{"id":216287,"date":"2019-09-21T23:08:51","date_gmt":"2019-09-22T02:08:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=216287"},"modified":"2019-09-21T23:09:49","modified_gmt":"2019-09-22T02:09:49","slug":"misterios-ainda-marcam-a-morte-de-lampiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/misterios-ainda-marcam-a-morte-de-lampiao\/","title":{"rendered":"Mist\u00e9rios ainda marcam a morte de Lampi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista e historiador Jo\u00e3o Marcos Carvalho, que produziu document\u00e1rio sobre os \u00faltimos dias do cangaceiro, pediu an\u00e1lise das pe\u00e7as que Lampi\u00e3o usava ao morrer. Mais de oito d\u00e9cadas se passaram, e a hist\u00f3ria ainda n\u00e3o chegou \u00e0 conclus\u00e3o de como Virgulino Ferreira da Silva, o Lampi\u00e3o, foi morto. O debate ainda rende entre pesquisadores do canga\u00e7o e segue longe de um consenso sobre como se deram os \u00faltimos suspiros de Lampi\u00e3o. H\u00e1 at\u00e9 mesmo quem duvide de sua morte.<\/p>\n<p>Uma novidade trouxe mais elementos a um debate que parece n\u00e3o ter fim. Trata-se de uma per\u00edcia feita nas roupas e objetos que estavam com Lampi\u00e3o no dia da emboscada policial na grota do Angico, sert\u00e3o de Sergipe, em 27 de julho de 1938. Ap\u00f3s as mortes, as cabe\u00e7as de Lampi\u00e3o, sua esposa Maria Bonita e outros cangaceiros foram cortadas e expostas ao p\u00fablico como trof\u00e9u no Recife.<\/p>\n<p>As pe\u00e7as estavam guardadas intoc\u00e1veis at\u00e9 ent\u00e3o no Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico de Alagoas &#8211; como a opera\u00e7\u00e3o que ca\u00e7ou o cangaceiro na caatinga foi feita pela Pol\u00edcia Militar do Estado, Alagoas herdou o material e o guarda como rel\u00edquia at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise foi feita pelo perito Victor Portela, do Instituto de Criminal\u00edstica de Alagoas. A BBC News Brasil teve acesso ao documento in\u00e9dito, datado de 19 de julho de 2019, que atesta que Lampi\u00e3o teria recebido tr\u00eas tiros.<\/p>\n<p>Mas a morte do rei do canga\u00e7o apresenta teses e mais teses. Uma delas \u00e9 que Lampi\u00e3o e o bando foram envenenados antes do tiroteio, e que a pol\u00edcia disparou contra o grupo j\u00e1 morto. H\u00e1 quem defenda que o rei do canga\u00e7o n\u00e3o morreu em Angico, mas, sim, um s\u00f3sia &#8211; o verdadeiro cangaceiro teria morrido com 100 anos em Minas Gerais.<\/p>\n<p>&#8220;Se quiser, conto as duas mil teses que existem sobre a morte&#8221;, brinca o historiador e jornalista Jo\u00e3o Marcos Carvalho, autor do document\u00e1rio ainda in\u00e9dito Os \u00daltimos Dias do Rei do Canga\u00e7o. Foi ele quem pediu ao perito alagoano uma an\u00e1lise das pe\u00e7as, que deve reabrir um debate que parecia ter encontrado seu fim no ano passado, quando o escritor Frederico Pernambucano de Mello publicou livro Apagando Lampi\u00e3o.<\/p>\n<p>Na publica\u00e7\u00e3o, o pesquisador do canga\u00e7o afirma que Lampi\u00e3o morreu com um \u00fanico tiro disparado a oito metros de dist\u00e2ncia pelo cabo Sebasti\u00e3o Vieira Sandes. A vers\u00e3o ainda diz que o tiro certeiro foi dado de fuzil, conforme relatado pelo pr\u00f3prio policial alagoano autor do disparo &#8211; que o procurou quando estava com doen\u00e7a terminal em 2003 para revelar o que seria o maior segredo.<\/p>\n<p><strong>Debate<\/strong><br \/>\nPara Carvalho, a tese de Frederico est\u00e1 errada. Ele diz que Lampi\u00e3o foi morto pela pol\u00edcia em uma emboscada e estava com outros integrantes do grupo quando foi surpreendido.<\/p>\n<p>Em busca de mais detalhes sobre o enigma da morte do cangaceiro, Carvalho pediu um laudo ao perito alagoano. &#8220;Procurei o perito Victor Portela e solicitei a an\u00e1lise daqueles objetos que estavam guardados e nunca tinham sido mexidos&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>\u00c0 BBC News Brasil, o perito disse que de imediato aceitou a miss\u00e3o. Ainda em 2018, ele iniciou a an\u00e1lise no punhal, nas cartucheiras e nos bornais (tipo de bolsas usadas pelo canga\u00e7o) de Lampi\u00e3o. Segundo ele, foram percebidos pontos de impacto e perfura\u00e7\u00f5es nos materiais utilizados.