{"id":216420,"date":"2019-09-24T02:40:49","date_gmt":"2019-09-24T05:40:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=216420"},"modified":"2019-09-24T02:48:40","modified_gmt":"2019-09-24T05:48:40","slug":"corais-resistem-a-luta-travada-pela-busca-ao-petroleo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/corais-resistem-a-luta-travada-pela-busca-ao-petroleo\/","title":{"rendered":"Corais resistem \u00e0 luta travada pela busca ao petr\u00f3leo"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s cr\u00edticas de pol\u00edticos e cientistas, novo estudo aponta que algas, esponjas e corais de recifes na foz do Amazonas seguem em expans\u00e3o. Especialistas pedem preserva\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o cobi\u00e7ada pela ind\u00fastria do petr\u00f3leo.Desde que foi descrito como um dos ecossistemas mais importantes num local pouco prov\u00e1vel do oceano Atl\u00e2ntico, o grande complexo de recifes da Amaz\u00f4nia despertou cr\u00edtica no mundo cient\u00edfico e pol\u00edtico. A regi\u00e3o onde est\u00e1 localizado, na foz do rio Amazonas, \u00e9 cobi\u00e7ada pela ind\u00fastria do petr\u00f3leo com uma reserva estimada em at\u00e9 14 bilh\u00f5es de barris.<\/p>\n<p>Novas descobertas agora revelam mais detalhes sobre os recifes: est\u00e3o vivos e em expans\u00e3o. \u00c9 a conclus\u00e3o de um artigo cient\u00edfico publicado na revista Nature Scientific Reports nesta segunda-feira (23).<\/p>\n<p>&#8220;O que n\u00f3s fizemos foi determinar as idades da estrutura da \u00e1rea e mostramos que as idades s\u00e3o atuais, ou seja, os recifes continuam crescendo, mesmo abaixo da pluma [de sedimentos transportada pelo Amazonas]&#8221;, afirma a DW Brasil Michel Mahiques, do Instituto Oceanogr\u00e1fico da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo), e primeiro autor do artigo.<\/p>\n<p>Para muitos pol\u00edticos e cientistas n\u00e3o envolvidos no estudo, seria imposs\u00edvel encontrar esse tipo de vida abaixo da pluma do Amazonas, que carrega materiais depositados pela floresta por centenas de quil\u00f4metros depois de encontrar o Atl\u00e2ntico. Essas caracter\u00edsticas influenciam a composi\u00e7\u00e3o da \u00e1gua salgada e luminosidade que chega ao fundo do mar.<\/p>\n<p>Em dezembro passado, a Fiepa, Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Par\u00e1, organizou um semin\u00e1rio em que classificou como &#8220;falsos&#8221; os estudos previamente publicados e que ONGs estariam &#8220;interferindo no desenvolvimento da Amaz\u00f4nia&#8221;.<\/p>\n<p>No entanto, an\u00e1lises feitas por pesquisadores de diferentes institui\u00e7\u00f5es brasileiras e publicadas em revistas cient\u00edficas apontam que h\u00e1 recifes espalhados por uma \u00e1rea que chega a 900 km de comprimento, que se estende pela costa norte brasileira, na faixa dos estados do Par\u00e1 e Maranh\u00e3o, at\u00e9 a Guiana Francesa. Estima-se que o recife tenha cerca de 56 mil km\u00b2.<\/p>\n<p>Formados por algas, esponjas e corais, esses recifes chegam a at\u00e9 220 metros de profundidade, come\u00e7aram a ser formados h\u00e1 cerca de 13 mil anos e se desenvolveram sob diferentes condi\u00e7\u00f5es de luminosidade at\u00e9 se espalharem pela por\u00e7\u00e3o sul do Atl\u00e2ntico, afirma o artigo.<\/p>\n<p>Segundo os autores, a an\u00e1lise dos materiais coletados no local em 2017 e 2019, feita com a t\u00e9cnica baseada no uso do Carbono 14, apontou idades modernas. &#8220;S\u00e3o mais jovens que 1950, que \u00e9 a idade de refer\u00eancia do radiocarbono&#8221;, pontua Mahiques. Com a t\u00e9cnica de data\u00e7\u00e3o baseada no carbono radioativo \u00e9 poss\u00edvel rastrear materiais de at\u00e9 45 mil anos de idade.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 preciso lembrar que uma por\u00e7\u00e3o muito pequena dos recifes foi mapeada at\u00e9 o momento&#8221;, ressalta Mahiques. &#8220;A import\u00e2ncia dele reside muito mais na biodiversidade do que na exist\u00eancia de corais&#8221;, complementa.<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia e disc\u00f3rdia<\/strong><br \/>\nA possibilidade de exist\u00eancia desse ecossistema na regi\u00e3o da foz do rio Amazonas \u00e9 citada por cientistas desde de meados de 1970. Por outro lado, foi s\u00f3 em 2016 que um estudo reuniu dados suficientes para comprovar a hip\u00f3tese, que causou grande repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2018, uma expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica a bordo do navio Esperanza, do Greenpeace, comprovou a exist\u00eancia de recifes sobre a faixa onde empresas de petr\u00f3leo aguardavam autoriza\u00e7\u00e3o do governo brasileiro para perfurar. Al\u00e9m das estruturas rec\u00e9m-descobertas, a regi\u00e3o tem uma das correntes mais fortes do mundo, que imp\u00f5e dificuldades t\u00e9cnicas para instala\u00e7\u00e3o de plataformas de petr\u00f3leo e poderia causar grandes estragos em caso de vazamento.