. A rebeli\u00e3o ocorrida no Rio de Janeiro \u00e0 \u00e9poca, conhecida como a Revolta da Cacha\u00e7a, levou \u00e0 legaliza\u00e7\u00e3o da bebida, proibida at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mercado<\/strong><br \/>\nA capacidade instalada de produ\u00e7\u00e3o de cacha\u00e7a atinge 1,2 bilh\u00e3o de litros no pa\u00eds, enquanto a produ\u00e7\u00e3o efetiva fica em torno de 700 milh\u00f5es a 800 milh\u00f5es por ano. Apenas 1% do que \u00e9 produzido \u00e9 exportado. Em 2018, a cacha\u00e7a gerou receita de US$ 15,61 milh\u00f5es (8,4 milh\u00f5es de litros) em exporta\u00e7\u00f5es. Atualmente, a bebida \u00e9 exportada para mais de 60 pa\u00edses.<\/p>\n<p>S\u00e3o mais de 6,3 mil marcas registradas, entre cacha\u00e7a e aguardente, no setor que gera cerca de 600 mil empregos diretos e indiretos. Carlos Lima, do Ibrac, destaca tamb\u00e9m a cadeia por tr\u00e1s da cacha\u00e7a, de gera\u00e7\u00e3o de renda e fixa\u00e7\u00e3o do homem no campo, e avalia que, apesar do grande mercado da cacha\u00e7a estar dentro do pa\u00eds, o volume exportado est\u00e1 aqu\u00e9m do potencial.<\/p>\n<p>Entretanto, os investimentos no setor esbarram na alta carga tribut\u00e1ria, que chega a 82% para a cacha\u00e7a. Segundo o diretor-executivo do Ibrac, a inclus\u00e3o de pequenas empresas do setor no Simples Nacional, regime tribut\u00e1rio simplificado, em 2016, deu um alento, mas grande parcela do volume de produ\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 sujeito a uma carga tribut\u00e1ria elevada.<\/p>\n<p>No ano passado, o instituto lan\u00e7ou um manifesto reivindicando pol\u00edticas p\u00fablicas que ajudem o mercado a crescer. Entre elas, o combate \u00e0 clandestinidade e \u00e0 informalidade, superior a 85%, segundo o setor, a reavalia\u00e7\u00e3o da carga tribut\u00e1ria sobre a bebida e a amplia\u00e7\u00e3o dos esfor\u00e7os de promo\u00e7\u00e3o e de prote\u00e7\u00e3o do produto.<\/p>\n<p>Nesse \u00faltimo ponto, este ano a cacha\u00e7a ganhou o reconhecimento e prote\u00e7\u00e3o da Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica da cacha\u00e7a pela Uni\u00e3o Europeia, com a assinatura do acordo entre Mercosul e o bloco europeu. As redu\u00e7\u00f5es de tarifas tamb\u00e9m tendem a facilitar os neg\u00f3cios com esse competitivo mercado. At\u00e9 ent\u00e3o, apenas quatro pa\u00edses protegiam a denomina\u00e7\u00e3o da cacha\u00e7a: Col\u00f4mbia, Estados Unidos, M\u00e9xico e Chile.<\/p>\n<p>De acordo com Lima, mais importante que o ganho monet\u00e1rio, \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o intang\u00edvel desse ativo que \u00e9 a cacha\u00e7a. \u201cTer a Uni\u00e3o Europeia reconhecendo a cacha\u00e7a \u00e9 como se mandasse uma mensagem do local onde \u00e9 o ber\u00e7o das indica\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, que existem as mais emblem\u00e1ticas, como champagne, scotch whisky, produtos aliment\u00edcios como parma. E eles reconhecem a cacha\u00e7a, isso \u00e9 extremamente importante\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cA indica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica tem o papel de evitar o uso indevido da denomina\u00e7\u00e3o por terceiros, por produtos que n\u00e3o s\u00e3o origin\u00e1rios do Brasil\u201d, explicou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Branquinha, a bendita, \u00e1gua-que-passarinho-n\u00e3o-bebe, pinga, m\u00e9, caninha, levanta-velho, danada. A lista de sin\u00f4nimos \u00e9 extensa, a cacha\u00e7a est\u00e1 presente de v\u00e1rias formas no vocabul\u00e1rio e na hist\u00f3ria do Brasil. 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