{"id":215843,"date":"2019-09-15T17:18:27","date_gmt":"2019-09-15T20:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=215843"},"modified":"2019-09-15T18:20:32","modified_gmt":"2019-09-15T21:20:32","slug":"brasil-tem-82-mil-desaparecidos-em-apenas-um-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-tem-82-mil-desaparecidos-em-apenas-um-ano\/","title":{"rendered":"Brasil tem 82 mil desaparecidos em um ano"},"content":{"rendered":"<p>O administrador Jonis Gon\u00e7alves Martins , 45 anos, morador de Vila Maria na zona norte de S\u00e3o Paulo, recorda-se do \u00faltimo dia que viu a m\u00e3e, a dona de casa Sueli de Oliveira, que despareceu. \u201cEra um s\u00e1bado \u00e0 tarde. Eu estava descansando ap\u00f3s o almo\u00e7o, e percebi que ela foi tr\u00eas vezes ao lado da minha cama e ficou me olhando sem falar nada. Acabei pegando no sono e quando levantei, j\u00e1 era no final da tarde, e ela n\u00e3o estava mais em casa\u201d. Sueli de Oliveira tinha 67 anos e est\u00e1 desaparecida h\u00e1 mais de tr\u00eas anos (desde 30 de janeiro de 2016).<\/p>\n<p>\u201cA cada jantar que voc\u00ea faz, vem ela no pensamento. A cada passeio, a cada frio, a cada calor, a cada sorriso, a cada conquista sempre tem um pouco [dela] presente. A cada rosto ou gesto parecido, ela vem \u00e0 cabe\u00e7a\u201d, conta Jonis Martins. A separa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada pela aus\u00eancia inexplic\u00e1vel \u00e9 lembrada no filho que espera a m\u00e3e e na m\u00e3e que n\u00e3o sabe do paradeiro do filho sumido ainda na adolesc\u00eancia (17 anos), h\u00e1 mais de 10 anos.<\/p>\n<p>\u201cMe lembro dele a todo instante, quando vou tomar caf\u00e9, almo\u00e7ar, e na hora do jantar. Quando est\u00e1 chovendo, penso \u2018ser\u00e1 que ele est\u00e1 em lugar seguro? Ser\u00e1 que ele est\u00e1 nas ruas passando necessidade, com frio ou passando por perigo? Ser\u00e1 que est\u00e1 doente precisando de ajuda e n\u00e3o tem como se comunicar comigo?\u2019\u201d, descreve Lucineide da Silva Damasceno, de 53 anos, tamb\u00e9m de S\u00e3o Paulo. Segundo ela, o desaparecimento do filho, desde 3 de novembro de 2008, ainda n\u00e3o apresentou motivo. \u201cNenhuma explica\u00e7\u00e3o! Ele saiu para ir \u00e0 casa de um colega pr\u00f3ximo e n\u00e3o mais voltou\u201d.<\/p>\n<p>Os relatos de Jonis e Lucineide exp\u00f5em o desalento de milhares fam\u00edlias que registraram o desaparecimento de parentes. Em 2018, foram 82.094 casos, de acordo com o Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Foram contabilizados 39,4 desaparecimentos a cada grupo de 100 mil pessoas. Os n\u00fameros s\u00e3o apurados, a partir de micro dados das secretarias estaduais de seguran\u00e7a, pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, a pedido do Comit\u00ea Internacional da Cruz Vermelha (CICV).<\/p>\n<p>Em termos absolutos, os estados com o maior n\u00famero de pessoas desaparecidas em 2018 foram: S\u00e3o Paulo (24.366), Rio Grande do Sul (9.090), Minas Gerais (8.594), Paran\u00e1 (6.952) e Rio de Janeiro (4.619). Em termos relativos, taxa de desaparecimento por 100 mil habitantes, os maiores \u00edndices s\u00e3o do Distrito Federal (84,5), Rio Grande do Sul (80,2), Rond\u00f4nia (75,2), Roraima (70,4) e Paran\u00e1 (61,3).<\/p>\n<p>De 2007 a 2018, as estat\u00edsticas somam 858.871 casos, quase quatro vezes (3,88) a popula\u00e7\u00e3o estimada do Plano Piloto, onde ficam as sedes dos Tr\u00eas Poderes em Bras\u00edlia (DF). Nesse per\u00edodo de mais de uma d\u00e9cada, a m\u00e9dia \u00e9 de 71,5 mil registros de pessoas desaparecidas por ano.<\/p>\n<p><strong>N\u00fameros subestimados<\/strong><br \/>\nApesar de altos, os n\u00fameros podem estar subestimados. \u201cA gente sabe, por causa do contato com as fam\u00edlias, que h\u00e1 gente que n\u00e3o vai \u00e0 delegacia registrar o caso por diversas raz\u00f5es\u201d, afirma Marianne Pecassou, coordenadora de Prote\u00e7\u00e3o da Delega\u00e7\u00e3o Regional do CICV.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 pessoas que n\u00e3o sabem que t\u00eam que registrar na delegacia o desaparecimento, e que t\u00eam o direito a fazer esse registro. Mas os delegados sabem que \u00e9 prevarica\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazer o registro quando a fam\u00edlia procura a pol\u00edcia para fazer a ocorr\u00eancia\u201d, detalha Ivanise Esperidi\u00e3o da Silva, do movimento M\u00e3es da S\u00e9.<\/p>\n<p>De acordo com ela, \u201ctodos os anos, mais de 200 mil pessoas desaparecem no Brasil\u201d. O c\u00e1lculo de Ivanise da Silva \u00e9 baseado em levantamento feito ao final da d\u00e9cada de 1990 em pesquisa da Universidade de Bras\u00edlia, dispon\u00edvel na Rede Virtual de Bibliotecas, sob demanda do Movimento Nacional de Direitos Humanos, com apoio do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. \u201cSe de l\u00e1 para c\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o aumentou, n\u00e3o tem como achar que esse n\u00famero diminuiu\u201d, raciocina.