<\/p>\n<p>Ronaldo Francini-Filho, pesquisador da UFPB (Universidade Federal da Para\u00edba), participou daquela miss\u00e3o. &#8220;N\u00e3o acreditar que o Recife do Amazonas existe \u00e9 o mesmo que n\u00e3o acreditar em mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8221;, diz sobre os questionamentos feitos ap\u00f3s a comprova\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia das estruturas.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Francini-Filho, um dos autores do artigo da Nature Scientific Reports, o negacionismo cient\u00edfico tem sido usado para justificar projetos que promovem elevada degrada\u00e7\u00e3o ambiental em todo o mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Enquanto que uma maioria de cientistas indica que o aquecimento global est\u00e1 sendo causado principalmente pela a\u00e7\u00e3o humana, setores interessados na expans\u00e3o de fontes de energia que emitem grande quantidade de gases de efeito estufa, como queima de petr\u00f3leo, negam que existam mudan\u00e7as clim\u00e1ticas&#8221;, argumenta Francini-Filho.<\/p>\n<p>O pesquisador ressalta que diferentes trabalhos cient\u00edficos nos \u00faltimos dez anos t\u00eam apontado a exist\u00eancia de recifes de corais vivos at\u00e9 abaixo de 150 metros de profundidade. &#8220;No caso do Amazonas, temos um trabalho de sensoriamento remoto demonstrando que existe luz suficiente para o crescimento de corais e outros organismos construtores em \u00e1reas profundas da plataforma norte do Brasil, mesmo com a alta turbidez da \u00e1gua&#8221;, argumenta, fazendo refer\u00eancia ao artigo divulgado na publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica especializada em ambientes marinhos em \u00e1guas superficiais Continental Shelf Research.<\/p>\n<p><strong>Interesse por petr\u00f3leo<\/strong><br \/>\nPor causa da reserva de petr\u00f3leo estimada na foz do Amazonas, empresas internacionais e brasileiras tentam h\u00e1 anos obter licen\u00e7a para explora\u00e7\u00e3o. No fim de 2018, um parecer do Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renov\u00e1veis) barrou definitivamente o processo de licenciamento da Total. O da brit\u00e2nica BP continua em andamento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as revela\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia e na tentativa de preservar o ecossistema ainda pouco conhecido, a ONG Greenpeace lan\u00e7ou a campanha internacional &#8220;Defenda os Corais da Amaz\u00f4nia&#8221;. No in\u00edcio de setembro, uma equipe de profissionais realizou o primeiro mergulho profundo no local. At\u00e9 ent\u00e3o, o fundo do mar naquela por\u00e7\u00e3o tinha sido &#8220;visitado&#8221; por um submarino e um rob\u00f4.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o podemos nos dar ao luxo de perfurar e queimar mais petr\u00f3leo. Como uma compara\u00e7\u00e3o, mesmo se o desmatamento da Amaz\u00f4nia acabasse amanh\u00e3, se as reservas estimadas na regi\u00e3o dos Corais da Amaz\u00f4nia forem queimadas, seria o mesmo que continuar a desmatar por mais oito anos&#8221;, diz Thiago Almeida, coordenador da campanha do Greenpeace.<\/p>\n<p>Diante da pol\u00eamica, Fabiano Thomson, cientista da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e um dos autores do estudo, ressalta que h\u00e1 um grande potencial para criar novas solu\u00e7\u00f5es baseadas na biodiversidade dos recifes do Amazonas, e que \u00e9 preciso saber respeitar resultados cient\u00edficos.<\/p>\n<p>&#8220;Precisamos desenvolver pesquisa cient\u00edfica independente. E as empresas precisam aprender a desenvolver a cultura de tomada de decis\u00f5es com base em evid\u00eancias cient\u00edficas&#8221;, afirmou \u00e0 DW Brasil, citando que essa abordagem \u00e9 comum para a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas na Europa. &#8220;\u00c9 importante parar esta atitude predat\u00f3ria e que compra cumplicidade de certos &#8216;pesquisadores&#8217; para avalizar atividades sem evid\u00eancia cient\u00edfica&#8221;, opina Thompson.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s cr\u00edticas de pol\u00edticos e cientistas, novo estudo aponta que algas, esponjas e corais de recifes na foz do Amazonas seguem em expans\u00e3o. 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