<\/p>\n<p>O laudo de Portela diz que foram tr\u00eas tiros. O primeiro deles acertou o punhal, e a bala acabou desviada para a regi\u00e3o umbilical; outro atravessou a cartucheira &#8211; que era utilizada no ombro &#8211; e atingiu o cora\u00e7\u00e3o; e o terceiro atingiu cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Para o perito, \u00e9 imposs\u00edvel saber qual dos tiros &#8211; ou se a combina\u00e7\u00e3o deles &#8211; matou Lampi\u00e3o. Mas ele destaca que sua experi\u00eancia como perito aponta um dado controverso das teorias at\u00e9 ent\u00e3o: os disparos no peito e na barriga n\u00e3o matariam o cangaceiro instantaneamente.<\/p>\n<p>&#8220;Ele poderia morrer alguns minutos depois pelo sangramento. S\u00f3 o tiro na cabe\u00e7a o mataria r\u00e1pido, mas n\u00e3o temos como dizer a cronologia dos disparos&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Um dos pontos novos apresentados no laudo veio da an\u00e1lise dos bornais feitos por Dad\u00e1 (famosa cangaceira do grupo), que tinham duas marcas de tiros. Jo\u00e3o Marcos cr\u00ea que Lampi\u00e3o n\u00e3o teve tempo de vesti-los no momento do tiroteio. &#8220;Quando o bando chegou \u00e0 grota, o local n\u00e3o estava em um sil\u00eancio de catedral. Lampi\u00e3o estava vestindo a cartucheira, o punhal e tomou os tiros ali. N\u00e3o deu tempo de ele vestir os bornais&#8221;, explicou.<\/p>\n<p>Portela concorda com o jornalista e historiador, revelando que a per\u00edcia mostrou que os tiros foram dados de cima pra baixo, e que os bornais n\u00e3o tinham marca de sangue. &#8220;Ficou uma inc\u00f3gnita com rela\u00e7\u00e3o aos bornais, mas quando fiz a sobreposi\u00e7\u00e3o das cartucheiras com os bornais, vi que n\u00e3o h\u00e1 compatibilidade com nenhum dos disparos&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p><strong>Neta recha\u00e7a ideia de um tiro<\/strong><br \/>\nVera Ferreira, neta de Lampi\u00e3o, disse \u00e0 BBC News Brasil acreditar que a per\u00edcia recente sustenta a teoria mais correta a respeito da morte do av\u00f4.<\/p>\n<p>Ferreira n\u00e3o acredita na vers\u00e3o de tiro \u00fanico, nem de envenenamento, muito menos de que seu av\u00f4 sobreviveu e morreu em Minas Gerais. &#8220;Quando o corpo do meu av\u00f4 foi periciado, apontou-se tr\u00eas tiros&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Questionada sobre a vers\u00e3o de que o cabo Sandes ter matado o av\u00f4, Vera afirmou que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber quem matou Lampi\u00e3o. &#8220;Quem deu o tiro de miseric\u00f3rdia? Imagine v\u00e1rias pessoas atirando ao mesmo tempo, o mesmo alvo, ningu\u00e9m sabe&#8221;, completou.<\/p>\n<p><strong>O &#8216;julgamento&#8217; de Lampi\u00e3o<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m da pol\u00eamica da forma da morte, a hist\u00f3ria de Lampi\u00e3o tamb\u00e9m levanta o questionamento: her\u00f3i ou bandido? Matar Lampi\u00e3o era um desejo das autoridades brasileiras desde a segunda metade da d\u00e9cada de 1930. A ordem foi dada pelo ent\u00e3o presidente Get\u00falio Vargas. Atendendo a pedidos de pol\u00edticos nordestinos, ele imp\u00f4s uma longa ca\u00e7ada ao bando.<\/p>\n<p>Um semin\u00e1rio marcado para 2020, em Piranhas, sert\u00e3o de Alagoas, vai levar as teses da morte e &#8220;julgar&#8221; se Lampi\u00e3o era her\u00f3i ou bandido. &#8220;Existem aqueles que defendem que Lampi\u00e3o era bandido, mas alguns dizem que o cangaceiro era uma v\u00edtima da sociedade. Vamos analisar isso&#8221;.<\/p>\n<p>O j\u00fari ser\u00e1 composto por promotores, ju\u00edzes, advogados e os historiadores, aos quais ser\u00e3o apresentadas as vers\u00f5es, casos e opini\u00f5es.<\/p>\n<p>O perito Victor Portela tamb\u00e9m contou que na ocasi\u00e3o ser\u00e1 apresentado o laudo. &#8220;Vamos utilizar a per\u00edcia para excluir teorias que n\u00e3o s\u00e3o compat\u00edveis com os fatos que foram levantados. Vamos filtrar e excluir teorias que realmente n\u00e3o batem&#8221;, disse. &#8220;Al\u00e9m do julgamento queremos posteriormente fazer uma an\u00e1lise no local com reprodu\u00e7\u00e3o simulada para ver os pontos de impacto no local&#8221;, disse.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornalista e historiador Jo\u00e3o Marcos Carvalho, que produziu document\u00e1rio sobre os \u00faltimos dias do cangaceiro, pediu an\u00e1lise das pe\u00e7as que Lampi\u00e3o usava ao morrer. 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