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do problema de subnotifica\u00e7\u00e3o, Marianne Pecassou aponta que a falta de produ\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o leva ao desconhecimento sobre as raz\u00f5es e circunst\u00e2ncias do desaparecimento, como problemas de sa\u00fade mental, migra\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia empregada para diferentes prop\u00f3sitos &#8211; assalto, homic\u00eddio, abuso e explora\u00e7\u00e3o sexual, tr\u00e1fico de pessoas e at\u00e9 tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Ivanise da Silva reclama que os cadastros nacionais de desaparecidos para adultos e crian\u00e7as, lan\u00e7ados da d\u00e9cada passada, n\u00e3o foram atualizados e n\u00e3o podem ser utilizados para ajudar a localizar as pessoas e produzir uma estat\u00edstica confi\u00e1vel. Ela participou da elabora\u00e7\u00e3o das duas plataformas e lembra que o funcionamento desses servi\u00e7os est\u00e1 previsto em lei. \u201cAquilo foi para ingl\u00eas ver\u201d, salienta. \u201cO cadastro nacional de ve\u00edculos funciona e at\u00e9 acha carro roubado no Paraguai. Por que n\u00e3o temos cadastro para pessoas desaparecidas?\u201d, pergunta.<\/p>\n<p>A Lei n\u00ba 13.812\/2019, sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em mar\u00e7o, descreve no artigo 3\u00ba que \u201ca busca e a localiza\u00e7\u00e3o de pessoas desaparecidas s\u00e3o consideradas prioridade com car\u00e1ter de urg\u00eancia pelo poder p\u00fablico e devem ser realizadas preferencialmente por \u00f3rg\u00e3os investigativos especializados, sendo obrigat\u00f3ria a coopera\u00e7\u00e3o operacional por meio de cadastro nacional, inclu\u00eddos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a p\u00fablica e outras entidades que venham a intervir nesses casos\u201d. O Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA), de 1990, prev\u00ea no Artigo n\u00ba 87 o funcionamento de \u201cservi\u00e7o de identifica\u00e7\u00e3o e localiza\u00e7\u00e3o de pais, respons\u00e1vel, crian\u00e7as e adolescentes desaparecidos\u201d.<\/p>\n<p>Para Marianne Pecassou a disponibilidade e a troca de informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundamentais para resolver casos de desaparecimento. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio ter a\u00e7\u00f5es preventivas e esclarecimento da opini\u00e3o p\u00fablica. \u201cAlertar ajuda a prevenir\u201d, sublinha. \u201cN\u00e3o queremos piedade, mas precisamos de solidariedade.\u201d<\/p>\n<p>Na opini\u00e3o da coordenadora de Prote\u00e7\u00e3o da Delega\u00e7\u00e3o Regional do CICV, o Estado e a sociedade tamb\u00e9m devem cuidar melhor das fam\u00edlias com pessoas desaparecidas. \u201cEnfrentam problemas psicol\u00f3gicos ou psicossociais e de relacionamento com o seu entorno. S\u00e3o fam\u00edlias que est\u00e3o isoladas. Se recebem certo apoio no in\u00edcio das buscas, ao longo do tempo, se o familiar n\u00e3o aparece, as pessoas v\u00e3o se distanciando e essas fam\u00edlias v\u00e3o ficando cada vez mais isoladas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO tempo vai passando e as pessoas v\u00e3o se questionando e formando julgamentos. O tempo passa mais ainda as pessoas come\u00e7am a cansar dessa hist\u00f3ria e, depois de mais tempo, elas n\u00e3o querem mais saber do problema. Se voc\u00ea n\u00e3o se adaptar, ser\u00e1 completamente exclu\u00eddo da sociedade e at\u00e9 da fam\u00edlia\u201d, descreve Jonis Martins.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o existe nenhuma aten\u00e7\u00e3o da sociedade em rela\u00e7\u00e3o aos nossos desaparecidos\u201d, reclama Lucineide Damasceno. Para ela, o Poder P\u00fablico tamb\u00e9m deveria fazer mais: \u201co Estado pode capacitar profissionais para trabalhar na pol\u00edcia, implantar o Registro Geral (RG) Nacional, criar banco de dados entre delegacias, hospitais, institutos m\u00e9dicos legais, albergues, inclusive com imagens das pessoas que circulam ali diariamente\u201d, sugere.<\/p>\n<p>\u201cPara a sociedade \u00e9 mais f\u00e1cil nos tratar como coitadinhos. N\u00f3s n\u00e3o queremos piedade, mas precisamos de solidariedade\u201d, pondera Ivanise da Silva. Ela tamb\u00e9m \u00e9 cr\u00edtica da a\u00e7\u00e3o do Estado: \u201cpor tr\u00e1s desse problema de desaparecimento h\u00e1 crimes. Temos o direito de que seja apurado. O problema \u00e9 que desaparecido n\u00e3o vota\u201d, enfatiza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O administrador Jonis Gon\u00e7alves Martins , 45 anos, morador de Vila Maria na zona norte de S\u00e3o Paulo, recorda-se do \u00faltimo dia que viu a m\u00e3e, a dona de casa Sueli de Oliveira, que despareceu. \u201cEra um s\u00e1bado \u00e0 tarde. Eu estava descansando ap\u00f3s o almo\u00e7o, e percebi que ela foi tr\u00eas vezes ao lado [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":215844,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-215843","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215843","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=215843"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215843\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":215863,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/215843\/revisions\/215863"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/215844"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=215843"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=215843"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=215843"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}